sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Seja bom e ganhe um inimigo

Para parte considerável das pessoas, não é suficiente que estejam bem e, sim, sempre melhor que as outras. Isso conduz o modo como costumam medir a própria grandeza. Não pelo que são, mas pelo que são em comparação às demais. Não foi à toa que Oscar Wilde disse que para se conquistar um inimigo é suficiente ser uma boa pessoa para ele. De fato, muita gente troca a gratidão pela sensação de dever favores a quem é legal com elas. Assim, em vez de reconhecimento ou gratidão, sentem-se é pequenas. E contam os dias para devolverem quaisquer ajudas que recebem. A ajuda as incomoda. Odeiam precisar de ajuda. Não a aceitam com alegria e, sim, com tristeza ou vergonha. Eu fico pensando nisso porque entendo que para sermos amados precisamos saber receber amor sem jogar pedras nos outros. Nunca sei o que é mais difícil ao ser humano, se é amar ou se é aceitar ser amado.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Um viva aos cariocas!

Ontem eu postei um vídeo sobre ser um "carioca da gema", no Facebook e no meu story do Instagram. Agora há pouco recebo lá o seguinte comentário de um belorizontino e, portanto, meu conterrâneo: "Antipáticos desde a tenra idade". Respondi, obviamente, que discordo dessa visão sobre os cariocas. 

Moro no Rio há dezessete anos. A cultura é bem diferente da cultura em BH. A cidade é bem mais caótica. Mas, nem por isso pouco acolhedora. O Rio tem pessoas de todas as partes do país, algo mais difícil de se ter em BH, por exemplo. 

Noto que o fato de o carioca se orgulhar muito de ser carioca sempre incomodou o bairrista belorizontino. Sim. Porque o belorizontino é extremamente bairrista, né? Sabe-se lá porque considera que as outras populações se acharem o máximo afeta a sua vida em alguma coisa. 

Morei em BH até os meus vinte e cinco anos. Lá eu sentia que as pessoas sempre se preocupavam se a grama do vizinho era mais verde. Aqui no Rio as pessoas não se preocupam tanto com a grama do vizinho. Afinal, quem tem praias tão lindas vai se preocupar com grama de vizinho? 

O carioca é veloz, é objetivo e é despojado. Não anda arrumadinho como os belorizontinos. Aqui o uniforme é regata, bermuda, chinelo e óculos escuros. O carioca gosta de curtir a vida e isso transparece em seu sotaque cheio de ginga. O carioca fala como se estivesse sambando. E, mais importante, o carioca não repara na roupa dos outros como os belorizontinos reparam. 

Enquanto os mineiros puxam papo com os "forasteiros" (gente de outras cidades) o tempo todo, sempre tentando oferecer um pão-de-queijo e um café pra puxar a sua língua, o carioca deixa o café na mesa para que você se sirva, sem nenhum tipo de cerimônia. O carioca não pergunta sobre sua vida, não pergunta o que você está fazendo, não pergunta nem de onde você veio. O carioca percebe pelo teu sotaque e te oferece um Guaravita gelado. O carioca não alonga a conversa. O carioca precisa aproveitar o tempo para dar um mergulho. E ele vai dar um, dois, três. 

O carioca é alegre, bem humorado, bronzeado, feliz. O carioca sequer se importa se alguém o acha marrento. O carioca se encherá mais ainda de orgulho disso, prezado belorizontino. 

O carioca é carioca. E isso não é pra qualquer um. Por fim, devo dizer que tenho um filho carioca e ainda em tenra idade. E, portanto, quero que vá à merda quem disser que cariocas são antipáticos desde a tenra idade. Ou, em bom mineirês, que vá pastar!

O advogado do diabo

O que mais me impressiona é a quantidade de gente que vai a missas e que admira pessoas responsáveis pela implantação de governos tiranos. Governos que torturam pessoas, que deixam crianças órfãs. Pessoas moralmente deploráveis aplaudidas de pé por cristãos de meia tigela. Repito: de pé, por cristãos de meia tigela. 

Esse troço de pagar de bonzinho, de pregador da paz, mas ao mesmo tempo enaltecer criminosos de guerra revela, pelo menos aos meus olhos, um contrasenso enorme. Há algo errado em um comportamento assim, pois é um comportamento muito hipócrita. A menos que ser hipócrita não seja mais um problema moral, a hipocrisia deve levar uma pessoa crítica a buscar entender porque está sendo contraditória. Pode fazer Psicanálise ou pode perguntar como as outras pessoas a enxergam, para tentar ver se a imagem linda que tem de si mesma coincide com o que os outros percebem. Ou será que acham que ninguém percebe? 

Incomoda-me também a covardia que demonstram ao negarem os motivos que as levam a admirarem canalhas. Ninguém deve justificar porque admira um canalha. Afinal, todos temos direito de admirar canalhas. Mas, é muito feio fingir que não admira. É bonito quando assumimos nossa posição se admirarmos um canalha a ponto de nos preocuparmos tanto em enaltecê-lo, a ponto de nos preocuparmos tanto em homenageá-lo. Assumir a admiração já explícita em vez de covardemente, hipocritamente, negá-la. Todos já estão vendo. O rei está nu.

"A vaidade é o meu pecado favorito", disse Milton, personagem do Al Pacino em "O advogado do diabo". E a vaidade, sobretudo a acadêmica, a intelectual, faz com que muitos esqueçam os crimes de guerra de outro acadêmico para tentar valorizar um intelecto que nunca é colocado em prática nem mesmo pelo próprio "intelectual". Em outras palavras, nem o aplaudido por bajuladores acredita em si mesmo. Os bajuladores lhe engraxam os sapatos sujos de sangue, lustrando-os para que algo brilhe em uma criatura detestável. 

Sempre haverá tempo para uma pessoa cristã entender que Cristo e Kissinger não falam a mesma língua. E sempre haverá tempo para quem se acha impecável perceber que também peca. Segundo o apóstolo Mateus, mais precisamente no capítulo 6, versículo 21 de seu Evangelho: onde está o seu tesouro, aí está também o seu coração. Deste modo, aquilo que você valoriza é exatamente aquilo que você ama. Não se pode valorizar, portanto, quem faz guerras e amar Cristo, pois Cristo jamais passaria pano para criminosos de guerra. Ou se valoriza um tirano ou se valoriza Cristo. Ambos são muito antagônicos para serem simultaneamente defendidos. Assim,  façamos um brinde à vaidade! Ela quase sempre vence o homem e o joga abruptamente no chão. A vaidade, a formidável vaidade. O pecado favorito dos advogados do diabo.

A linguagem e a argumentação

Uma das características mais marcantes de qualquer matemático é saber identificar falhas em uma argumentação. Isso se deve à sua formação, que lida com raciocínio formal lógico-dedutivo o tempo todo. Deste modo, somos muito atentos ao "se, então", ou seja, a analisar se, de fato, uma coisa realmente implica na outra.
 
No filme "O desafio de Marguerite", a protagonista é xingada pela  instrutora de um curso para vendas por sugerir que ela mudasse o enunciado, que era incongruente. Na vida real, isso também acontece o tempo todo. Vira e mexe, eu recebo grosserias ou sou excluída porque ousei observar falhas na argumentação de pessoas que fazem afirmações meramente especulativas. 

Ora, isso mostra que tais pessoas não estão preocupadas com o estudo da coisa em si, mas apenas em serem olavos de carvalho da vida, desejosas de brilho filosófico sem argumentos que justifiquem tal brilho. O que na matemática ou mesmo entre cientistas é corriqueiro e plenamente aceito - muitas vezes até com gratidão -, não o é entre a maioria das pessoas. 

A Ciência e a Filosofia estão acima dos egos pessoais. Ontem eu dei um comentário absolutamente pertinente, que foi atacado por um cara sem que houvesse falha alguma no que foi expresso por mim. Ao perceber que ele não compreendia o que eu dizia, mostrei-lhe um contraexemplo para perceber onde estava a sua falha de raciocínio. Minha intenção? Nenhuma. Isso faz parte do ato de pensar, da argumentação. É algo tão natural como respirar. 

Não houve grosseria alguma da minha parte. Apenas expressei meu pensamento em uma postagem pública que afirmava universalmente uma coisa sem contextualizá-la histórica e, sobretudo, socialmente. Apresentei um contraexemplo e fui excluída porque sou uma mulher "que ousa pensar" e sempre se expressar entre pessoas que, ao fim, acabo percebendo que agem com estupidez. E com estupidez não por falhas de argumentação (afinal, quem nunca falha nisso?), mas por serem incapazes de compreender o significado de duas locuções: liberdade de expressão e busca pela verdade. 

