É claro que a fome existe no natal. É claro que sempre existiu. Mas, também deveria ser claro que a culpa não é do natal, não é da data comemorada com ceia farta. Existem pessoas tão amargas, que odeiam o natal porque muitos não têm natal. E há também os que o detestam por não terem famílias, o que, ao menos, é um argumento.
Conheço pessoas que passam o natal com amigos porque não têm família biológica, mas têm outras famílias. Conheço também gente que em vez de usar as redes para falar sobre a miséria, escolhe gastar seu tempo fazendo comida para entregar a moradores de rua na data natalina. Estas sabem que a fome existe e que em vez de moralizar os outros e exalar mau humor - coisas infrutíferas - apenas se pode ajudar concretamente um faminto com um prato de comida. Não são daqueles que escolhem o natal para falar sobre a hipocrisia, sem refletirem sobre a hipocrisia dos que falam muito e se empenham pouco para ajudar concretamente os demais.
O amor só é vivido na prática diária. Não está apenas nas palavras. Está nas nossas ações. Muita gente está doando alimentos sem fazer questão de tirar foto para mostrar o quanto é bondosa. Outros não doam nada e ficam espalhando fotos de miséria, no natal, para lembrar que "todo mundo é hipócrita", exceto eles que têm consciência de que a fome existe. Tá certo. Cadê a consciência para ajudar de verdade os que têm fome?
Dia desses um cara aposentado falou sobre a pobreza intelectual dos jovens. De fato, a coisa está feia. Mas, ele não é tão melhor que os incultos como ele pensa. Se isso o incomodasse de verdade, acho que ele daria um jeito para se oferecer como professor voluntário em algum pré-vestibular social, não é mesmo? Mas, ele não faz isso. Ele passa o dia todo falando das mazelas sociais. Meu Deus, será que ele é tão bondoso assim, que não consegue gastar um pouco do seu tempo participando de um projeto social? Está aposentado. O que, de fato, o incomoda? O que o faz sair do lugar? Que tipo de amor é esse que tudo que faz é cobrar dos outros ações que elas mesmas não fazem? Em que se empenham na sua vida prática?
Nosso amigo Lênin afirmava que a prática é o critério da verdade. A prática, isto é, o que você faz, aquilo que você pratica, mostra quem você é.
Assim, a bondade sem ações é oca. O amor sem ações é um delírio.
A propósito, não existe amor sem comprometimento e muito trabalho. O trabalho da escuta, da parceria, da gentileza, da lealdade, da cumplicidade. Amar dá trabalho! Porque, para amar, o outro precisa existir. Só falta alguém me dizer que ama se nunca lembrou, na prática (e não em palavras), que o outro existe. E lembrar não é pensar, é fazer. É deixar claro que você está tão acompanhado de quem você ama, que a pessoa já está, de alguma forma, presente em tudo o que você faz. Ela simplesmente se instalou em você. Então você a considera, você a trata bem, você a enxerga sem querer estar ausente de sua vida.
Não existe amor nas pessoas que praticam a ausência. Não existe. A prática é o exercício da verdade, é o seu critério. Portanto, não são as palavras e nem as boas intenções a prática do amor. E é assim que o silêncio diz mais que as palavras. Silenciar em uma relação simboliza mágoa ou simplesmente indiferença ao outro. Isso, tanto em nossas relações pessoais quanto coletivas. Podemos falar e escrever muito. Enquanto não agirmos, seremos tão ausentes quanto os que comemoram natais sem lembrarem que a fome existe. Ambas as atitudes levam ao mesmo resultado. Mas, uns se acham mais bondosos que os outros para lhes cobrarem um amor que nem eles mesmos sabem dar. Que conclusão podemos tirar? Que o que as diferencia não é a bondade. Tampouco é a hipocrisia ou o cinismo. O que as diferencia é apenas o espírito de festa, é o grau que ocupam na tão larga escala da rabugice.
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