Para parte considerável das pessoas, não é suficiente que estejam bem e, sim, sempre melhor que as outras. Isso conduz o modo como costumam medir a própria grandeza. Não pelo que são, mas pelo que são em comparação às demais. Não foi à toa que Oscar Wilde disse que para se conquistar um inimigo é suficiente ser uma boa pessoa para ele. De fato, muita gente troca a gratidão pela sensação de dever favores a quem é legal com elas. Assim, em vez de reconhecimento ou gratidão, sentem-se é pequenas. E contam os dias para devolverem quaisquer ajudas que recebem. A ajuda as incomoda. Odeiam precisar de ajuda. Não a aceitam com alegria e, sim, com tristeza ou vergonha. Eu fico pensando nisso porque entendo que para sermos amados precisamos saber receber amor sem jogar pedras nos outros. Nunca sei o que é mais difícil ao ser humano, se é amar ou se é aceitar ser amado.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2023
terça-feira, 26 de dezembro de 2023
Um viva aos cariocas!
Ontem eu postei um vídeo sobre ser um "carioca da gema", no Facebook e no meu story do Instagram. Agora há pouco recebo lá o seguinte comentário de um belorizontino e, portanto, meu conterrâneo: "Antipáticos desde a tenra idade". Respondi, obviamente, que discordo dessa visão sobre os cariocas.
Moro no Rio há dezessete anos. A cultura é bem diferente da cultura em BH. A cidade é bem mais caótica. Mas, nem por isso pouco acolhedora. O Rio tem pessoas de todas as partes do país, algo mais difícil de se ter em BH, por exemplo.
Noto que o fato de o carioca se orgulhar muito de ser carioca sempre incomodou o bairrista belorizontino. Sim. Porque o belorizontino é extremamente bairrista, né? Sabe-se lá porque considera que as outras populações se acharem o máximo afeta a sua vida em alguma coisa.
Morei em BH até os meus vinte e cinco anos. Lá eu sentia que as pessoas sempre se preocupavam se a grama do vizinho era mais verde. Aqui no Rio as pessoas não se preocupam tanto com a grama do vizinho. Afinal, quem tem praias tão lindas vai se preocupar com grama de vizinho?
O carioca é veloz, é objetivo e é despojado. Não anda arrumadinho como os belorizontinos. Aqui o uniforme é regata, bermuda, chinelo e óculos escuros. O carioca gosta de curtir a vida e isso transparece em seu sotaque cheio de ginga. O carioca fala como se estivesse sambando. E, mais importante, o carioca não repara na roupa dos outros como os belorizontinos reparam.
Enquanto os mineiros puxam papo com os "forasteiros" (gente de outras cidades) o tempo todo, sempre tentando oferecer um pão-de-queijo e um café pra puxar a sua língua, o carioca deixa o café na mesa para que você se sirva, sem nenhum tipo de cerimônia. O carioca não pergunta sobre sua vida, não pergunta o que você está fazendo, não pergunta nem de onde você veio. O carioca percebe pelo teu sotaque e te oferece um Guaravita gelado. O carioca não alonga a conversa. O carioca precisa aproveitar o tempo para dar um mergulho. E ele vai dar um, dois, três.
O carioca é alegre, bem humorado, bronzeado, feliz. O carioca sequer se importa se alguém o acha marrento. O carioca se encherá mais ainda de orgulho disso, prezado belorizontino.
O carioca é carioca. E isso não é pra qualquer um. Por fim, devo dizer que tenho um filho carioca e ainda em tenra idade. E, portanto, quero que vá à merda quem disser que cariocas são antipáticos desde a tenra idade. Ou, em bom mineirês, que vá pastar!
O advogado do diabo
O que mais me impressiona é a quantidade de gente que vai a missas e que admira pessoas responsáveis pela implantação de governos tiranos. Governos que torturam pessoas, que deixam crianças órfãs. Pessoas moralmente deploráveis aplaudidas de pé por cristãos de meia tigela. Repito: de pé, por cristãos de meia tigela.
Esse troço de pagar de bonzinho, de pregador da paz, mas ao mesmo tempo enaltecer criminosos de guerra revela, pelo menos aos meus olhos, um contrasenso enorme. Há algo errado em um comportamento assim, pois é um comportamento muito hipócrita. A menos que ser hipócrita não seja mais um problema moral, a hipocrisia deve levar uma pessoa crítica a buscar entender porque está sendo contraditória. Pode fazer Psicanálise ou pode perguntar como as outras pessoas a enxergam, para tentar ver se a imagem linda que tem de si mesma coincide com o que os outros percebem. Ou será que acham que ninguém percebe?
Incomoda-me também a covardia que demonstram ao negarem os motivos que as levam a admirarem canalhas. Ninguém deve justificar porque admira um canalha. Afinal, todos temos direito de admirar canalhas. Mas, é muito feio fingir que não admira. É bonito quando assumimos nossa posição se admirarmos um canalha a ponto de nos preocuparmos tanto em enaltecê-lo, a ponto de nos preocuparmos tanto em homenageá-lo. Assumir a admiração já explícita em vez de covardemente, hipocritamente, negá-la. Todos já estão vendo. O rei está nu.
"A vaidade é o meu pecado favorito", disse Milton, personagem do Al Pacino em "O advogado do diabo". E a vaidade, sobretudo a acadêmica, a intelectual, faz com que muitos esqueçam os crimes de guerra de outro acadêmico para tentar valorizar um intelecto que nunca é colocado em prática nem mesmo pelo próprio "intelectual". Em outras palavras, nem o aplaudido por bajuladores acredita em si mesmo. Os bajuladores lhe engraxam os sapatos sujos de sangue, lustrando-os para que algo brilhe em uma criatura detestável.