Não é à toa que nunca fui atacada por filósofos. Afinal, a dialética nasce na Filosofia. E seu uso, assim como o próprio espírito filosófico, é aplicável em todas as ações humanas, uma vez que em todas elas devemos pensar no que fazemos e no porquê de estarmos fazendo isso e não aquilo. A razão deve preceder as ações ou seremos alienados. Uma pessoa alienada é aquela que despreza as hipóteses, as causas, e acredita que compreende bem a tese, ou seja, os efeitos. 

Ninguém é arrogante por fazer questão de pensar sempre. Arrogantes são aqueles que afirmam coisas falsas, que se baseiam em raciocínios falhos, e, ainda assim, querem que todos as aceitem como verdadeiras. Esse comportamento fere  o espírito matemático, que se fundamenta, essencialmente, no trabalho lógico-dedutivo. Independente da área em que se trabalha, um contraexemplo é um contraexemplo. A matemática não especula. Não é à toa que a maioria de nós se irrita com a economia baseada em especulação e com qualquer afirmação imposta a todos mesmo sendo mal fundamentada, mal estruturada, sem se sustentar de modo algum. Como sugere a Marguerite, no filme que vi quinta-feira, basta mudar o enunciado! Basta aplicar o exercício da razão, exercício esse que é indissociável da humildade. 


Ser humilde não é ser calado. Ser humilde é apreciar mais o pensamento que os aplausos. O ato de pensar é sempre um ato de humildade. Em particular, deve aceitar questionamento, pois é dialético. Quem pensa não apaga comentários nem exclui pessoas que "ousam" questionar seus argumentos. Menos ainda, ofende-se com contraexemplos.  Quem pensa entende que não importa quem seja o interlocutor! Pode ser feio, bonito, temperamental ou sereno. O que importa unicamente é o texto, é o que está sendo dito. Nada é pessoal para aqueles que se atêm unicamente ao texto, ao que está sendo dito , e não às características de quem diz. 

A própria crítica literária, só pra mostrar que também se impregna de argumentação e não de gosto pessoal,   estuda o poema e não os atributos do poeta para construir os sentidos do texto. O distanciamento do poeta é o distanciamento do interlocutor. É olhar para o objeto de estudo: o texto. É o estudo primoroso da estética. Há tanta beleza na crítica literária! E há justamente porque se atem exclusivamente ao texto. É sempre no texto que estão os sentidos e os valores da criação. Nunca é no poeta.
Igualmente, é no argumento que está o pensamento. 
Quando as pessoas aprenderão a se ater exclusivamente ao texto? Quando aprenderão que seus sentidos são construídos, entre tantas outras coisas, pela coerência apresentada? 

Não tenho culpa de amar os números e as palavras. Não tenho culpa em ser uma apaixonada pelas linguagens e em aplicar essa paixão no bom uso delas. Aceitem isso ou simplesmente me excluam mesmo. Porque eu sou muito consciente de que contraexemplos não ferem ninguém. E sou também muito consciente de que não mereço grosserias só por gostar dos porquês. A propósito, sou uma pessoa extremamente delicada. Mas, só quem sabe ler consegue perceber que sou.

Só os poetas conseguem ser inocentes

Pode-se admirar a obra de um homem sem admirar o homem. E quando se trata de alguém deplorável cuja obra se admira, tudo que se espera de quem separa tal homem de sua obra é que, no momento de sua morte, faça-lhe apenas um minuto de silêncio. Isso, sim, revela separar um homem detestável de sua obra, quando se considera esta relevante.


Curiosamente, muitos enaltecem homens deploráveis, por algo intelectual que tenham deixado. E, como justificativa, dizem que o fazem por serem imparciais. Ora, imparciais seriam se não manifestassem a admiração, se não se incomodassem em ver um homem morto ser merecidamente julgado por sua moral empobrecida por atos de violação aos direitos humanos. 


Quem separa o homem da obra sabe que as obras podem ser imortais, mas, os homens não. Aceita-se a morte do homem e, se deplorável, não se sofre nenhum pouco com tal morte. Sente-se até um alívio, como se alguma justiça tivesse finalmente sido feita, quando a vida leva embora pessoas responsáveis pelo fim da vida de outras. Por outro lado, a obra fica, permanece intocável e, portanto, os admiradores da obra não têm motivos reais para se inquietarem com a morte do autor. Assim, a morte de um homem só incomoda realmente quem não é capaz de separar um homem de sua produção intelectual ou artística e não o contrário. Só incomoda quem é parcial. Os imparciais não sentirão sua morte, uma vez que saberão que a obra e o autor não se misturam. 


Opa! Mas, espere um pouco aí.  Será mesmo que em todas as áreas, autor e obra não se misturam? Ou apenas na produção artística? Existe eu lírico em um texto acadêmico? Aí é que está! Na ciência, os textos são escritos com o conhecimento da causa e efeito. E são textos com intencionalidade. Escreve-se para defender um ponto de vista bem fundamentado teoricamente a partir de dados bem analisados. A intencionalidade textual faz com que autor e obra não se separem. Se um autor se separa de um texto acadêmico, é porque nem ele acredita no que escreve, escrevendo, portanto, apenas para vender seu peixe. Em tal caso, escapa-nos uma pergunta imediata:  a troco do que escreve? Trabalha para quem? Quem o está pagando para escrever? Quem o está comprando? Aos interesses de quem atende?


A ciência nunca foi imparcial, uma vez que se insere na esfera política. Isso não significa que não seja confiável. Significa apenas que ela não pode se isentar das consequências que sabe muito bem que deixa. 


Uma obra só consegue se separar do autor quando se trata de textos literarios. Isso porque esse tipo de texto foge a licenças de ordem moral. É o texto pelo texto. A estética é o seu foco e os diversos sentidos que produz. A palavra não deve ser amarrada. Pelo contrário, corre solta. Mas, corre solta por linhas bem traçadas pelos autores.  Quanto mais o poeta desvencilhar o texto de si, melhor cumprirá a sua pena. A pena que escreve. Não a punição. Afinal, o poeta não é o poema. E é nisso que ele se salva. É nisso que ele escapa daquilo que escreve. Ninguém pode provar que ele quis dizer isso ou aquilo. A poesia multiplica sentidos e torna leitor coautor de qualquer obra. Apenas os textos literários têm essa capacidade. Os acadêmicos, não. Os acadêmicos colocam o autor no olho do furacão. Somente a literatura é capaz de criar sem deixar rastros de seus autores. Assim, a poesia inocenta o poeta. E, assim, só se pode ser realmente livre dentro do campo da criação artística. 


Ninguém fala em criação acadêmica e, sim, em produção acadêmica. A gente fala é em criação artística. A produção acadêmica tem o propósito de prestar serviço à sociedade. A criação artística, não. Esta insere o homem em sua individualidade, que nunca deixa de ser também coletiva. Não há um só sentido, uma só interpretação (Quem assina, de fato, o poema?). No texto acadêmico, porém, só há uma interpretação. Somente os autores se responsabilizam pela interpretação daqueles que souberem ler. Assim,  torna-se impossível separá-los de suas próprias obras. Nenhum cientista é inocente. A ética deve, portanto, ser seu princípio mais fundamental e sua ausência pode lhe ser tanto motivo justo de punição quanto motivo plausível de repugnância.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Gente rabugenta

    É claro que a fome existe no natal. É claro que sempre existiu. Mas, também deveria ser claro que a culpa não é do natal, não é da data comemorada com ceia farta. Existem pessoas tão amargas, que odeiam o natal porque muitos não têm natal. E há também os que o detestam por não terem famílias, o que, ao menos, é um argumento.

    Conheço pessoas que passam o natal com amigos porque não têm família biológica, mas têm outras famílias. Conheço também gente que em vez de usar as redes para falar sobre a miséria, escolhe gastar seu tempo fazendo comida para entregar a moradores de rua na data natalina. Estas sabem que a fome existe e que em vez de moralizar os outros e exalar mau humor - coisas infrutíferas - apenas se pode ajudar concretamente um faminto com um prato de comida. Não são daqueles que escolhem o natal para falar sobre a hipocrisia, sem refletirem sobre a hipocrisia dos que falam muito e se empenham pouco para ajudar concretamente os demais.

    O amor só é vivido na prática diária. Não está apenas nas palavras. Está nas nossas ações. Muita gente está doando alimentos sem fazer questão de tirar foto para mostrar o quanto é bondosa. Outros não doam nada e ficam espalhando fotos de miséria, no natal, para lembrar que "todo mundo é hipócrita", exceto eles que têm consciência de que a fome existe. Tá certo. Cadê a consciência para ajudar de verdade os que têm fome?

    Dia desses um cara aposentado falou sobre a pobreza intelectual dos jovens. De fato, a coisa está feia. Mas, ele não é tão melhor que os incultos como ele pensa. Se isso o incomodasse de verdade, acho que ele daria um jeito para se oferecer como professor voluntário em algum pré-vestibular social, não é mesmo? Mas, ele não faz isso. Ele passa o dia todo falando das mazelas sociais. Meu Deus, será que ele é tão bondoso assim, que não consegue gastar um pouco do seu tempo participando de um projeto social? Está aposentado. O que, de fato, o incomoda? O que o faz sair do lugar? Que tipo de amor é esse que tudo que faz é cobrar dos outros ações que elas mesmas não fazem? Em que se empenham na sua vida prática?

