Pois bem. Vamos falar sobre o emocional e sobre o grande erro que muitas pessoas cometem quando avaliam ou julgam alguém sem considerar os contextos pessoais de cada um. Começo esse texto criticando o enaltecimento que a sociedade demonstra para o individualismo e a frieza como valores associados à racionalidade. Porém, todos que confundem indiferença e individualismo com racionalidade sempre utilizam como argumento os seus ressentimentos ao longo da vida. Não passam de pessoas amargas e ressentidas que, não raras vezes, são fechadas para os outros. O culto à frieza. Devemos observar que uma coisa é ter controle emocional, outra é ser indiferente. Aliás, até para não ser indiferente é preciso se controlar. De fato, podemos estar com raiva de alguém, mas, nem por isso voarmos no pescoço dela! Nem por isso deixarmos de estender-lhe as mãos. Logo, há mais controle emocional em quem não pensa apenas em si mesmo. Este é o primeiro ponto que coloco para que as pessoas percebam que é preciso ser sensível para ser racional. Porque a razão exige de nós uma capacidade alta de análise. Mas, é impossível analisarmos as coisas bem se não soubermos nos colocar no lugar dos outros.
O segundo ponto que coloco tem a ver com a presunção com que muitos avaliam pessoas sem prestarem atenção no quão sensível elas possam estar. Ontem tive um professor convidado para palestrar em minha aula e ele apresentou os excelentes resultados de muitos de seus alunos. Mas, não eram quaisquer alunos. Eram alunos muito desacreditados pela sociedade. Ele disse que o primeiro passo é motivá-los e que isso só é possível elevando a autoestima deles. O professor foi enfático ao dizer o quanto o emocional influencia nos resultados e nas desistências, nos abandonos aos sonhos. Os alunos perdem a confiança em si mesmos. Não se pode ignorar a influência do estado emocional nas avaliações. Em particular, porque avaliações podem punir! E assim são as pessoas que adotam como lema o individualismo ou a análise fria sobre alguém. Vivemos em uma sociedade que jorra trocentas milhões de informações em nossas mentes. Boa parte delas desgastantes. Todos temos demandas que nos esgotam. Todos precisamos desabafar ou chorar. Não existem super-heróis. Muitos de nós temos ansiedade. Eu sou uma delas, por exemplo. Eu não consigo ficar sem fazer nada sem que a ansiedade tome conta. Eu sempre preciso me ocupar com algo. Isso não significa que eu não descanse. Mas, eu nunca vou conseguir ficar várias horas sem fazer nada. Vai me entediar e dar ansiedade. A ansiedade pode virar enxaqueca. Ela pode virar manchas roxas no braço etc. Mas, eu não tenho a menor dúvida de que qualquer pessoa que gosta mesmo de mim vai preferir me dar um abraço e perguntar "tudo bem?" do que me tratar com indiferença. Da mesma forma, eu sei que meus inúmeros alunos que fazem provas ruins ou que tentam desistir dos cursos, muitas vezes mudam de ideia após uma longa conversa comigo. Com direito a um abraço meu, inclusive. Tenho vários exemplos deles. Houve uma que terminou o mestrado recentemente e que me disse que a conversa que eu tive com ela foi primordial para ela não ter desistido da matemática no segundo período. Eu a animei. E muita gente não acreditava nela. Eu sempre me pergunto que arrogância é essa que pode fazer com que você duvide de alguém porque a pessoa está ansiosa ou triste ou simplesmente por ela ser muito diferente de você, como é o caso das pessoas com necessidades educacionais especiais e tantas outras fora do padrão. Eu fico muito triste (decepcionada é a palavra mais precisa) com pessoas que não são capazes de sequer olhar as outras com mais inteligência. Notem que nem falei em olhar alguém com mais carinho. Porque pra mim, olhar é coisa de gente inteligente. Vai muito além de carinho. Tem a ver com uma capacidade de análise, de perceber que algo não vai bem com alguém. Obviamente, conversar é mais racional do que punir as pessoas com silêncio e tratamentos hostis fazendo com que se sintam inadequadas ou um peso para outras, predispostas a desistirem de um tanto de coisa. Diálogos são sempre mais racionais porque é o único meio de se resolver um problema para todos os envolvidos. Vivemos em uma sociedade que não perdoa a sensibilidade, que vê a sensibilidade com maus olhos e que venera o imediatismo e a falta de análise dos fatos. É uma sociedade burra e consumista que transforma todo ser humano em um objeto. E esses objetos humanos já não têm sentimentos ou não buscam ter. Buscam o lucro, o sucesso, o prazer desenfreado sem virtudes (a questão aqui é o desprezo às virtudes). Mas, de que virtudes falo? Falo da honestidade, do senso de justiça, da humildade de não espezinhar os outros, de não rir de alguém, de não se achar melhor que, de não se achar infalível. Falo de uma sociedade que separa as pessoas em vencedores e vencidos, mas que joga um jogo que nem ela sabe que é uma das peças dele.
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