Sempre haverá tempo para uma pessoa cristã entender que Cristo e Kissinger não falam a mesma língua. E sempre haverá tempo para quem se acha impecável perceber que também peca. Segundo o apóstolo Mateus, mais precisamente no capítulo 6, versículo 21 de seu Evangelho: onde está o seu tesouro, aí está também o seu coração. Deste modo, aquilo que você valoriza é exatamente aquilo que você ama. Não se pode valorizar, portanto, quem faz guerras e amar Cristo, pois Cristo jamais passaria pano para criminosos de guerra. Ou se valoriza um tirano ou se valoriza Cristo. Ambos são muito antagônicos para serem simultaneamente defendidos. Assim, façamos um brinde à vaidade! Ela quase sempre vence o homem e o joga abruptamente no chão. A vaidade, a formidável vaidade. O pecado favorito dos advogados do diabo.
A linguagem e a argumentação
Ora, isso mostra que tais pessoas não estão preocupadas com o estudo da coisa em si, mas apenas em serem olavos de carvalho da vida, desejosas de brilho filosófico sem argumentos que justifiquem tal brilho. O que na matemática ou mesmo entre cientistas é corriqueiro e plenamente aceito - muitas vezes até com gratidão -, não o é entre a maioria das pessoas.
A Ciência e a Filosofia estão acima dos egos pessoais. Ontem eu dei um comentário absolutamente pertinente, que foi atacado por um cara sem que houvesse falha alguma no que foi expresso por mim. Ao perceber que ele não compreendia o que eu dizia, mostrei-lhe um contraexemplo para perceber onde estava a sua falha de raciocínio. Minha intenção? Nenhuma. Isso faz parte do ato de pensar, da argumentação. É algo tão natural como respirar.
Não é à toa que nunca fui atacada por filósofos. Afinal, a dialética nasce na Filosofia. E seu uso, assim como o próprio espírito filosófico, é aplicável em todas as ações humanas, uma vez que em todas elas devemos pensar no que fazemos e no porquê de estarmos fazendo isso e não aquilo. A razão deve preceder as ações ou seremos alienados. Uma pessoa alienada é aquela que despreza as hipóteses, as causas, e acredita que compreende bem a tese, ou seja, os efeitos.
Ninguém é arrogante por fazer questão de pensar sempre. Arrogantes são aqueles que afirmam coisas falsas, que se baseiam em raciocínios falhos, e, ainda assim, querem que todos as aceitem como verdadeiras. Esse comportamento fere o espírito matemático, que se fundamenta, essencialmente, no trabalho lógico-dedutivo. Independente da área em que se trabalha, um contraexemplo é um contraexemplo. A matemática não especula. Não é à toa que a maioria de nós se irrita com a economia baseada em especulação e com qualquer afirmação imposta a todos mesmo sendo mal fundamentada, mal estruturada, sem se sustentar de modo algum. Como sugere a Marguerite, no filme que vi quinta-feira, basta mudar o enunciado! Basta aplicar o exercício da razão, exercício esse que é indissociável da humildade.
Ser humilde não é ser calado. Ser humilde é apreciar mais o pensamento que os aplausos. O ato de pensar é sempre um ato de humildade. Em particular, deve aceitar questionamento, pois é dialético. Quem pensa não apaga comentários nem exclui pessoas que "ousam" questionar seus argumentos. Menos ainda, ofende-se com contraexemplos. Quem pensa entende que não importa quem seja o interlocutor! Pode ser feio, bonito, temperamental ou sereno. O que importa unicamente é o texto, é o que está sendo dito. Nada é pessoal para aqueles que se atêm unicamente ao texto, ao que está sendo dito , e não às características de quem diz.
Igualmente, é no argumento que está o pensamento.
Quando as pessoas aprenderão a se ater exclusivamente ao texto? Quando aprenderão que seus sentidos são construídos, entre tantas outras coisas, pela coerência apresentada?
Só os poetas conseguem ser inocentes
Pode-se admirar a obra de um homem sem admirar o homem. E quando se trata de alguém deplorável cuja obra se admira, tudo que se espera de quem separa tal homem de sua obra é que, no momento de sua morte, faça-lhe apenas um minuto de silêncio. Isso, sim, revela separar um homem detestável de sua obra, quando se considera esta relevante.
Curiosamente, muitos enaltecem homens deploráveis, por algo intelectual que tenham deixado. E, como justificativa, dizem que o fazem por serem imparciais. Ora, imparciais seriam se não manifestassem a admiração, se não se incomodassem em ver um homem morto ser merecidamente julgado por sua moral empobrecida por atos de violação aos direitos humanos.
Quem separa o homem da obra sabe que as obras podem ser imortais, mas, os homens não. Aceita-se a morte do homem e, se deplorável, não se sofre nenhum pouco com tal morte. Sente-se até um alívio, como se alguma justiça tivesse finalmente sido feita, quando a vida leva embora pessoas responsáveis pelo fim da vida de outras. Por outro lado, a obra fica, permanece intocável e, portanto, os admiradores da obra não têm motivos reais para se inquietarem com a morte do autor. Assim, a morte de um homem só incomoda realmente quem não é capaz de separar um homem de sua produção intelectual ou artística e não o contrário. Só incomoda quem é parcial. Os imparciais não sentirão sua morte, uma vez que saberão que a obra e o autor não se misturam.
Opa! Mas, espere um pouco aí. Será mesmo que em todas as áreas, autor e obra não se misturam? Ou apenas na produção artística? Existe eu lírico em um texto acadêmico? Aí é que está! Na ciência, os textos são escritos com o conhecimento da causa e efeito. E são textos com intencionalidade. Escreve-se para defender um ponto de vista bem fundamentado teoricamente a partir de dados bem analisados. A intencionalidade textual faz com que autor e obra não se separem. Se um autor se separa de um texto acadêmico, é porque nem ele acredita no que escreve, escrevendo, portanto, apenas para vender seu peixe. Em tal caso, escapa-nos uma pergunta imediata: a troco do que escreve? Trabalha para quem? Quem o está pagando para escrever? Quem o está comprando? Aos interesses de quem atende?