    Nosso amigo Lênin afirmava que a prática é o critério da verdade. A prática, isto é, o que você faz, aquilo que você pratica, mostra quem você é.
Assim, a bondade sem ações é oca. O amor sem ações é um delírio.

   A propósito, não existe amor sem comprometimento e muito trabalho. O trabalho da escuta, da parceria, da gentileza, da lealdade, da cumplicidade. Amar dá trabalho! Porque, para amar, o outro precisa existir. Só falta alguém me dizer que ama se nunca lembrou, na prática (e não em palavras), que o outro existe. E lembrar não é pensar, é fazer. É deixar claro que você está tão acompanhado de quem você ama, que a pessoa já está, de alguma forma, presente em tudo o que você faz. Ela simplesmente se instalou em você. Então você a considera, você a trata bem, você a enxerga sem querer estar ausente de sua vida.

    Não existe amor nas pessoas que praticam a ausência. Não existe. A prática é o exercício da verdade, é o seu critério. Portanto, não são as palavras e nem as boas intenções a prática do amor. E é assim que o silêncio diz mais que as palavras. Silenciar em uma relação simboliza mágoa ou simplesmente indiferença ao outro. Isso, tanto em nossas relações pessoais quanto coletivas. Podemos falar e escrever muito. Enquanto não agirmos, seremos tão ausentes quanto os que comemoram natais sem lembrarem que a fome existe. Ambas as atitudes levam ao mesmo resultado. Mas, uns se acham mais bondosos que os outros para lhes cobrarem um amor que nem eles mesmos sabem dar. Que conclusão podemos tirar? Que o que as diferencia não é a bondade. Tampouco é a hipocrisia ou o cinismo. O que as diferencia é apenas o espírito de festa, é o grau que ocupam na tão larga escala da rabugice.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Meninos devem aprender a ser homens, não moleques

Lembro exatamente do dia em que, estando grávida, fui saber qual seria o sexo do bebê. Respeito as mães que preferem descobrir isso só no dia do parto. No entanto, como sou ansiosa, eu decidi saber antes, aos quatro meses de gestação. Quando a médica exclamou sorrindo "É, mãe, vem um menininho por aí!", eu logo senti um calafrio no estômago, tamanha a minha insegurança. Um menino! Logo ele estaria nascendo e eu teria de compreendê-lo, reconhecer suas emoções e necessidades. Pensei no meu irmão pequeno e nos meninos do prédio onde morávamos quando crianças. Futebol, jogo de botão, carrinhos de rolimã, simulações de brigas e algumas brigas de verdade, quando eles acreditavam que realmente eram super-heróis.

Prestar atenção nele, brincar com ele, estudar com ele, ler para ele, seguir minha intuição e contar com uma boa pediatra. Essa era a minha listinha de suporte. "Eu vou aprender a ser mãe", dizia a mim mesma. Quando ele fazia alguma malcriação (quase nunca fazia!), o sentimento de culpa tomava conta. Mãe tem esse defeito de trazer toda a responsabilidade para si. Nem precisa ler Freud para se culpar por tudo que não funcionar como ela cobra de si que funcione. Outro ser existe e precisa de seus cuidados. Um ser que não pediu para nascer, mas que os pais quiseram que nascesse. Um descuido grave pode traumatizar. É preciso estar atenta. É preciso ler sobre Psicologia Infantil. É preciso isso, é preciso aquilo. E é preciso descobrir algumas horas do dia para cuidar de si mesma, da solidão de se preocupar tantas vezes sozinha com aquilo que, muitas vezes, só as mães mesmo se preocupam. Haja neurose! Freud era mesmo brilhante. 

Há mulheres que vivenciam seus maiores momentos de solidão justamente quando se percebem mães solteiras, estando ou não casadas. Esse momento pode ocorrer mesmo durante o pós-parto, quando ela se dá conta de que o filho parece ser só dela. Só ela troca as fraldas, só ela dá banho, só ela acorda cedo, só ela interrompe o trabalho ou os estudos, enquanto pais dormem até tarde, saem com seus amigos e investem na própria carreira, pois lhes ensinaram que seu principal papel no mundo é o de ser um provedor.  

Antes de muitas mulheres se darem conta de que quase toda a responsabilidade com os filhos recairá sobre os seus ombros, a natureza já as treina por nove meses. Por nove meses, a mãe carrega seu filho sozinha no ventre e só ela sabe como é o seu chute e a maneira como ele se mexe. Muito antes de nascer, toda mãe acaricia o filho alisando a própria barriga. Mãe e filho conversam em silêncio por nove meses. Nove meses em que ela mal sabe o que está acontecendo com ela, pois não é capaz de decifrar suas emoções. São emoções que ela nunca havia conhecido antes. 

Um homem pode dar segurança emocional à mulher durante esse momento, já que grávido ele não tem como ficar. Mas, ela gostaria de ter alguém que zelasse por ela num momento em que se sente "tomada da gravidez". E é muito desolador para uma mulher quando ela nota que seu companheiro já é ausente antes mesmo de o bebê nascer. Afinal, ele é o pai. O que será que os homens acham que as mulheres esperam de um homem quando está grávida de um filho dele? Esperam que a sogra dela lhe faça companhia? Esperam que a sogra dele lhe faça? Entendam que a ausência é o primeiro sintoma de indiferença de um pai. E já começa antes de a criança nascer, bastando que a mulher lhe delegue algumas tarefas como, por exemplo, ser um pouco mais presente.

Curiosamente, muitos homens não compreendem isso. E fica realmente difícil para eles compreenderem, pois desde a adolescência aprendem que têm certos direitos que as mulheres não têm. Durante a adolescência, fase de transição da infância para a iniciação à vida adulta, um menino pode mudar radicalmente. É quando ele busca compreender o que significa ser homem. E o que significa ser homem? Carlos Drummond de Andrade faz essa pergunta em um de seus poemas. Um poema tão bonito, que uma mãe de menino que gosta de poesia, ao lê-lo, dirá: meu deus! Um homem pode ser tão bonito, que até pode conseguir ser, de fato, um homem! Pode ser criativo, pode ser um pensador, pode produzir conhecimento, pode ajudar a curar pessoas, pode ajudar as pessoas a acreditarem mais em si mesmas. Pode tanta coisa um homem! Tanta coisa para tornar sua existência significativa, que sabemos perfeitamente que a definição de homem não pode se resumir ao frágil conceito de masculidade. 

Entretanto, dificilmente conseguimos imaginar que aqueles meninos que aos sete protegiam as meninas das baratas, tirando-as do recinto ou as matando para elas se sentirem seguras...aqueles meninos que raramente levantavam a mão para elas...aqueles meninos que enchiam a mãe de amor como ninguém mais seria capaz de encher, poderiam durante a adolescência "aprender" que mulheres são objetos de consumo. Sutilmente eles aprendem isso. Eles aprendem com seus pais e também com suas mães. Com aquela mãe que lhe dá um vídeo pornô logo cedo para ele "aprender a dar no couro". Com aquele pai que olha para tudo quanto é mulher e o filho percebe. Com aquele pai que coleciona "revista de homem" e que já se viciou em pornografia. Com aquele pai que assina Onlyfans de alguma gostosa que ele jamais terá. Mas, que paga para ver. Faz questão de gastar dinheiro com isso. 

Um adolescente aprende cedo que é preciso passar no vestibular para ter dinheiro e que ele precisa comer o maior número possível de mulheres (uma das razões pelas quais ele deve ter dinheiro). E que se, por acaso, ele não comer, é importante ele ao menos dar a entender aos colegas que é um comedor. O valor de um homem, ele aprende, está no tipo de mulher que seu dinheiro consegue manter, no quão caro ele pode pagar num restaurante. Nada o envaidecerá mais do que conseguir trepar com um mulherão. Muitos não acham ridículo comprar uma mulher. Pelo contrário, isso lhes confere um status social. Eles têm uma gostosa porque venceram na vida. E como lhes é ensinado que esse é o principal benefício de ter uma mulher, por que desejaria o amor de alguma? Para ela controlá-lo? Para ele ter de ficar lhe dando atenção? Melhor é estar com os amigos, compartilhar fotos de mulheres e dizer o que fizeram com fulana e ciclana. É o momento da glória, da sensação máxima de que são homens. 

