Na última semana, um filme sobre a Barbie estreou nos cinemas mundiais. Tendo contado com um excelente trabalho de marketing, o assunto “Barbie” tem viralizado nas redes sociais. Muitas pessoas, mais entusiasmadas, fãs ou não da boneca, mostram-se alegres em fotos com fundos cor-de-rosa, enquanto outras, com ares de ranço ou desprezo, optam por tirar sarro de toda essa empolgação. Já eu, que sou uma pessoa sempre empolgada com aquilo que “faz a minha cabeça”, não me irrito nenhum pouco com as paixões alheias cor-de-rosa. As paixões que me irritam costumam ser em verde e amarelo e fazem arminhas com as mãos. As cor-de-rosa... as cor-de-rosa não me incomodam não. Sei que sempre preferirei as pessoas apaixonadas às pessoas indiferentes - pelo menos as primeiras eu sinto que ainda estão vivas.
De minha parte, que ainda não assisti ao filme, nada posso dizer a seu respeito, a não ser o que rapidamente li em alguma postagem alheia: trata-se de um filme feminista. Alguma Barbie havia sido expulsa da “Barbielândia” por não ser uma mulher perfeita e, na busca por onde morar, acabou tendo de conviver com humanos. Bom, foi o que li da tal postagem e, portanto, não me responsabilizo pela veracidade dos fatos ali descritos. Eu realmente precisaria ver o filme. Entretanto, uma coisa eu já posso observar mesmo sem tê-lo visto me baseando somente no que li: um filme cuja protagonista imperfeita é representado pela belíssima (e execelente) atriz Margot Robbie só pode mesmo estar de sacanagem com o telespectador. Quem ousaria dizer que essa beldade é imperfeita? Em sã consciência, ninguém. Pois é. E aí o filme apresenta uma coerência marcante: as exigências que pesam sobre as mulheres na sociedade real também são descabidas. Em particular, as que envolvem seus corpos e as suas idades. Mulheres são expulsas quando não são perfeitas. As “mais velhas” são criticadas quando estudam com as mais novas em certas universidades. As mais velhas escutam “Nossa! Como você está bem! O que você faz para estar assim?” (como se as quarentonas, cinquentonas, sessentonas etc perdessem a capacidade criativa, a capacidade de transarem, a capacidade de amarem e de viverem plenamente como bem entenderem). As que estão um pouco acima do peso sofrem deboches que os homens mesmo não sofrem. Aliás, homens costumam ser tão ridículos, que chega ao ponto de diversos homens claramente gordos exigirem que suas esposas emagreçam com a desculpa de se preocuparem é com a saúde. Ora, se fosse preocupação com a saúde, eles fariam regime e parariam de beber. Em suma: há sempre dois pesos e duas medidas e dependendo do seu sexo, você pode ter que sair da Barbielância também. Afinal, a vida não é tão cor-de-rosa assim para as mulheres.
A minha geração, nascida na década de 1980, talvez tenha sido a última em que meninas de dez anos ainda se entusiasmavam com a Barbie. Hoje, nessa idade, as meninas não costumam mais brincar de bonecas. A Barbie de hoje tem um teto menor, ou seja, o etarismo também já atingiu a boneca Barbie! Eu não fui uma menina que teve bonecas como brincadeira favorita. Eu preferia montar quebra-cabeças, jogar baralho, jogar vôlei, pular elástico, jogar queimada, andar de bicicleta e de carrinhos de rolimã, além de jogar futebol de botão, que faz parte - assim como o jogo de peteca – da cultura belorizontina. Entretanto, como qualquer menina, eu também tive bonecas. Em particular, uma, e somente uma, Barbie. A minha, aliás, eu ganhei aos nove anos. Antes dela, o máximo que ganhei foi uma “Academia da Barbie”, dada por meu padrinho, que cismou que a boneca vinha também dentro da caixa. Para a imensa decepção dele e também para a minha, aquele presente de natal não fora tão perfeito quanto era a Barbie.
Naquele
tempo, a qualidade da boneca era melhor, suas roupas eram melhores e até seus
sapatos eram prateados. E praticamente todas as meninas quiseram ter alguma,
mesmo as que brincavam com carrinhos de rolimã, quebra-cabeças e baralhos. A
Barbie representava a imagem da mulher adulta que, em nossas mentes e corações,
representava quem seríamos no futuro. Era uma mulher muito bem sucedida. Havia
a Barbie médica, a Barbie dona de restaurante, a Barbie arquiteta, a Barbie
professora, a Barbie veterinária etc. A Barbie tinha um carrão e uma vida
estável e confortável. E sabe o que mais lindo ela tinha, além disso tudo? Ela
não precisava do Ken para ter aquilo tudo. Ela não era casada! Não havia
aliança dourada alguma em seu dedo. Havia, sim, um anel de brilhantes. Mas,
comprado por ela. O Ken era seu namorado e jamais fora o personagem central da
história dela. Ele era absolutamente coadjuvante. Nenhuma menina fazia questão
de comprar o Ken. Poucas tinham o casal. Porém, muitas tinham várias Barbies!
Havia brincadeiras em que na casa de uma várias delas se encontravam para
jantar: a veterinária, a médica, a professora. Ken? Quem era Ken? O Ken não nos
interessava. Vocês, críticos tão severos da boneca, por acaso acham que isso é
pouco? Vocês realmente acham?
Por essas e por outras, é que o entusiasmo das meninas e das mulheres com a Barbie ainda é considerável. E hoje, somado ao fato de já termos no mercado Barbies baixinhas, Barbies gordinhas, Barbies negras, Barbies cadeirantes, Barbies com vitiligo etc. As Barbies acompanhando as exigências de movimentos sociais para ainda habitarem os sonhos das meninas. E, isso, meus caros, também é uma conquista política, apesar de ainda não termos Barbies que sejam faxineiras ou caixa de supermercado. Quem sabe um dia elas também surjam nas prateleiras? Quem sabe a realidade um dia mude no mundo dos sonhos?
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