A ciência nunca foi imparcial, uma vez que se insere na esfera política. Isso não significa que não seja confiável. Significa apenas que ela não pode se isentar das consequências que sabe muito bem que deixa.
Uma obra só consegue se separar do autor quando se trata de textos literarios. Isso porque esse tipo de texto foge a licenças de ordem moral. É o texto pelo texto. A estética é o seu foco e os diversos sentidos que produz. A palavra não deve ser amarrada. Pelo contrário, corre solta. Mas, corre solta por linhas bem traçadas pelos autores. Quanto mais o poeta desvencilhar o texto de si, melhor cumprirá a sua pena. A pena que escreve. Não a punição. Afinal, o poeta não é o poema. E é nisso que ele se salva. É nisso que ele escapa daquilo que escreve. Ninguém pode provar que ele quis dizer isso ou aquilo. A poesia multiplica sentidos e torna leitor coautor de qualquer obra. Apenas os textos literários têm essa capacidade. Os acadêmicos, não. Os acadêmicos colocam o autor no olho do furacão. Somente a literatura é capaz de criar sem deixar rastros de seus autores. Assim, a poesia inocenta o poeta. E, assim, só se pode ser realmente livre dentro do campo da criação artística.
Ninguém fala em criação acadêmica e, sim, em produção acadêmica. A gente fala é em criação artística. A produção acadêmica tem o propósito de prestar serviço à sociedade. A criação artística, não. Esta insere o homem em sua individualidade, que nunca deixa de ser também coletiva. Não há um só sentido, uma só interpretação (Quem assina, de fato, o poema?). No texto acadêmico, porém, só há uma interpretação. Somente os autores se responsabilizam pela interpretação daqueles que souberem ler. Assim, torna-se impossível separá-los de suas próprias obras. Nenhum cientista é inocente. A ética deve, portanto, ser seu princípio mais fundamental e sua ausência pode lhe ser tanto motivo justo de punição quanto motivo plausível de repugnância.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
Gente rabugenta
É claro que a fome existe no natal. É claro que sempre existiu. Mas, também deveria ser claro que a culpa não é do natal, não é da data comemorada com ceia farta. Existem pessoas tão amargas, que odeiam o natal porque muitos não têm natal. E há também os que o detestam por não terem famílias, o que, ao menos, é um argumento.
sexta-feira, 3 de novembro de 2023
Meninos devem aprender a ser homens, não moleques
quarta-feira, 1 de novembro de 2023
Os minimalistas e sua tesão pela falta
Quem nunca se deparou com aquela pessoa que gostaria de jogar um tanto de coisa sua fora? Aquela que implica por você ter uma coleção que guarda para ler quando tiver tempo, mas que ela acha que você nunca lerá só porque ela nunca leria.
Guardar coisas que não funcionam ou coisas estragadas é, de fato, uma perda de tempo. É até mesmo doentio. Desapegar-se é fundamental. Porém, existe gente que não tá falando disso, que tá falando que, para viver, só é preciso o essencial. Mas, o que é o essencial? Para mim, pode ser essencial tomar café diariamente, enquanto para outros, isso é completamente dispensável. Existem pessoas que não compreendem isso.
Têm mania de jogar tudo, tudo, tudo fora! Em suas casas, só cama, fogão, escrivaninha, geladeira. E, geralmente, na cor branca, sabe-se lá o porquê. O problema é que se tornam, quase sempre, militantes das ausências, dos emojis, dos textos sempre mínimos, quando há quem goste da vida concreta (presente em tudo!), do uso constante das palavras, da voz ao alcance das mãos.
Para mim, a parede não basta para eu manter de pé minha casa. Eu quero cor e quero quadros. Eu quero corredores com quadros, fotografias, mosaicos, porcelanas e corações mexicanos em chama (são tão bonitinhos). Quero placas que apontem para onde ficam o banheiro e os quartos. Quero que a casa guie os visitantes por si só, uma casa com timbre e personalidade. Uma casa que converse com eles. Uma casa que estende flores pelo chão e não apenas as mostre amarradas dentro de um vaso branco com água sobre a mesa. Perdão. Sobre a escrivaninha.
sexta-feira, 11 de agosto de 2023
Razão e sensibilidade: não existe uma sem a outra
Pois bem. Vamos falar sobre o emocional e sobre o grande erro que muitas pessoas cometem quando avaliam ou julgam alguém sem considerar os contextos pessoais de cada um. Começo esse texto criticando o enaltecimento que a sociedade demonstra para o individualismo e a frieza como valores associados à racionalidade. Porém, todos que confundem indiferença e individualismo com racionalidade sempre utilizam como argumento os seus ressentimentos ao longo da vida. Não passam de pessoas amargas e ressentidas que, não raras vezes, são fechadas para os outros. O culto à frieza. Devemos observar que uma coisa é ter controle emocional, outra é ser indiferente. Aliás, até para não ser indiferente é preciso se controlar. De fato, podemos estar com raiva de alguém, mas, nem por isso voarmos no pescoço dela! Nem por isso deixarmos de estender-lhe as mãos. Logo, há mais controle emocional em quem não pensa apenas em si mesmo. Este é o primeiro ponto que coloco para que as pessoas percebam que é preciso ser sensível para ser racional. Porque a razão exige de nós uma capacidade alta de análise. Mas, é impossível analisarmos as coisas bem se não soubermos nos colocar no lugar dos outros.