Essa semana, alguns meninos do 7o ao 9o ano de uma tradicional escola fluminense, criaram fotos nuas de colegas utilizando inteligência artificial. Tais fotos, apesar de fakes, eram convincentes. Foram compartilhadas em grupos de whatsapp. As meninas estão arrasadas e a escola ainda não deu suspensão aos garotos. As vítimas estão convivendo com os algozes, que ainda tiram chacota do sofrimento delas. Um dos garotos já disse que irá se safar. Porque é rico, branco e homem. Ele  já sabe que raramente homens são punidos por compartilharem fotos. Muito pelo contrário, ficam com fama de garanhões, o que acham maravilhoso. Certa vez, recebi por engano a foto de uma mulher nua. O homem que me enviou, homem de esquerda, que jura que é feminista e tá sempre fingindo que aprecia o intelecto feminino, compartilhou comigo a foto de uma mulher que o amigo dele estava pegando. A prática do compartilhamento de fotos íntimas de mulheres entre amigos, para todos punhetarem, rirem delas e depois as desvalorizarem. Não é um estupro coletivo. É mais leve: é uma punhetagem coletiva com fotos de mulheres que, ingenuamente, confiam neles e sequer imaginam que são uns misóginos fracassados. Fracassados como homens. Podem até conseguir dinheiro, podem conseguir comer várias. Mas, ainda estarão a anos luz de serem chamados de homens. Nem passam perto disso! Sequer sabem entender o significado da palavra homem. 

Quando contei a história dos garotos deste colégio para o meu filho, sua reação foi de nojo e horror. Respirei aliviada. Se ele risse, eu me sentiria a pior mãe do mundo. Como eu disse, mãe se culpa quase sempre. Mas, ele sentiu nojo, repugnância e tristeza. Ele ainda é o menino que na infância acompanhava as meninas ao ambulatório da escola quando elas se machucavam. Ano passado, do nada soltou a seguinte frase: "eu acho uma tremenda babaquice um homem ter muitas mulheres. Quando eu namorar, não vou ser como esses babacas não.". A mãe aqui se encheu de orgulho. Pensei: "ele deve ter visto algum amigo fazer isso",  pois havia revolta nas palavras, que foram exclamadas fora do contexto daquela frase. 

Uma das minhas séries favoritas é "O método Kominsky". Ela tem como foco a amizade entre dois homens em torno dos setenta anos. Ambos super vivos, trabalhando e cuidando de suas filhas. A série é inteligentíssima, sem violência, sem nudez e é deliciosa. Quem diria que uma série que fala sobre a saúde do homem e suas afetividades aos setenta poderia ser a minha favorita? Já a vi quatro vezes!

Assim que meu filho nasceu, comprei um livro sobre a saúde do homem. Isso mesmo que vocês leram. Ele ainda não era um homem e ainda não é. Mas, quando ele for, vou lhe dar uma cópia do livro. Uma cópia porque já percebi que a maioria dos homens não cuida da própria saúde. Acostumaram-se erroneamente a deixar isso a cargo exclusivo de suas mulheres.

A pessoa que aqui escreve e encerra este "textão", expressa sua tristeza em notar que parte considerável dos homens não respeita as mulheres, as objetifica, não é digna do carinho e nem da admiração da mulherada. Por outro lado, eu fico feliz em ver que muitos estão se esforçando para desconstruir o machismo e percebendo que ser homem não é ser moleque punheteiro, moleque que objetifica mulheres, moleque que se sente bem tratando mal mulheres e as silenciando. Um homem, verdadeiramente homem, jamais tirará proveito de uma mulher. Porque ele não precisa tirar. Enquanto os moleques carregam o sonho de comerem tantas gostosas quanto puderem, os verdadeiramente homens estarão ocupados beneficiando a sociedade de alguma forma. Há quem ame o conhecimento ou as belezas que duram mais que uma ejaculação. Como mãe, respiro aliviada de, ao menos perceber que meu filho sonha em ser um cara legal, honesto e respeitador com as mulheres.

E, se escrevo esse texto, é porque eu gosto de homem. De homem mesmo. Não de moleques. Desde que soube o sexo do bebê eu precisei acreditar na capacidade de os homens serem realmente bons. Afinal, botei um no mundo. Eu preciso acreditar sempre nisso.

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Os minimalistas e sua tesão pela falta

Quem nunca se deparou com aquela pessoa que gostaria de jogar um tanto de coisa sua fora? Aquela que implica por você ter uma coleção que guarda para ler quando tiver tempo, mas que ela acha que você nunca lerá só porque ela nunca leria.

Guardar coisas que não funcionam ou coisas estragadas é, de fato, uma perda de tempo. É até mesmo doentio.  Desapegar-se é fundamental. Porém, existe gente que não tá falando disso, que tá falando que, para viver, só é preciso o essencial. Mas, o que é o essencial? Para mim, pode ser essencial tomar café diariamente, enquanto para outros, isso é completamente dispensável. Existem pessoas que não compreendem isso. 

Têm mania de jogar tudo, tudo, tudo fora! Em suas casas, só cama, fogão, escrivaninha, geladeira. E, geralmente, na cor branca, sabe-se lá o porquê. O problema é que se tornam, quase sempre, militantes das ausências, dos emojis, dos textos sempre mínimos, quando há quem goste da vida concreta (presente em tudo!), do uso constante das palavras, da voz ao alcance das mãos.

Para mim, a parede não basta para eu manter de pé minha casa. Eu quero cor e quero quadros. Eu quero corredores com quadros, fotografias, mosaicos, porcelanas e corações mexicanos em chama (são tão bonitinhos). Quero placas que apontem para onde ficam o banheiro e os quartos. Quero que a casa guie os visitantes por si só, uma casa com timbre e personalidade. Uma  casa que converse com eles. Uma casa que estende flores pelo chão e não apenas as mostre amarradas dentro de um vaso branco com água sobre a mesa. Perdão. Sobre a escrivaninha.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Razão e sensibilidade: não existe uma sem a outra

Pois bem. Vamos falar sobre o emocional e sobre o grande erro que muitas pessoas cometem quando avaliam ou julgam alguém sem considerar os contextos pessoais de cada um. Começo esse texto criticando o enaltecimento que a sociedade demonstra para o individualismo e a frieza como valores associados à racionalidade. Porém, todos que confundem indiferença e individualismo com racionalidade sempre utilizam como argumento os seus ressentimentos ao longo da vida. Não passam de pessoas amargas e ressentidas que, não raras vezes, são fechadas para os outros. O culto à frieza. Devemos observar que uma coisa é ter controle emocional, outra é ser indiferente. Aliás, até para não ser indiferente é preciso se controlar. De fato, podemos estar com raiva de alguém, mas, nem por isso voarmos no pescoço dela! Nem por isso deixarmos de estender-lhe as mãos. Logo, há mais controle emocional em quem não pensa apenas em si mesmo. Este é o primeiro ponto que coloco para que as pessoas percebam que é preciso ser sensível para ser racional. Porque a razão exige de nós uma capacidade alta de análise. Mas, é impossível analisarmos as coisas bem se não soubermos nos colocar no lugar dos outros.

O segundo ponto que coloco tem a ver com a presunção com que muitos avaliam pessoas sem prestarem atenção no quão sensível elas possam estar. Ontem tive um professor convidado para palestrar em minha aula e ele apresentou os excelentes resultados de muitos de seus alunos. Mas, não eram quaisquer alunos. Eram alunos muito desacreditados pela sociedade. Ele disse que o primeiro passo é motivá-los e que isso só é possível elevando a autoestima deles. O professor foi enfático ao dizer o quanto o emocional influencia nos resultados e nas desistências, nos abandonos aos sonhos. Os alunos perdem a confiança em si mesmos. Não se pode ignorar a influência do estado emocional nas avaliações. Em particular, porque avaliações podem punir! E assim são as pessoas que adotam como lema o individualismo ou a análise fria sobre alguém. Vivemos em uma sociedade que jorra trocentas milhões de informações em nossas mentes. Boa parte delas desgastantes. Todos temos demandas que nos esgotam. Todos precisamos desabafar ou chorar. Não existem super-heróis. Muitos de nós temos ansiedade. Eu sou uma delas, por exemplo. Eu não consigo ficar sem fazer nada sem que a ansiedade tome conta. Eu sempre preciso me ocupar com algo. Isso não significa que eu não descanse. Mas, eu nunca vou conseguir ficar várias horas sem fazer nada. Vai me entediar e dar ansiedade. A ansiedade pode virar enxaqueca. Ela pode virar manchas roxas no braço etc. Mas, eu não tenho a menor dúvida de que qualquer pessoa que gosta mesmo de mim vai preferir me dar um abraço e perguntar "tudo bem?" do que me tratar com indiferença. Da mesma forma, eu sei que meus inúmeros alunos que fazem provas ruins ou que tentam desistir dos cursos, muitas vezes mudam de ideia após uma longa conversa comigo. Com direito a um abraço meu, inclusive. Tenho vários exemplos deles. Houve uma que terminou o mestrado recentemente e que me disse que a conversa que eu tive com ela foi primordial para ela não ter desistido da matemática no segundo período. Eu a animei. E muita gente não acreditava nela. Eu sempre me pergunto que arrogância é essa que pode fazer com que você duvide de alguém porque a pessoa está ansiosa ou triste ou simplesmente por ela ser muito diferente de você, como é o caso das pessoas com necessidades educacionais especiais e tantas outras fora do padrão. Eu fico muito triste (decepcionada é a palavra mais precisa) com pessoas que não são capazes de sequer olhar as outras com mais inteligência. Notem que nem falei em olhar alguém com mais carinho. Porque pra mim, olhar é coisa de gente inteligente. Vai muito além de carinho. Tem a ver com uma capacidade de análise, de perceber que algo não vai bem com alguém. Obviamente, conversar é mais racional do que punir as pessoas com silêncio e tratamentos hostis fazendo com que se sintam inadequadas ou um peso para outras, predispostas a desistirem de um tanto de coisa. Diálogos são sempre mais racionais porque é o único meio de se resolver um problema para todos os envolvidos. Vivemos em uma sociedade que não perdoa a sensibilidade, que vê a sensibilidade com maus olhos e que venera o imediatismo e a falta de análise dos fatos. É uma sociedade burra e consumista que transforma todo ser humano em um objeto. E esses objetos humanos já não têm sentimentos ou não buscam ter. Buscam o lucro, o sucesso, o prazer desenfreado sem virtudes (a questão aqui é o desprezo às virtudes). Mas, de que virtudes falo? Falo da honestidade, do senso de justiça, da humildade de não espezinhar os outros, de não rir de alguém, de não se achar melhor que, de não se achar infalível. Falo de uma sociedade que separa as pessoas em vencedores e vencidos, mas que joga um jogo que nem ela sabe que é uma das peças dele.


