sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Sobre razão, afeto e liberdade

A liberdade serve à razão, não à emoção. O filósofo Kant dizia que só conseguimos ser livres se formos capazes de dizer não àquilo que desejamos. Em outras palavras, se formos capazes de perceber que nem tudo o que queremos comunga com os valores que cultivamos. Então o que devemos escolher? Ser livre seria, nesse caso, escolher fazer o que quer? Para Kant, não. Para Kant, quem só sabe fazer o que quer é, na verdade, um escravo do desejo. Ser livre seria ser capaz de analisar a influência dos desejos em nossas ações e ser capaz de não se ajoelhar diante deles. Cabe observar que não fazer o que quer e fazer o que não quer não são, necessariamente, a mesma coisa. Fazer o que não quer também pode levar a situações de escravidão. Então, onde está o espírito da liberdade? Está em ter possibilidade de escolher e em fazer um uso consciente desse poder de escolha. Livre é quem se põe em condições de fazer uso da razão. É nítida a influência de Kant sobre Hannah Arendt, que cunhou o termo "banalização do mal" para se referir à prática do mal sem questionamento. Notem também que esse termo exemplifica com exatidão o que falei antes: fazer o que quer também não significa ser livre. É preciso fazer uso da escolha consciente. A questão de Arendt é mostrar que só podemos fazer o mal quando não fazemos uso da razão. Dito de outro modo, só quem pensa é capaz de dizer não. Em particular, quem tortura alguém obedecendo a ordens só o faz porque não questiona este ato. É a banalização do mal. Assim, por mais contraditório que possa parecer, vamos concluir que para sermos éticos, bons e amorosos devemos sempre saber usar a razão. Sempre. Muitas vezes as pessoas confundem razão com ausência de sentimentos. Pelo contrário. A razão é unicamente pensar. Pensar e sentir não são a mesma coisa! Pode-se ser muito racional e muito emotivo ao mesmo tempo (quem é libriano sabe disso muito bem, inclusive).

A grande questão é que não existe amor sem razão. Inclusive, quando se renuncia a algo por um bem coletivo vemos alguém atuar por amor, não é? O amor não olha apenas para si. Daí a capacidade de escolher o que é melhor para todos, mesmo não sendo o melhor para você mesmo. Daí a capacidade de ir embora quando a sua ausência torna as pessoas mais felizes. Tudo isso é ato de amor. Percebem? Não existe amor longe da razão. Porque amar necessita da existência do objeto do amor. Logo, pressupõe outra existência e você terá de levar essa outra existência em consideração. Terá de pensar sobre isso. Uma vez escrevi um "textão" aqui falando sobre isto: não existe razão sem sensibilidade. A razão só existe em quem tem sensibilidade. A ausência de sentimentos é amargura e pessoas amargas costumam agir em obediência cega a rancores. Logo, são escravos de certos fantasmas que precisam de cura. Resumindo: quem não se mostra capaz de pensar, não se mostra capaz de amar.

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