O segundo ponto que coloco tem a ver com a presunção com que muitos avaliam pessoas sem prestarem atenção no quão sensível elas possam estar. Ontem tive um professor convidado para palestrar em minha aula e ele apresentou os excelentes resultados de muitos de seus alunos. Mas, não eram quaisquer alunos. Eram alunos muito desacreditados pela sociedade. Ele disse que o primeiro passo é motivá-los e que isso só é possível elevando a autoestima deles. O professor foi enfático ao dizer o quanto o emocional influencia nos resultados e nas desistências, nos abandonos aos sonhos. Os alunos perdem a confiança em si mesmos. Não se pode ignorar a influência do estado emocional nas avaliações. Em particular, porque avaliações podem punir! E assim são as pessoas que adotam como lema o individualismo ou a análise fria sobre alguém. Vivemos em uma sociedade que jorra trocentas milhões de informações em nossas mentes. Boa parte delas desgastantes. Todos temos demandas que nos esgotam. Todos precisamos desabafar ou chorar. Não existem super-heróis. Muitos de nós temos ansiedade. Eu sou uma delas, por exemplo. Eu não consigo ficar sem fazer nada sem que a ansiedade tome conta. Eu sempre preciso me ocupar com algo. Isso não significa que eu não descanse. Mas, eu nunca vou conseguir ficar várias horas sem fazer nada. Vai me entediar e dar ansiedade. A ansiedade pode virar enxaqueca. Ela pode virar manchas roxas no braço etc. Mas, eu não tenho a menor dúvida de que qualquer pessoa que gosta mesmo de mim vai preferir me dar um abraço e perguntar "tudo bem?" do que me tratar com indiferença. Da mesma forma, eu sei que meus inúmeros alunos que fazem provas ruins ou que tentam desistir dos cursos, muitas vezes mudam de ideia após uma longa conversa comigo. Com direito a um abraço meu, inclusive. Tenho vários exemplos deles. Houve uma que terminou o mestrado recentemente e que me disse que a conversa que eu tive com ela foi primordial para ela não ter desistido da matemática no segundo período. Eu a animei. E muita gente não acreditava nela. Eu sempre me pergunto que arrogância é essa que pode fazer com que você duvide de alguém porque a pessoa está ansiosa ou triste ou simplesmente por ela ser muito diferente de você, como é o caso das pessoas com necessidades educacionais especiais e tantas outras fora do padrão. Eu fico muito triste (decepcionada é a palavra mais precisa) com pessoas que não são capazes de sequer olhar as outras com mais inteligência. Notem que nem falei em olhar alguém com mais carinho. Porque pra mim, olhar é coisa de gente inteligente. Vai muito além de carinho. Tem a ver com uma capacidade de análise, de perceber que algo não vai bem com alguém. Obviamente, conversar é mais racional do que punir as pessoas com silêncio e tratamentos hostis fazendo com que se sintam inadequadas ou um peso para outras, predispostas a desistirem de um tanto de coisa. Diálogos são sempre mais racionais porque é o único meio de se resolver um problema para todos os envolvidos. Vivemos em uma sociedade que não perdoa a sensibilidade, que vê a sensibilidade com maus olhos e que venera o imediatismo e a falta de análise dos fatos. É uma sociedade burra e consumista que transforma todo ser humano em um objeto. E esses objetos humanos já não têm sentimentos ou não buscam ter. Buscam o lucro, o sucesso, o prazer desenfreado sem virtudes (a questão aqui é o desprezo às virtudes). Mas, de que virtudes falo? Falo da honestidade, do senso de justiça, da humildade de não espezinhar os outros, de não rir de alguém, de não se achar melhor que, de não se achar infalível. Falo de uma sociedade que separa as pessoas em vencedores e vencidos, mas que joga um jogo que nem ela sabe que é uma das peças dele.
Sobre razão, afeto e liberdade
A liberdade serve à razão, não à emoção. O filósofo Kant dizia que só conseguimos ser livres se formos capazes de dizer não àquilo que desejamos. Em outras palavras, se formos capazes de perceber que nem tudo o que queremos comunga com os valores que cultivamos. Então o que devemos escolher? Ser livre seria, nesse caso, escolher fazer o que quer? Para Kant, não. Para Kant, quem só sabe fazer o que quer é, na verdade, um escravo do desejo. Ser livre seria ser capaz de analisar a influência dos desejos em nossas ações e ser capaz de não se ajoelhar diante deles. Cabe observar que não fazer o que quer e fazer o que não quer não são, necessariamente, a mesma coisa. Fazer o que não quer também pode levar a situações de escravidão. Então, onde está o espírito da liberdade? Está em ter possibilidade de escolher e em fazer um uso consciente desse poder de escolha. Livre é quem se põe em condições de fazer uso da razão. É nítida a influência de Kant sobre Hannah Arendt, que cunhou o termo "banalização do mal" para se referir à prática do mal sem questionamento. Notem também que esse termo exemplifica com exatidão o que falei antes: fazer o que quer também não significa ser livre. É preciso fazer uso da escolha consciente. A questão de Arendt é mostrar que só podemos fazer o mal quando não fazemos uso da razão. Dito de outro modo, só quem pensa é capaz de dizer não. Em particular, quem tortura alguém obedecendo a ordens só o faz porque não questiona este ato. É a banalização do mal. Assim, por mais contraditório que possa parecer, vamos concluir que para sermos éticos, bons e amorosos devemos sempre saber usar a razão. Sempre. Muitas vezes as pessoas confundem razão com ausência de sentimentos. Pelo contrário. A razão é unicamente pensar. Pensar e sentir não são a mesma coisa! Pode-se ser muito racional e muito emotivo ao mesmo tempo (quem é libriano sabe disso muito bem, inclusive).
As vantagens da Barbie
Na última semana, um filme sobre a Barbie estreou nos cinemas mundiais. Tendo contado com um excelente trabalho de marketing, o assunto “Barbie” tem viralizado nas redes sociais. Muitas pessoas, mais entusiasmadas, fãs ou não da boneca, mostram-se alegres em fotos com fundos cor-de-rosa, enquanto outras, com ares de ranço ou desprezo, optam por tirar sarro de toda essa empolgação. Já eu, que sou uma pessoa sempre empolgada com aquilo que “faz a minha cabeça”, não me irrito nenhum pouco com as paixões alheias cor-de-rosa. As paixões que me irritam costumam ser em verde e amarelo e fazem arminhas com as mãos. As cor-de-rosa... as cor-de-rosa não me incomodam não. Sei que sempre preferirei as pessoas apaixonadas às pessoas indiferentes - pelo menos as primeiras eu sinto que ainda estão vivas.