Há gente superior demais nesse mundo. Gente que considera outras um peso morto. Gente que se acha tão melhor a ponto de tirar sarro, de agredir ou de fazer piadas, não raras vezes debochando dos sentimentos de outras sem um mínimo de pudor, sem um mínimo de sensibilidade. É claro que a autoestima é a única via dos vencidos perceberem que vencerão. Mas, que, ao contrário dos outros, dos fodões inabaláveis, vencerão sem ilusões. Em particular, sem ilusões consigo mesmos. Afinal, não existe nada mais frágil do que uma pessoa que consegue se iludir consigo mesma. Isso sim é o cúmulo da fragilidade. Não é falhar o cúmulo. É simplesmente ser tão incapaz de se enxergar que não consegue também enxergar os outros. Pensemos. Com sensibilidade, é claro. E sintamos. Com toda a razão que nos couber.

Sobre razão, afeto e liberdade

A liberdade serve à razão, não à emoção. O filósofo Kant dizia que só conseguimos ser livres se formos capazes de dizer não àquilo que desejamos. Em outras palavras, se formos capazes de perceber que nem tudo o que queremos comunga com os valores que cultivamos. Então o que devemos escolher? Ser livre seria, nesse caso, escolher fazer o que quer? Para Kant, não. Para Kant, quem só sabe fazer o que quer é, na verdade, um escravo do desejo. Ser livre seria ser capaz de analisar a influência dos desejos em nossas ações e ser capaz de não se ajoelhar diante deles. Cabe observar que não fazer o que quer e fazer o que não quer não são, necessariamente, a mesma coisa. Fazer o que não quer também pode levar a situações de escravidão. Então, onde está o espírito da liberdade? Está em ter possibilidade de escolher e em fazer um uso consciente desse poder de escolha. Livre é quem se põe em condições de fazer uso da razão. É nítida a influência de Kant sobre Hannah Arendt, que cunhou o termo "banalização do mal" para se referir à prática do mal sem questionamento. Notem também que esse termo exemplifica com exatidão o que falei antes: fazer o que quer também não significa ser livre. É preciso fazer uso da escolha consciente. A questão de Arendt é mostrar que só podemos fazer o mal quando não fazemos uso da razão. Dito de outro modo, só quem pensa é capaz de dizer não. Em particular, quem tortura alguém obedecendo a ordens só o faz porque não questiona este ato. É a banalização do mal. Assim, por mais contraditório que possa parecer, vamos concluir que para sermos éticos, bons e amorosos devemos sempre saber usar a razão. Sempre. Muitas vezes as pessoas confundem razão com ausência de sentimentos. Pelo contrário. A razão é unicamente pensar. Pensar e sentir não são a mesma coisa! Pode-se ser muito racional e muito emotivo ao mesmo tempo (quem é libriano sabe disso muito bem, inclusive).

A grande questão é que não existe amor sem razão. Inclusive, quando se renuncia a algo por um bem coletivo vemos alguém atuar por amor, não é? O amor não olha apenas para si. Daí a capacidade de escolher o que é melhor para todos, mesmo não sendo o melhor para você mesmo. Daí a capacidade de ir embora quando a sua ausência torna as pessoas mais felizes. Tudo isso é ato de amor. Percebem? Não existe amor longe da razão. Porque amar necessita da existência do objeto do amor. Logo, pressupõe outra existência e você terá de levar essa outra existência em consideração. Terá de pensar sobre isso. Uma vez escrevi um "textão" aqui falando sobre isto: não existe razão sem sensibilidade. A razão só existe em quem tem sensibilidade. A ausência de sentimentos é amargura e pessoas amargas costumam agir em obediência cega a rancores. Logo, são escravos de certos fantasmas que precisam de cura. Resumindo: quem não se mostra capaz de pensar, não se mostra capaz de amar.

As vantagens da Barbie

Na última semana, um filme sobre a Barbie estreou nos cinemas mundiais. Tendo contado com um excelente trabalho de marketing, o assunto “Barbie” tem viralizado nas redes sociais. Muitas pessoas, mais entusiasmadas, fãs ou não da boneca, mostram-se alegres em fotos com fundos cor-de-rosa, enquanto outras, com ares de ranço ou desprezo, optam por tirar sarro de toda essa empolgação. Já eu, que sou uma pessoa sempre empolgada com aquilo que “faz a minha cabeça”, não me irrito nenhum pouco com as paixões alheias cor-de-rosa. As paixões que me irritam costumam ser em verde e amarelo e fazem arminhas com as mãos. As cor-de-rosa... as cor-de-rosa não me incomodam não.  Sei que sempre preferirei as pessoas apaixonadas às pessoas indiferentes - pelo menos as primeiras eu sinto que ainda estão vivas.

De minha parte, que ainda não assisti ao filme, nada posso dizer a seu respeito, a não ser o que rapidamente li em alguma postagem alheia: trata-se de um filme feminista. Alguma Barbie havia sido expulsa da “Barbielândia” por não ser uma mulher perfeita e, na busca por onde morar, acabou tendo de conviver com humanos. Bom, foi o que li da tal postagem e, portanto, não me responsabilizo pela veracidade dos fatos ali descritos. Eu realmente precisaria ver o filme. Entretanto, uma coisa eu já posso observar mesmo sem tê-lo visto me baseando somente no que li: um filme cuja protagonista imperfeita é representado pela belíssima (e execelente) atriz Margot Robbie só pode mesmo estar de sacanagem com o telespectador. Quem ousaria dizer que essa beldade é imperfeita? Em sã consciência, ninguém. Pois é. E aí o filme apresenta uma coerência marcante: as exigências que pesam sobre as mulheres na sociedade real também são descabidas. Em particular, as que envolvem seus corpos e as suas idades. Mulheres são expulsas quando não são perfeitas. As “mais velhas” são criticadas quando estudam com as mais novas em certas universidades. As mais velhas escutam “Nossa! Como você está bem! O que você faz para estar assim?” (como se as quarentonas, cinquentonas, sessentonas etc perdessem a capacidade criativa, a capacidade de transarem, a capacidade de amarem e de viverem plenamente como bem entenderem). As que estão um pouco acima do peso sofrem deboches que os homens mesmo não sofrem. Aliás, homens costumam ser tão ridículos, que chega ao ponto de diversos homens claramente gordos exigirem que suas esposas emagreçam com a desculpa de se preocuparem é com a saúde. Ora, se fosse preocupação com a saúde, eles fariam regime e parariam de beber. Em suma: há sempre dois pesos e duas medidas e dependendo do seu sexo, você pode ter que sair da Barbielância também. Afinal, a vida não é tão cor-de-rosa assim para as mulheres.

