Uma das características mais marcantes de qualquer matemático é saber identificar falhas em uma argumentação. Isso se deve à sua formação, que lida com raciocínio formal lógico-dedutivo o tempo todo. Deste modo, somos muito atentos ao "se, então", ou seja, a analisar se, de fato, uma coisa realmente implica na outra.
Ora, isso mostra que tais pessoas não estão preocupadas com o estudo da coisa em si, mas apenas em serem olavos de carvalho da vida, desejosas de brilho filosófico sem argumentos que justifiquem tal brilho. O que na matemática ou mesmo entre cientistas é corriqueiro e plenamente aceito - muitas vezes até com gratidão -, não o é entre a maioria das pessoas.
A Ciência e a Filosofia estão acima dos egos pessoais. Ontem eu dei um comentário absolutamente pertinente, que foi atacado por um cara sem que houvesse falha alguma no que foi expresso por mim. Ao perceber que ele não compreendia o que eu dizia, mostrei-lhe um contraexemplo para perceber onde estava a sua falha de raciocínio. Minha intenção? Nenhuma. Isso faz parte do ato de pensar, da argumentação. É algo tão natural como respirar.
Não houve grosseria alguma da minha parte. Apenas expressei meu pensamento em uma postagem pública que afirmava universalmente uma coisa sem contextualizá-la histórica e, sobretudo, socialmente. Apresentei um contraexemplo e fui excluída porque sou uma mulher "que ousa pensar" e sempre se expressar entre pessoas que, ao fim, acabo percebendo que agem com estupidez. E com estupidez não por falhas de argumentação (afinal, quem nunca falha nisso?), mas por serem incapazes de compreender o significado de duas locuções: liberdade de expressão e busca pela verdade.
Não é à toa que nunca fui atacada por filósofos. Afinal, a dialética nasce na Filosofia. E seu uso, assim como o próprio espírito filosófico, é aplicável em todas as ações humanas, uma vez que em todas elas devemos pensar no que fazemos e no porquê de estarmos fazendo isso e não aquilo. A razão deve preceder as ações ou seremos alienados. Uma pessoa alienada é aquela que despreza as hipóteses, as causas, e acredita que compreende bem a tese, ou seja, os efeitos.
Ninguém é arrogante por fazer questão de pensar sempre. Arrogantes são aqueles que afirmam coisas falsas, que se baseiam em raciocínios falhos, e, ainda assim, querem que todos as aceitem como verdadeiras. Esse comportamento fere o espírito matemático, que se fundamenta, essencialmente, no trabalho lógico-dedutivo. Independente da área em que se trabalha, um contraexemplo é um contraexemplo. A matemática não especula. Não é à toa que a maioria de nós se irrita com a economia baseada em especulação e com qualquer afirmação imposta a todos mesmo sendo mal fundamentada, mal estruturada, sem se sustentar de modo algum. Como sugere a Marguerite, no filme que vi quinta-feira, basta mudar o enunciado! Basta aplicar o exercício da razão, exercício esse que é indissociável da humildade.
Ser humilde não é ser calado. Ser humilde é apreciar mais o pensamento que os aplausos. O ato de pensar é sempre um ato de humildade. Em particular, deve aceitar questionamento, pois é dialético. Quem pensa não apaga comentários nem exclui pessoas que "ousam" questionar seus argumentos. Menos ainda, ofende-se com contraexemplos. Quem pensa entende que não importa quem seja o interlocutor! Pode ser feio, bonito, temperamental ou sereno. O que importa unicamente é o texto, é o que está sendo dito. Nada é pessoal para aqueles que se atêm unicamente ao texto, ao que está sendo dito , e não às características de quem diz.
A própria crítica literária, só pra mostrar que também se impregna de argumentação e não de gosto pessoal, estuda o poema e não os atributos do poeta para construir os sentidos do texto. O distanciamento do poeta é o distanciamento do interlocutor. É olhar para o objeto de estudo: o texto. É o estudo primoroso da estética. Há tanta beleza na crítica literária! E há justamente porque se atem exclusivamente ao texto. É sempre no texto que estão os sentidos e os valores da criação. Nunca é no poeta.
Igualmente, é no argumento que está o pensamento.
Quando as pessoas aprenderão a se ater exclusivamente ao texto? Quando aprenderão que seus sentidos são construídos, entre tantas outras coisas, pela coerência apresentada?
Igualmente, é no argumento que está o pensamento.
Quando as pessoas aprenderão a se ater exclusivamente ao texto? Quando aprenderão que seus sentidos são construídos, entre tantas outras coisas, pela coerência apresentada?
Não tenho culpa de amar os números e as palavras. Não tenho culpa em ser uma apaixonada pelas linguagens e em aplicar essa paixão no bom uso delas. Aceitem isso ou simplesmente me excluam mesmo. Porque eu sou muito consciente de que contraexemplos não ferem ninguém. E sou também muito consciente de que não mereço grosserias só por gostar dos porquês. A propósito, sou uma pessoa extremamente delicada. Mas, só quem sabe ler consegue perceber que sou.
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