De minha parte, que ainda não assisti ao filme, nada posso dizer a seu respeito, a não ser o que rapidamente li em alguma postagem alheia: trata-se de um filme feminista. Alguma Barbie havia sido expulsa da “Barbielândia” por não ser uma mulher perfeita e, na busca por onde morar, acabou tendo de conviver com humanos. Bom, foi o que li da tal postagem e, portanto, não me responsabilizo pela veracidade dos fatos ali descritos. Eu realmente precisaria ver o filme. Entretanto, uma coisa eu já posso observar mesmo sem tê-lo visto me baseando somente no que li: um filme cuja protagonista imperfeita é representado pela belíssima (e execelente) atriz Margot Robbie só pode mesmo estar de sacanagem com o telespectador. Quem ousaria dizer que essa beldade é imperfeita? Em sã consciência, ninguém. Pois é. E aí o filme apresenta uma coerência marcante: as exigências que pesam sobre as mulheres na sociedade real também são descabidas. Em particular, as que envolvem seus corpos e as suas idades. Mulheres são expulsas quando não são perfeitas. As “mais velhas” são criticadas quando estudam com as mais novas em certas universidades. As mais velhas escutam “Nossa! Como você está bem! O que você faz para estar assim?” (como se as quarentonas, cinquentonas, sessentonas etc perdessem a capacidade criativa, a capacidade de transarem, a capacidade de amarem e de viverem plenamente como bem entenderem). As que estão um pouco acima do peso sofrem deboches que os homens mesmo não sofrem. Aliás, homens costumam ser tão ridículos, que chega ao ponto de diversos homens claramente gordos exigirem que suas esposas emagreçam com a desculpa de se preocuparem é com a saúde. Ora, se fosse preocupação com a saúde, eles fariam regime e parariam de beber. Em suma: há sempre dois pesos e duas medidas e dependendo do seu sexo, você pode ter que sair da Barbielância também. Afinal, a vida não é tão cor-de-rosa assim para as mulheres.
A minha geração, nascida na década de 1980, talvez tenha sido a última em que meninas de dez anos ainda se entusiasmavam com a Barbie. Hoje, nessa idade, as meninas não costumam mais brincar de bonecas. A Barbie de hoje tem um teto menor, ou seja, o etarismo também já atingiu a boneca Barbie! Eu não fui uma menina que teve bonecas como brincadeira favorita. Eu preferia montar quebra-cabeças, jogar baralho, jogar vôlei, pular elástico, jogar queimada, andar de bicicleta e de carrinhos de rolimã, além de jogar futebol de botão, que faz parte - assim como o jogo de peteca – da cultura belorizontina. Entretanto, como qualquer menina, eu também tive bonecas. Em particular, uma, e somente uma, Barbie. A minha, aliás, eu ganhei aos nove anos. Antes dela, o máximo que ganhei foi uma “Academia da Barbie”, dada por meu padrinho, que cismou que a boneca vinha também dentro da caixa. Para a imensa decepção dele e também para a minha, aquele presente de natal não fora tão perfeito quanto era a Barbie.
Naquele
tempo, a qualidade da boneca era melhor, suas roupas eram melhores e até seus
sapatos eram prateados. E praticamente todas as meninas quiseram ter alguma,
mesmo as que brincavam com carrinhos de rolimã, quebra-cabeças e baralhos. A
Barbie representava a imagem da mulher adulta que, em nossas mentes e corações,
representava quem seríamos no futuro. Era uma mulher muito bem sucedida. Havia
a Barbie médica, a Barbie dona de restaurante, a Barbie arquiteta, a Barbie
professora, a Barbie veterinária etc. A Barbie tinha um carrão e uma vida
estável e confortável. E sabe o que mais lindo ela tinha, além disso tudo? Ela
não precisava do Ken para ter aquilo tudo. Ela não era casada! Não havia
aliança dourada alguma em seu dedo. Havia, sim, um anel de brilhantes. Mas,
comprado por ela. O Ken era seu namorado e jamais fora o personagem central da
história dela. Ele era absolutamente coadjuvante. Nenhuma menina fazia questão
de comprar o Ken. Poucas tinham o casal. Porém, muitas tinham várias Barbies!
Havia brincadeiras em que na casa de uma várias delas se encontravam para
jantar: a veterinária, a médica, a professora. Ken? Quem era Ken? O Ken não nos
interessava. Vocês, críticos tão severos da boneca, por acaso acham que isso é
pouco? Vocês realmente acham?
Por essas e por outras, é que o entusiasmo das meninas e das mulheres com a Barbie ainda é considerável. E hoje, somado ao fato de já termos no mercado Barbies baixinhas, Barbies gordinhas, Barbies negras, Barbies cadeirantes, Barbies com vitiligo etc. As Barbies acompanhando as exigências de movimentos sociais para ainda habitarem os sonhos das meninas. E, isso, meus caros, também é uma conquista política, apesar de ainda não termos Barbies que sejam faxineiras ou caixa de supermercado. Quem sabe um dia elas também surjam nas prateleiras? Quem sabe a realidade um dia mude no mundo dos sonhos?
terça-feira, 8 de agosto de 2023
Autoatendimento: bom pra quem?
Uma das coisas mais chatas da rotina de todos nós é fazer compras. E de todas as etapas chatas dessa atividade, a mais chata é a finalização dela: a fila e todo o processo de atendimento dos caixas. Não pelos caixas, é claro, pois são trabalhadores muito explorados que, inclusive, não tiveram o privilégio de fazerem isolamento durante a pandemia enquanto os que tiveram podiam comer às custas do sacrifício deles (eu me incluo entre os privilegiados). Não. Não é por eles. É que nesse momento vemos a exploração geral dos donos das redes de supermercados.