A minha geração, nascida na década de 1980, talvez tenha sido a última em que meninas de dez anos ainda se entusiasmavam com a Barbie. Hoje, nessa idade, as meninas não costumam mais brincar de bonecas. A Barbie de hoje tem um teto menor, ou seja, o etarismo também já atingiu a boneca Barbie! Eu não fui uma menina que teve bonecas como brincadeira favorita. Eu preferia montar quebra-cabeças, jogar baralho, jogar vôlei, pular elástico, jogar queimada, andar de bicicleta e de carrinhos de rolimã, além de jogar futebol de botão, que faz parte - assim como o jogo de peteca – da cultura belorizontina. Entretanto, como qualquer menina, eu também tive bonecas. Em particular, uma, e somente uma, Barbie. A minha, aliás, eu ganhei aos nove anos. Antes dela, o máximo que ganhei foi uma “Academia da Barbie”, dada por meu padrinho, que cismou que a boneca vinha também dentro da caixa. Para a imensa decepção dele e também para a minha, aquele presente de natal não fora tão perfeito quanto era a Barbie.

Naquele tempo, a qualidade da boneca era melhor, suas roupas eram melhores e até seus sapatos eram prateados. E praticamente todas as meninas quiseram ter alguma, mesmo as que brincavam com carrinhos de rolimã, quebra-cabeças e baralhos. A Barbie representava a imagem da mulher adulta que, em nossas mentes e corações, representava quem seríamos no futuro. Era uma mulher muito bem sucedida. Havia a Barbie médica, a Barbie dona de restaurante, a Barbie arquiteta, a Barbie professora, a Barbie veterinária etc. A Barbie tinha um carrão e uma vida estável e confortável. E sabe o que mais lindo ela tinha, além disso tudo? Ela não precisava do Ken para ter aquilo tudo. Ela não era casada! Não havia aliança dourada alguma em seu dedo. Havia, sim, um anel de brilhantes. Mas, comprado por ela. O Ken era seu namorado e jamais fora o personagem central da história dela. Ele era absolutamente coadjuvante. Nenhuma menina fazia questão de comprar o Ken. Poucas tinham o casal. Porém, muitas tinham várias Barbies! Havia brincadeiras em que na casa de uma várias delas se encontravam para jantar: a veterinária, a médica, a professora. Ken? Quem era Ken? O Ken não nos interessava. Vocês, críticos tão severos da boneca, por acaso acham que isso é pouco? Vocês realmente acham?

Por essas e por outras, é que o entusiasmo  das meninas e das mulheres com a Barbie ainda é considerável. E hoje, somado ao fato de já termos no mercado Barbies baixinhas, Barbies gordinhas, Barbies negras, Barbies cadeirantes, Barbies com vitiligo etc. As Barbies acompanhando as exigências de movimentos sociais para ainda habitarem os sonhos das meninas. E, isso, meus caros, também é uma conquista política, apesar de ainda não termos Barbies que sejam faxineiras ou caixa de supermercado. Quem sabe um dia elas também surjam nas prateleiras? Quem sabe a realidade um dia mude no mundo dos sonhos?

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Autoatendimento: bom pra quem?

Uma das coisas mais chatas da rotina de todos nós é fazer compras. E de todas as etapas chatas dessa atividade, a mais chata é a finalização dela: a fila e todo o processo de atendimento dos caixas. Não pelos caixas, é claro, pois são trabalhadores muito explorados que, inclusive, não tiveram o privilégio de fazerem isolamento durante a pandemia enquanto os que tiveram podiam comer às custas do sacrifício deles (eu me incluo entre os privilegiados). Não. Não é por eles. É que nesse momento vemos a exploração geral dos donos das redes de supermercados.

Pagamos caro (tudo está caro) e ainda pagamos as sacolas que, na verdade, deveriam ser dadas aos clientes pelos estabelecimentos. Afinal, se compramos ali, que nos forneçam os meios de levar para casa. Se você compra roupa, sapato, perfume etc, as lojas fornecem os embrulhos. Mas, supermercados são privilegiados. Deveria ser obrigação deles fornecer as sacolas ecológicas gratuitamente. 

Como se não bastasse isso, alguns trabalham com atendimento eletrônico. Máquinas que só aceitam cartão ou pix e que existem para "agilizar" o atendimento (como se você fosse realmente mais competente que os atendentes...rss). 

Mas, as máquinas não são robôs. Nós é que temos que passar os produtos, pesá-los ou digitalizá-los, além de pagar as sacolas e também embalar os produtos. Em outras palavras, o cliente se torna o atendente de si mesmo. Sendo mais clara (se é que ainda não ficou claro): o supermercado poupa a si de contratar mais funcionários transformando os clientes em funcionários. Mas, em funcionários que não recebem salários e nem descontos! A meu ver, deveria ser dado um bom desconto para quem fizesse uso das máquinas, como forma de ressarcir o cliente por trabalhar de graça para o supermercado. 

Quando eu for deputada federal vou criar um projeto de lei para tornar obrigatório o desconto de 31,4% (aproximadamente 10pi) das compras de todos os clientes que utilizarem essas máquinas, assim como a obrigatoriedade do fornecimento gratuito das sacolas ecológicas pelos supermercados. Me aguardem. Já tô de saco cheio. Não de sacolas.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Nem só de narrativas se faz um "empoderamento"

             Começo este texto já adiantando que ele não agradará homens muito machistas. Entendam o “muito” aqui como a afirmação de que todos os homens são machistas, mas que alguns passam de um limite razoável para que se possa conviver com eles sem se sentir constantemente desrespeitada. Ao longo da história, mulheres têm conquistado direitos importantes. Direitos que levaram séculos para serem adquiridos. Direito ao voto, direito ao divórcio sem a perda da guarda dos filhos, direito è educação formal (isto é, o direito a estudar em uma escola e não em ambiente doméstico) e, em alguns lugares, até mesmo o direito ao aborto. Em alguns países, se uma mulher é estuprada e engravida, ela não só é obrigada a ter a criança como também é obrigada a se casar com o estuprador. Na Ìndia, além disso, mulheres devem se esconder quando menstruam, dado que Deus nos fez naturalmente sujas e pecadoras, sempre associadas a incitar os homens à perdição. As mulheres os tentam e os santos homens caem em tentação. E são sempre perdoados, vítimas dos instintos, da testosterona e de quaisquer desculpas que lhes permitirem fazer o que quiserem e sempre culparem as mulheres.

No que tange ao sexo, o mundo sempre foi violento apenas com as mulheres. Jamais com os homens. A não ser com os homossexuais afeminados e, mesmo assim, porque estes são considerados traidores por “negarem a sua masculinidade”. Preferir se assemelhar a uma mulher é imperdoável em uma sociedade patriarcal. Sequer compreendem que um gay, afeminado ou não, ainda é muito diferente de uma mulher. Seja como for, a sociedade tolera mais um homossexual não afeminado do que um afeminado. A sociedade não tolera travestis e nem mulheres trans. Podemos dizer, sem medo algum de errar, que a LGBT-fobia representa o ápice da misoginia. Porque nenhuma mulher é expulsa de casa por ser mulher. Mas uma mulher trans é expulsa de casa por ser trans. Ser mulher trans é renegar a masculinidade e isso é algo que a sociedade patriarcal não perdoa. Entretanto, ainda que não perdoe, tira proveito. Mulheres trans e travestis, não raras vezes, são empurradas para a prostituição, por mais que tenham plenas condições de exercerem quaisquer profissões que tenham um dia sonhado para si mesmas. A objetificação das mulheres atinge tanto pessoas cis quanto pessoas trans. Basta que sejam fêmeas. Em ambos os casos, é bom que sejam mansas e obedientes. É bom que a travesti não queira largar uma vida de servilismo sexual (que lhe é imposta pela sociedade!) e nem mesmo as mulheres cis que se prostituem. Afinal, a prostituição beneficia unicamente os homens que as comem. Mesmo quando falamos das mulheres que se prostituem por fetiche, estamos falando de alguém que escolhe ser servil e se subjugar à vontade masculina. Quem paga é o homem e quem paga é quem manda. Estamos falando da relação patrão/empregado. A mesma relação que o ator Pedro Cardoso, corajosamente, denuncia, ao expor o quanto homens poderosos das empresas de TV e de cinema exploram o corpo das atrizes. Sem papas na língua, porém com educação (assim como eu), ele expressa sua indignação em defesa da dignidade das atrizes. Exige-se delas uma nudez forçada, desnecessária à trama, o que revela que não há ali nu artístico algum, mas apenas uma imagem pornográfica. Com efeito, ali está a atriz nua e não a personagem nua. A personagem não precisaria estar. Os empresários querem audiência e, para consegui-la, precisam vender imagens de mulheres nuas para satisfazerem as exigências sexuais dos homens. Os homens se acham tão no direito de terem as mulheres a seu dispor, que a cultura naturalizou a existência de uma revista chamada Playboy, na qual empresários pagavam altos cachês pelas mulheres mais cobiçadas pelo público masculino. Quanto pagariam por um mulherão de seus sonhos? Pagariam muito se assim pudessem. A propósito, certa vez ouvi um homem rico e garanhão dizer que poder pagar por uma mulher lhe satisfazia mais que ter o amor de alguma. Porque um homem é poderoso pelo que ele pode comprar. Que lhe interessa o amor? Amor não se compra, não é mesmo? Outra dia foi vez de um esquerdomacho dizer “mulher que se leva para tomar vinho”. Leia-se: mulher que se leva a lugar caro para impressioná-la e comê-la. 
De um modo geral, os homens sempre acham que temos um preço. Se não tivermos, é capaz de perderem o tesão. Há um prazer no poder de compra. Mas, não sejamos ingênuos. Esse prazer não é inerente ao próprio homem. É uma herança cultural. E uma herança que ganhou cada vez mais força com o capitalismo. Essa força está tão grande, que o ser humano já não consegue diferenciar as pessoas dos objetos. Como disse Zygmunt Bauman, todo mundo está sendo transformado em objeto. Seja sexual, seja trabalhista. Tudo virou líquido. Vejamos um exemplo disso. Em aplicativos de encontro como o Tinder, as pessoas se conhecem em vitrines, não é mesmo? As fotos são vitrines e, meramente pela foto e pelas informações no rótulo deste produto (gostos pessoais), os usuários decidem se levam ou não aquele produto. Não precisam se conhecer, necessariamente. Conversar? Que coisa mais antiguada! Ali é para se encontrarem, se consumirem e se o produto não agradar, troca-se por outro. Tudo isso com a mais absoluta naturalidade, sem que ninguém sequer se pergunte sobre como é ser um produto em uma vitrine. O prazer da descoberta intelectual, coisa só possível por um papo legal tornou-se algo completamente dispensável para boa parte das pessoas, tanto homens quanto mulheres. A objetificação, ou seja, tratar pessoas como produtos cujo objetivo de uso mútuo é o da satisfação sexual imediata e mais nada, pode levar ao descarte, ou não, do produto. Se o produto satisfizer bem, talvez haja algum apego como o de uma pessoa por seu relógio de ouro. O intelecto já não interessa a quase ninguém.

A objetificação das mulheres, porém, atingiu também a esfera do mundo puramente virtual. Em particular, há homens que pagam caro para ver vídeos sensuais de mulheres falando sacanagens enquanto eles se masturbam do outro lado da tela. Segundo o documentário “Pornocracy”, essa é uma nova forma de prostituição. Nela, homens do mundo inteiro escolhem o rosto que desejam e pagam por um vídeo ao vivo com aquelas mulheres. Mulheres de diversas partes do mundo. Sequer precisam tocá-la. A imagem é suficiente para que se masturbem e gozem e o importante é que eles gozem e só. Há redes sociais em que mulheres vendem fotos e vídeos. Por exemplo, o onlyfans. Em tais sites, vendem suas imagens para homens cujo sonho é o de comprá-las. Elas não se importam e consideram que são empoderadas sexualmente. Pergunto: que empoderamento é esse que transforma um ser humano em produto? Estamos falando de um ser humano que decidiu se vender. Não há liberdade alguma aí. O simples fato de uma pessoa decidir o que fazer com o próprio corpo não significa que decidiu pela liberdade dele. Um escravo que decide ser escravo não deixa de ser escravo por ter escolhido “livremente” ser um. Quem dita as regras ainda é seu senhor. Com as mulheres não é diferente. Infelizmente, há uma apropriação indevida do conceito de liberdade sexual da mulher. A liberdade só pode ser liberdade enquanto não a sujeitar à prostituição, à condição de um produto. Uma mulher que não se prostitui é que pode ser livre. Uma mulher que se prostitui jamais será. Entristece-me consideravelmente ver uma mulher se sujeitar à condição de um produto. Isso independe de eu gostar ou não dela, de ela ser politicamente de esquerda ou de direita. É um ser humano. Entristece-me também ver  tantas vezes as minhas palavras serem desonestamente consideradas “machistas” justamente por esquerdomachos que se aproveitam da sujeição dessas moças. Eu sinto pena da subjugação delas e sinto um enorme nojo deles. Utilizam um discurso desonesto e mentiroso, dando a entender que elas são livres por escolherem fazer o que querem com seus corpos, quando o que escolhem é se expor para eles. É claro que eles vão defender essa “liberdade”, uma vez que eles se beneficiam com a exposição dessas mulheres. Mas, e elas? Em que elas se beneficiam? Em quê? Em nada! Muito pelo contrário. Suas fotos são distribuídas de um homem para outro, sempre acompanhadas de palavras que as objetificam. E elas, tolas, não são capazes de perceber que isso não é empoderamento algum. Até eu já recebi, por engano, foto de uma mulher. Um homem de esquerda me enviou errado a foto de uma mulher que o amigo dele pegava. Desculpou-se. Não há desculpas. Isso é sórdido. Imaginem: uma mulher envia uma foto para um homem e ele distribui para os amigos para mostrar o quanto ele é fodão e pegador. Um pegador, ou seja, um homem que consome mulheres deliberadamente. É um discurso mentiroso fazer essas moças acreditarem que realmente não se objetificam. Esses homens curtem ver fotos nuas de mulheres nas redes usando esse discurso falso de empoderamento para se aproveitarem delas, da imagem delas. Entretanto, não são capazes de defender a exposição de suas companheiras nuas para outros homens. Aí o discurso deles muda. Esse comportamento é desonesto, mentiroso, torpe mesmo.

Mas, falemos um pouco dos homens bons também. Alguns, bastante conhecidos. Virginia Woolf teve um marido que a apoiou bastante. As irmãs Brönte tiveram apoio do pai. Camille Claudel teve um pai que acreditava muito nela (infelizmente morreu antes da artista). A matemática Emmy Nöether foi defendida  pelo matemático David Hilbert para dar aulas em uma universidade. Ele enfrentou uma luta para conseguir legitimar que mulheres ocupassem cargos de relevância científica. Marie Curie também foi apoiada por seu marido, também cientista.  O filósofo inglês Stuart Mill , em sua obra “A sujeição das mulheres” (obra que escrevera com sua esposa Harriet Taylor) defendeu, ainda na era vitoriana, que mulheres deveriam ter plenos direitos sobre a propriedade, sobre o voto e sobre exercerem carreira política ou qualquer outra que lhes interessasse. Mill ainda dizia que sua esposa era uma das mentes mais aguçadas que ele já conhecera. O que todos esses homens têm em comum? A resposta é simples: o apreço pelo intelecto da mulher. Apreço suficiente para defenderem que, em vez de usarem o corpo para se sobressaírem na vida, elas usassem o cérebro, o intelecto. Exatamente como fazem, a princípio, os homens.

Antes de encerrar, cabem algumas considerações bastante importantes aqui. A primeira delas é que abundam homens de esquerda que gostam de silenciar mulheres. O silenciamento pode ser tanto direto quanto indireto. No indireto, eles se recusam veementemente a ouvir o que elas têm a dizer, sobretudo quando o que elas dizem se referir a algum proveito deles sobre mulheres. Não ouvem e ainda tentam dar a entender que as falas são infundadas ou que feministas reclamam muito. Em alguns casos, podem até acusarem a feminista de machismo, enquanto eles continuam tirando proveito das situações que o patriarcado lhes oferece.   

Desde 2016 atuo como coordenadora do Programa de Iniciação Científica da OBMEP em uma das regiões do Rio de Janeiro. Este programa tem como um de seus objetivos, despertar o interesse das meninas pela matemática e pelas áreas de tecnologia. Sou uma mulher que atua na área de extas, embora eu goste consideravelmente de Literatura e Filosofia. Nas áreas de STEM (Ciências, Tecnologia e Matemática), nós temos que lutar dobrado até hoje. Muito espaço ainda há para ser conquistado. E para nós, mulheres que lutam pelo crescimento intelectual de outras mulheres, ver qualquer mulher se objetificar é algo muito triste, independente de quem seja, de gostarmos ou não dela ou de quaisquer divergências possíveis. Nosso desejo é o de que estas mulheres não se sujeitem mais a homem algum para se sustentarem. Que, em vez de fãs, busquem ter amigos, assim como Emmy Nöether teve em Hilbert. Porque existem homens que são sim amigos das mulheres. E estes são exatamente aqueles que nunca gostarão de vê-las se venderem.