Pagamos caro (tudo está caro) e ainda pagamos as sacolas que, na verdade, deveriam ser dadas aos clientes pelos estabelecimentos. Afinal, se compramos ali, que nos forneçam os meios de levar para casa. Se você compra roupa, sapato, perfume etc, as lojas fornecem os embrulhos. Mas, supermercados são privilegiados. Deveria ser obrigação deles fornecer as sacolas ecológicas gratuitamente.
Como se não bastasse isso, alguns trabalham com atendimento eletrônico. Máquinas que só aceitam cartão ou pix e que existem para "agilizar" o atendimento (como se você fosse realmente mais competente que os atendentes...rss).
Mas, as máquinas não são robôs. Nós é que temos que passar os produtos, pesá-los ou digitalizá-los, além de pagar as sacolas e também embalar os produtos. Em outras palavras, o cliente se torna o atendente de si mesmo. Sendo mais clara (se é que ainda não ficou claro): o supermercado poupa a si de contratar mais funcionários transformando os clientes em funcionários. Mas, em funcionários que não recebem salários e nem descontos! A meu ver, deveria ser dado um bom desconto para quem fizesse uso das máquinas, como forma de ressarcir o cliente por trabalhar de graça para o supermercado.
Quando eu for deputada federal vou criar um projeto de lei para tornar obrigatório o desconto de 31,4% (aproximadamente 10pi) das compras de todos os clientes que utilizarem essas máquinas, assim como a obrigatoriedade do fornecimento gratuito das sacolas ecológicas pelos supermercados. Me aguardem. Já tô de saco cheio. Não de sacolas.
quinta-feira, 3 de agosto de 2023
Nem só de narrativas se faz um "empoderamento"
Começo este texto já adiantando que ele não agradará homens muito machistas. Entendam o “muito” aqui como a afirmação de que todos os homens são machistas, mas que alguns passam de um limite razoável para que se possa conviver com eles sem se sentir constantemente desrespeitada. Ao longo da história, mulheres têm conquistado direitos importantes. Direitos que levaram séculos para serem adquiridos. Direito ao voto, direito ao divórcio sem a perda da guarda dos filhos, direito è educação formal (isto é, o direito a estudar em uma escola e não em ambiente doméstico) e, em alguns lugares, até mesmo o direito ao aborto. Em alguns países, se uma mulher é estuprada e engravida, ela não só é obrigada a ter a criança como também é obrigada a se casar com o estuprador. Na Ìndia, além disso, mulheres devem se esconder quando menstruam, dado que Deus nos fez naturalmente sujas e pecadoras, sempre associadas a incitar os homens à perdição. As mulheres os tentam e os santos homens caem em tentação. E são sempre perdoados, vítimas dos instintos, da testosterona e de quaisquer desculpas que lhes permitirem fazer o que quiserem e sempre culparem as mulheres.
A
objetificação das mulheres, porém, atingiu também a esfera do mundo
puramente virtual. Em particular, há homens que pagam caro para ver vídeos
sensuais de mulheres falando sacanagens enquanto eles se masturbam do outro
lado da tela. Segundo o documentário “Pornocracy”, essa é uma nova forma de
prostituição. Nela, homens do mundo inteiro escolhem o rosto que desejam e
pagam por um vídeo ao vivo com aquelas mulheres. Mulheres de diversas partes do
mundo. Sequer precisam tocá-la. A imagem é suficiente para que se masturbem e
gozem e o importante é que eles gozem e só. Há redes sociais em que mulheres
vendem fotos e vídeos. Por exemplo, o onlyfans. Em tais sites, vendem suas
imagens para homens cujo sonho é o de comprá-las. Elas não se importam e consideram
que são empoderadas sexualmente. Pergunto: que empoderamento é esse que
transforma um ser humano em produto? Estamos falando de um ser humano que
decidiu se vender. Não há liberdade alguma aí. O simples fato de uma pessoa
decidir o que fazer com o próprio corpo não significa que decidiu pela liberdade
dele. Um escravo que decide ser escravo não deixa de ser escravo por ter
escolhido “livremente” ser um. Quem dita as regras ainda é seu senhor. Com as
mulheres não é diferente. Infelizmente, há uma apropriação indevida do conceito
de liberdade sexual da mulher. A liberdade só pode ser liberdade enquanto não a
sujeitar à prostituição, à condição de um produto. Uma mulher que não se
prostitui é que pode ser livre. Uma mulher que se prostitui jamais será. Entristece-me
consideravelmente ver uma mulher se sujeitar à condição de um produto. Isso
independe de eu gostar ou não dela, de ela ser politicamente de esquerda ou de
direita. É um ser humano. Entristece-me também ver tantas vezes as minhas palavras serem desonestamente
consideradas “machistas” justamente por esquerdomachos que se aproveitam da
sujeição dessas moças. Eu sinto pena da subjugação delas e sinto um enorme nojo
deles. Utilizam um discurso desonesto e mentiroso, dando a entender que elas
são livres por escolherem fazer o que querem com seus corpos, quando o que
escolhem é se expor para eles. É claro que eles vão defender essa “liberdade”,
uma vez que eles se beneficiam com a exposição dessas mulheres. Mas, e elas? Em
que elas se beneficiam? Em quê? Em nada! Muito pelo contrário. Suas fotos são
distribuídas de um homem para outro, sempre acompanhadas de palavras que as
objetificam. E elas, tolas, não são capazes de perceber que isso não é
empoderamento algum. Até eu já recebi, por engano, foto de uma mulher. Um homem
de esquerda me enviou errado a foto de uma mulher que o amigo dele pegava.
Desculpou-se. Não há desculpas. Isso é sórdido. Imaginem: uma mulher envia uma
foto para um homem e ele distribui para os amigos para mostrar o quanto ele é fodão
e pegador. Um pegador, ou seja, um homem que consome mulheres deliberadamente.
É um discurso mentiroso fazer essas moças acreditarem que realmente não se
objetificam. Esses homens curtem ver fotos nuas de mulheres nas redes usando
esse discurso falso de empoderamento para se aproveitarem delas, da imagem
delas. Entretanto, não são capazes de defender a exposição de suas companheiras
nuas para outros homens. Aí o discurso deles muda. Esse comportamento é
desonesto, mentiroso, torpe mesmo.