Para finalizar, sempre deixei muito claro o que aprendi lendo “As reivindicações dos direitos das mulheres”, de Mary Wollstonecraft. Nós, mulheres, devemos recusar a ideia, tão defendida por Jean-Jacques Rousseau em seu livro “Emílio”, de que a educação que nos cabe é a de aprendermos a ser bem cortejadas. Rousseau desprezava tanto o nosso intelecto e, ao mesmo tempo o temia tanto, que insistia que as mulheres deveriam ser educadas em casa e, mesmo assim, apenas para a vida doméstica. Para ele, a maioria das mulheres era frívola e, para serem felizes, bastar-lhes-ia receber elogios sobre sua beleza, além de muitos presentes que garantissem a sua subsistência. Espero ter deixado claro até aqui que não existe liberdade da mulher enquanto ela não valorizar o seu próprio intelecto. Por fim, é preciso ter muito cuidado com a apropriação indevida do termo “liberdade sexual da mulher” pela sociedade patriarcal. Em particular, essa liberdade não está dissociada do seu intelecto. Deste modo, uma mulher intelectual pode ser plenamente livre, uma vez que a inteligência não lhe retira, de modo algum, a sensualidade. Associar liberdade à objetificação é um equívoco que só favorece os homens, jamais as mulheres.  Recentemente, li que os livros mais vendidos na Amazon num determinado mês do ano passado foram aqueles no estilo “50 tons de cinza”. Vários romances com a temática do homem rico e conservador que abusa psicologicamente de mulheres com joguinhos sexuais de poder. Quem comprava tais livros eram majoritariamente mulheres. Não é chocante isso? Assim, deixo para vocês um minuto de reflexão sobre que ideia de empoderamento a mídia, a TV e o cinema têm vendido para as mulheres. 

    

domingo, 2 de julho de 2023

A autoapresentação e a existência

"Uma vez que as aparências sempre se apresentaram na forma do parecer, a fraude, presumida ou premeditada, da parte do ator, o erro e a ilusão se encontram inevitavelmente entre as potencialidades inerentes, da parte do espectador. A autoapresentação se distingue da autoexposição pela escolha ativa e consciente da imagem exibida; a autoexposição não tem outra escolha senão exibir quaisquer características que um ser vivo tenha. A autoapresentação não seria possível sem certo grau de autoconsciência - uma capacidade inerente ao caráter reflexivo das atividades espirituais e que transcende visivelmente a simples consciência que provavelmente compartilhamos com os animais superiores. Propriamente falando, somente a autoapresentação está aberta à hipocrisia e ao fingimento, e a única forma de diferenciar fingimento e simulação da realidade e verdade é a incapacidade que os primeiros desses elementos têm para perdurar guardando consistência. Já foi dito que a hipocrisia é o elogio que o vício faz à virtude, mas isso não é bem verdade. Toda virtude começa com um elogio feito a ela, pelo qual expresso minha satisfação com relação a ela. O elogio implica uma promessa feita ao mundo, feita àqueles aos quais agradeço, uma promessa de agir de acordo com minha satisfação; a quebra dessa promessa implícita é que caracteriza o hipócrita. Em outras palavras, o hipócrita não é um vilão que se satisfaz com o vício e esconde, daqueles que o rodeiam, a satisfação. O teste que se aplica ao hipócrita é, de fato, a velha máxima socrática: "Seja como quer aparecer" - o que significa apareça sempre como quer aparecer para os outros, mesmo quando você estiver sozinho e aparecer apenas para si mesmo. Quando tomo uma decisão desse tipo, não apenas reajo a quaisquer qualidades que me possam ter sido dadas; realizo um ato de escolha deliberada entre as várias potencialidades de conduta com as quais o mundo se apresentou a mim. De tais fatos surge finalmente o que chamamos de caráter ou personalidade, o conglomerado de um número de qualidades identificáveis, reunidas em um identificável todo compreensível e confiável,e que estão, por assim dizer, impressas em um substrato imutável de talentos e defeitos peculiares à nossa estrutura psíquica e corporal. Por causa da relevância inegável dessas características escolhidas para nossa aparência e para nosso papel no mundo, a filosofia moderna, a começar por Hegel, sucumbiu à estranha ilusão de que o homem, ao contrário das outras coisas, criou-se a si mesmo. Obviamente a autoapresentação e o simples estar-aí da existência não são o mesmo."


(Hannah Arendt em "A vida do espírito")

Esse trecho, selecionado das páginas 53 e 54 da referida obra (em sua 5ª edição, publicada pela Ed. Civilização Brasileira), leva-nos a refletir sobre hipocrisia e vaidade. Segundo as palavras de Arendt, o hipócrita acredita piamente em sua autoapresentação, a ponto de, mesmo estando sozinho, fazer questão de autoapresentar-se como quer parecer aos outros e não, de fato, como vive ou deveria perceber-se em sua existência. O hipócrita crê na mentira que conta sobre si. O "eu sou", por mais evidente que deveria ser para si que não é, é tido como realidade para o hipócrita. Sob esse ponto de vista, poderíamos pensar no hipócrita como um narcisista delirante. As razões que o levariam a tal comportamento ultrapassariam as linhas deste texto e seriam de interesse da psicanálise. Por ora, o objetivo é unicamente tornar mais claro o entendimento do termo hipócrita. 

Já ao fim do trecho, Arendt afirma que a filosofia moderna chegou a confundir a autoapresentação com a existência, ao conferir à primeira o significado da segunda. Este é um ponto interessantíssimo do texto porque a autoapresentação encarada como autocriação seria uma exclusividade da mente hipócrita e, ainda assim, uma criação falsa de si mesmo. Ora, dado que se trata de uma falsa criação, não estaria o homem criando a si próprio e, sim, aniquilando-se. Seria o mesmo que negar a sua existência. Não há criação. Há aniquilação do que é, de como existe em dado momento de sua vida. Se a existência que dá é a uma autoapresentação, garante a existência de outro e não a de si. Portanto, se a filosofia confundir existência com autoapresentação, poderíamos concluir que até ela acreditaria que as qualidades do hipócrita lhe fossem mesmo inerentes e não meros frutos de seu delírio. Mais trabalhoso ainda: estar-se-ia afirmando que somos o que queremos imaginar que somos! Imagine-se Napoleão e será Napoleão. Nero poderia ter imaginado que era Augusto. Teriam sido diferentes os rumos da história se ele assim se imaginasse? Vou pintar meus cabelos de loiro, usar lentes de contato azuis e me regozijar por pessoas acharem que sou sueca. Isso transformará a minha vida em outra, tal qual a de Adriane Galisteu que, segundo as palavras dela, deu uma volta de 360 graus em sua vida...

Gosto do princípio "Na natureza nada se perde e nada se cria, tudo se transforma" (Lavoisier). Habitamos a natureza e também nos transformamos. Mas não nos transformamos porque imaginamos. Transformamo-nos porque nos identificamos com algo até então novo em nós. Somos o que nos transformamos. Por isso o verbo ser se conjuga também no passado e no futuro.  Se ser fosse algo imutável, só seria conjugado no presente.  Há uma interpretação equivocada a respeito do significado do verbo ser. Ser é transformar-se. 

Crer que os olhos dos outros garantirão quem você seja, isto é, que você seja a sua autoapresentação, é simplesmente ser cego. Afinal, quem mais precisa se guiar pelos olhos dos outros? Quem mais precisa dos olhos dos outros para a descrição exata das coisas?

Apegar-se às máscaras é perigoso, sob o aspecto psiquiátrico. Um mitômano apega-se a todas as suas máscaras e nega constantemente a sua própria identidade. Quer acreditar naquilo que não é. Quando eu era criança via meninos se vestindo de super-heróis, com máscaras, espadas, escudos e belas fantasias. Cada um, enquanto brincavam, sentia-se um "Homem-Aranha", um "Super Homem" ou um "Batman". Fantasiar faz parte do mundo infantil. No entanto, as próprias crianças têm ciência de que estão brincando. Ver adultos conferirem realidade às suas fantasias já merece preocupação médica. Dos adultos esperamos um comportamento mais amadurecido, imaginamos que a certa altura da vida já saibam quem são e que não se divirtam em brincar de esconde-esconde com as pessoas. Em particular, de esconde-esconde com elas próprias. Que não façam de conta que são aquilo que nunca dão conta de ser (em algum momento, a fragilidade dos mentirosos os coloca em prova e os desmascara). E que compreendam, de uma vez por todas (porque chega uma hora em que é preciso aprender!), que a mais indefesa das pessoas é a que se ilude consigo mesma. Na verdade, ilude apenas a si mesma, pois as outras pessoas a enxergam e ela é que nunca se conscientiza disso.

Erram aqueles que chamam de sonhadores os que apreciam e exigem nudez. Estes são os realistas. Sonhadores são os que, movidos por algum medo, optam por inventar personagens para as pessoas em vez de enxergá-las. Os que estão sempre em fuga por temerem encarar a vida. Por mais que a vida os encare diariamente.

A autoapresentação coincide com a existência se o indivíduo, consciente de quem seja, decide expor-se sem máscaras. Neste caso, seria o mesmo que autoexposição. Se a dúvida é o preço da pureza (Sartre), ser mau corresponde a ser consciente de que a autoapresentação não o representa. E se, ainda assim, insiste em se esconder é porque detesta ser quem é.  Para estes tipos, portanto, talvez a hipocrisia seja tomada como uma questão de sobrevivência: é preciso crer na mentira contada para  enganar a consciência. O orgulho dominando o caráter humano. Parece certo Hesse: o caminho mais duro é o que nos conduz a nós mesmos. Longe do orgulho e de toda vaidade.