Mas, falemos um pouco dos homens bons também. Alguns, bastante conhecidos. Virginia Woolf teve um marido que a apoiou
bastante. As irmãs Brönte tiveram apoio do pai. Camille Claudel teve um pai que
acreditava muito nela (infelizmente morreu antes da artista). A matemática Emmy
Nöether foi defendida pelo matemático
David Hilbert para dar aulas em uma universidade. Ele enfrentou uma luta para
conseguir legitimar que mulheres ocupassem cargos de relevância científica.
Marie Curie também foi apoiada por seu marido, também cientista. O filósofo inglês Stuart Mill , em sua obra “A
sujeição das mulheres” (obra que escrevera com sua esposa Harriet Taylor)
defendeu, ainda na era vitoriana, que mulheres deveriam ter plenos direitos
sobre a propriedade, sobre o voto e sobre exercerem carreira política ou
qualquer outra que lhes interessasse. Mill ainda dizia que sua esposa era uma
das mentes mais aguçadas que ele já conhecera. O que todos esses homens têm em
comum? A resposta é simples: o apreço pelo intelecto da mulher. Apreço suficiente
para defenderem que, em vez de usarem o corpo para se sobressaírem na vida,
elas usassem o cérebro, o intelecto. Exatamente como fazem, a princípio, os
homens.
Antes
de encerrar, cabem algumas considerações bastante importantes aqui. A primeira
delas é que abundam homens de esquerda que gostam de silenciar mulheres. O
silenciamento pode ser tanto direto quanto indireto. No indireto, eles se
recusam veementemente a ouvir o que elas têm a dizer, sobretudo quando o que
elas dizem se referir a algum proveito deles sobre mulheres. Não ouvem e ainda
tentam dar a entender que as falas são infundadas ou que feministas reclamam
muito. Em alguns casos, podem até acusarem a feminista de machismo, enquanto eles
continuam tirando proveito das situações que o patriarcado lhes oferece.
Desde
2016 atuo como coordenadora do Programa de Iniciação Científica da OBMEP em uma
das regiões do Rio de Janeiro. Este programa tem como um de seus objetivos, despertar
o interesse das meninas pela matemática e pelas áreas de tecnologia. Sou uma
mulher que atua na área de extas, embora eu goste consideravelmente de Literatura
e Filosofia. Nas áreas de STEM (Ciências, Tecnologia e Matemática), nós temos
que lutar dobrado até hoje. Muito espaço ainda há para ser conquistado. E para
nós, mulheres que lutam pelo crescimento intelectual de outras mulheres, ver qualquer
mulher se objetificar é algo muito triste, independente de quem seja, de
gostarmos ou não dela ou de quaisquer divergências possíveis. Nosso desejo é o
de que estas mulheres não se sujeitem mais a homem algum para se sustentarem.
Que, em vez de fãs, busquem ter amigos, assim como Emmy Nöether teve em Hilbert.
Porque existem homens que são sim amigos das mulheres. E estes são exatamente
aqueles que nunca gostarão de vê-las se venderem.
Para finalizar, sempre deixei muito claro o que aprendi lendo “As reivindicações dos direitos das mulheres”, de Mary Wollstonecraft. Nós, mulheres, devemos recusar a ideia, tão defendida por Jean-Jacques Rousseau em seu livro “Emílio”, de que a educação que nos cabe é a de aprendermos a ser bem cortejadas. Rousseau desprezava tanto o nosso intelecto e, ao mesmo tempo o temia tanto, que insistia que as mulheres deveriam ser educadas em casa e, mesmo assim, apenas para a vida doméstica. Para ele, a maioria das mulheres era frívola e, para serem felizes, bastar-lhes-ia receber elogios sobre sua beleza, além de muitos presentes que garantissem a sua subsistência. Espero ter deixado claro até aqui que não existe liberdade da mulher enquanto ela não valorizar o seu próprio intelecto. Por fim, é preciso ter muito cuidado com a apropriação indevida do termo “liberdade sexual da mulher” pela sociedade patriarcal. Em particular, essa liberdade não está dissociada do seu intelecto. Deste modo, uma mulher intelectual pode ser plenamente livre, uma vez que a inteligência não lhe retira, de modo algum, a sensualidade. Associar liberdade à objetificação é um equívoco que só favorece os homens, jamais as mulheres. Recentemente, li que os livros mais vendidos na Amazon num determinado mês do ano passado foram aqueles no estilo “50 tons de cinza”. Vários romances com a temática do homem rico e conservador que abusa psicologicamente de mulheres com joguinhos sexuais de poder. Quem comprava tais livros eram majoritariamente mulheres. Não é chocante isso? Assim, deixo para vocês um minuto de reflexão sobre que ideia de empoderamento a mídia, a TV e o cinema têm vendido para as mulheres.
domingo, 2 de julho de 2023
A autoapresentação e a existência
"Uma vez que as aparências sempre se apresentaram na forma do parecer, a fraude, presumida ou premeditada, da parte do ator, o erro e a ilusão se encontram inevitavelmente entre as potencialidades inerentes, da parte do espectador. A autoapresentação se distingue da autoexposição pela escolha ativa e consciente da imagem exibida; a autoexposição não tem outra escolha senão exibir quaisquer características que um ser vivo tenha. A autoapresentação não seria possível sem certo grau de autoconsciência - uma capacidade inerente ao caráter reflexivo das atividades espirituais e que transcende visivelmente a simples consciência que provavelmente compartilhamos com os animais superiores. Propriamente falando, somente a autoapresentação está aberta à hipocrisia e ao fingimento, e a única forma de diferenciar fingimento e simulação da realidade e verdade é a incapacidade que os primeiros desses elementos têm para perdurar guardando consistência. Já foi dito que a hipocrisia é o elogio que o vício faz à virtude, mas isso não é bem verdade. Toda virtude começa com um elogio feito a ela, pelo qual expresso minha satisfação com relação a ela. O elogio implica uma promessa feita ao mundo, feita àqueles aos quais agradeço, uma promessa de agir de acordo com minha satisfação; a quebra dessa promessa implícita é que caracteriza o hipócrita. Em outras palavras, o hipócrita não é um vilão que se satisfaz com o vício e esconde, daqueles que o rodeiam, a satisfação. O teste que se aplica ao hipócrita é, de fato, a velha máxima socrática: "Seja como quer aparecer" - o que significa apareça sempre como quer aparecer para os outros, mesmo quando você estiver sozinho e aparecer apenas para si mesmo. Quando tomo uma decisão desse tipo, não apenas reajo a quaisquer qualidades que me possam ter sido dadas; realizo um ato de escolha deliberada entre as várias potencialidades de conduta com as quais o mundo se apresentou a mim. De tais fatos surge finalmente o que chamamos de caráter ou personalidade, o conglomerado de um número de qualidades identificáveis, reunidas em um identificável todo compreensível e confiável,e que estão, por assim dizer, impressas em um substrato imutável de talentos e defeitos peculiares à nossa estrutura psíquica e corporal. Por causa da relevância inegável dessas características escolhidas para nossa aparência e para nosso papel no mundo, a filosofia moderna, a começar por Hegel, sucumbiu à estranha ilusão de que o homem, ao contrário das outras coisas, criou-se a si mesmo. Obviamente a autoapresentação e o simples estar-aí da existência não são o mesmo."
Já ao fim do trecho, Arendt afirma que a filosofia moderna chegou a confundir a autoapresentação com a existência, ao conferir à primeira o significado da segunda. Este é um ponto interessantíssimo do texto porque a autoapresentação encarada como autocriação seria uma exclusividade da mente hipócrita e, ainda assim, uma criação falsa de si mesmo. Ora, dado que se trata de uma falsa criação, não estaria o homem criando a si próprio e, sim, aniquilando-se. Seria o mesmo que negar a sua existência. Não há criação. Há aniquilação do que é, de como existe em dado momento de sua vida. Se a existência que dá é a uma autoapresentação, garante a existência de outro e não a de si. Portanto, se a filosofia confundir existência com autoapresentação, poderíamos concluir que até ela acreditaria que as qualidades do hipócrita lhe fossem mesmo inerentes e não meros frutos de seu delírio. Mais trabalhoso ainda: estar-se-ia afirmando que somos o que queremos imaginar que somos! Imagine-se Napoleão e será Napoleão. Nero poderia ter imaginado que era Augusto. Teriam sido diferentes os rumos da história se ele assim se imaginasse? Vou pintar meus cabelos de loiro, usar lentes de contato azuis e me regozijar por pessoas acharem que sou sueca. Isso transformará a minha vida em outra, tal qual a de Adriane Galisteu que, segundo as palavras dela, deu uma volta de 360 graus em sua vida...
Gosto do princípio "Na natureza nada se perde e nada se cria, tudo se transforma" (Lavoisier). Habitamos a natureza e também nos transformamos. Mas não nos transformamos porque imaginamos. Transformamo-nos porque nos identificamos com algo até então novo em nós. Somos o que nos transformamos. Por isso o verbo ser se conjuga também no passado e no futuro. Se ser fosse algo imutável, só seria conjugado no presente. Há uma interpretação equivocada a respeito do significado do verbo ser. Ser é transformar-se.
Crer que os olhos dos outros garantirão quem você seja, isto é, que você seja a sua autoapresentação, é simplesmente ser cego. Afinal, quem mais precisa se guiar pelos olhos dos outros? Quem mais precisa dos olhos dos outros para a descrição exata das coisas?
Apegar-se às máscaras é perigoso, sob o aspecto psiquiátrico. Um mitômano apega-se a todas as suas máscaras e nega constantemente a sua própria identidade. Quer acreditar naquilo que não é. Quando eu era criança via meninos se vestindo de super-heróis, com máscaras, espadas, escudos e belas fantasias. Cada um, enquanto brincavam, sentia-se um "Homem-Aranha", um "Super Homem" ou um "Batman". Fantasiar faz parte do mundo infantil. No entanto, as próprias crianças têm ciência de que estão brincando. Ver adultos conferirem realidade às suas fantasias já merece preocupação médica. Dos adultos esperamos um comportamento mais amadurecido, imaginamos que a certa altura da vida já saibam quem são e que não se divirtam em brincar de esconde-esconde com as pessoas. Em particular, de esconde-esconde com elas próprias. Que não façam de conta que são aquilo que nunca dão conta de ser (em algum momento, a fragilidade dos mentirosos os coloca em prova e os desmascara). E que compreendam, de uma vez por todas (porque chega uma hora em que é preciso aprender!), que a mais indefesa das pessoas é a que se ilude consigo mesma. Na verdade, ilude apenas a si mesma, pois as outras pessoas a enxergam e ela é que nunca se conscientiza disso.
Erram aqueles que chamam de sonhadores os que apreciam e exigem nudez. Estes são os realistas. Sonhadores são os que, movidos por algum medo, optam por inventar personagens para as pessoas em vez de enxergá-las. Os que estão sempre em fuga por temerem encarar a vida. Por mais que a vida os encare diariamente.
A autoapresentação coincide com a existência se o indivíduo, consciente de quem seja, decide expor-se sem máscaras. Neste caso, seria o mesmo que autoexposição. Se a dúvida é o preço da pureza (Sartre), ser mau corresponde a ser consciente de que a autoapresentação não o representa. E se, ainda assim, insiste em se esconder é porque detesta ser quem é. Para estes tipos, portanto, talvez a hipocrisia seja tomada como uma questão de sobrevivência: é preciso crer na mentira contada para enganar a consciência. O orgulho dominando o caráter humano. Parece certo Hesse: o caminho mais duro é o que nos conduz a nós mesmos. Longe do orgulho e de toda vaidade.