domingo, 2 de julho de 2023

A autoapresentação e a existência

"Uma vez que as aparências sempre se apresentaram na forma do parecer, a fraude, presumida ou premeditada, da parte do ator, o erro e a ilusão se encontram inevitavelmente entre as potencialidades inerentes, da parte do espectador. A autoapresentação se distingue da autoexposição pela escolha ativa e consciente da imagem exibida; a autoexposição não tem outra escolha senão exibir quaisquer características que um ser vivo tenha. A autoapresentação não seria possível sem certo grau de autoconsciência - uma capacidade inerente ao caráter reflexivo das atividades espirituais e que transcende visivelmente a simples consciência que provavelmente compartilhamos com os animais superiores. Propriamente falando, somente a autoapresentação está aberta à hipocrisia e ao fingimento, e a única forma de diferenciar fingimento e simulação da realidade e verdade é a incapacidade que os primeiros desses elementos têm para perdurar guardando consistência. Já foi dito que a hipocrisia é o elogio que o vício faz à virtude, mas isso não é bem verdade. Toda virtude começa com um elogio feito a ela, pelo qual expresso minha satisfação com relação a ela. O elogio implica uma promessa feita ao mundo, feita àqueles aos quais agradeço, uma promessa de agir de acordo com minha satisfação; a quebra dessa promessa implícita é que caracteriza o hipócrita. Em outras palavras, o hipócrita não é um vilão que se satisfaz com o vício e esconde, daqueles que o rodeiam, a satisfação. O teste que se aplica ao hipócrita é, de fato, a velha máxima socrática: "Seja como quer aparecer" - o que significa apareça sempre como quer aparecer para os outros, mesmo quando você estiver sozinho e aparecer apenas para si mesmo. Quando tomo uma decisão desse tipo, não apenas reajo a quaisquer qualidades que me possam ter sido dadas; realizo um ato de escolha deliberada entre as várias potencialidades de conduta com as quais o mundo se apresentou a mim. De tais fatos surge finalmente o que chamamos de caráter ou personalidade, o conglomerado de um número de qualidades identificáveis, reunidas em um identificável todo compreensível e confiável,e que estão, por assim dizer, impressas em um substrato imutável de talentos e defeitos peculiares à nossa estrutura psíquica e corporal. Por causa da relevância inegável dessas características escolhidas para nossa aparência e para nosso papel no mundo, a filosofia moderna, a começar por Hegel, sucumbiu à estranha ilusão de que o homem, ao contrário das outras coisas, criou-se a si mesmo. Obviamente a autoapresentação e o simples estar-aí da existência não são o mesmo."


(Hannah Arendt em "A vida do espírito")

Esse trecho, selecionado das páginas 53 e 54 da referida obra (em sua 5ª edição, publicada pela Ed. Civilização Brasileira), leva-nos a refletir sobre hipocrisia e vaidade. Segundo as palavras de Arendt, o hipócrita acredita piamente em sua autoapresentação, a ponto de, mesmo estando sozinho, fazer questão de autoapresentar-se como quer parecer aos outros e não, de fato, como vive ou deveria perceber-se em sua existência. O hipócrita crê na mentira que conta sobre si. O "eu sou", por mais evidente que deveria ser para si que não é, é tido como realidade para o hipócrita. Sob esse ponto de vista, poderíamos pensar no hipócrita como um narcisista delirante. As razões que o levariam a tal comportamento ultrapassariam as linhas deste texto e seriam de interesse da psicanálise. Por ora, o objetivo é unicamente tornar mais claro o entendimento do termo hipócrita. 

Já ao fim do trecho, Arendt afirma que a filosofia moderna chegou a confundir a autoapresentação com a existência, ao conferir à primeira o significado da segunda. Este é um ponto interessantíssimo do texto porque a autoapresentação encarada como autocriação seria uma exclusividade da mente hipócrita e, ainda assim, uma criação falsa de si mesmo. Ora, dado que se trata de uma falsa criação, não estaria o homem criando a si próprio e, sim, aniquilando-se. Seria o mesmo que negar a sua existência. Não há criação. Há aniquilação do que é, de como existe em dado momento de sua vida. Se a existência que dá é a uma autoapresentação, garante a existência de outro e não a de si. Portanto, se a filosofia confundir existência com autoapresentação, poderíamos concluir que até ela acreditaria que as qualidades do hipócrita lhe fossem mesmo inerentes e não meros frutos de seu delírio. Mais trabalhoso ainda: estar-se-ia afirmando que somos o que queremos imaginar que somos! Imagine-se Napoleão e será Napoleão. Nero poderia ter imaginado que era Augusto. Teriam sido diferentes os rumos da história se ele assim se imaginasse? Vou pintar meus cabelos de loiro, usar lentes de contato azuis e me regozijar por pessoas acharem que sou sueca. Isso transformará a minha vida em outra, tal qual a de Adriane Galisteu que, segundo as palavras dela, deu uma volta de 360 graus em sua vida...

Gosto do princípio "Na natureza nada se perde e nada se cria, tudo se transforma" (Lavoisier). Habitamos a natureza e também nos transformamos. Mas não nos transformamos porque imaginamos. Transformamo-nos porque nos identificamos com algo até então novo em nós. Somos o que nos transformamos. Por isso o verbo ser se conjuga também no passado e no futuro.  Se ser fosse algo imutável, só seria conjugado no presente.  Há uma interpretação equivocada a respeito do significado do verbo ser. Ser é transformar-se. 

Crer que os olhos dos outros garantirão quem você seja, isto é, que você seja a sua autoapresentação, é simplesmente ser cego. Afinal, quem mais precisa se guiar pelos olhos dos outros? Quem mais precisa dos olhos dos outros para a descrição exata das coisas?

Apegar-se às máscaras é perigoso, sob o aspecto psiquiátrico. Um mitômano apega-se a todas as suas máscaras e nega constantemente a sua própria identidade. Quer acreditar naquilo que não é. Quando eu era criança via meninos se vestindo de super-heróis, com máscaras, espadas, escudos e belas fantasias. Cada um, enquanto brincavam, sentia-se um "Homem-Aranha", um "Super Homem" ou um "Batman". Fantasiar faz parte do mundo infantil. No entanto, as próprias crianças têm ciência de que estão brincando. Ver adultos conferirem realidade às suas fantasias já merece preocupação médica. Dos adultos esperamos um comportamento mais amadurecido, imaginamos que a certa altura da vida já saibam quem são e que não se divirtam em brincar de esconde-esconde com as pessoas. Em particular, de esconde-esconde com elas próprias. Que não façam de conta que são aquilo que nunca dão conta de ser (em algum momento, a fragilidade dos mentirosos os coloca em prova e os desmascara). E que compreendam, de uma vez por todas (porque chega uma hora em que é preciso aprender!), que a mais indefesa das pessoas é a que se ilude consigo mesma. Na verdade, ilude apenas a si mesma, pois as outras pessoas a enxergam e ela é que nunca se conscientiza disso.

Erram aqueles que chamam de sonhadores os que apreciam e exigem nudez. Estes são os realistas. Sonhadores são os que, movidos por algum medo, optam por inventar personagens para as pessoas em vez de enxergá-las. Os que estão sempre em fuga por temerem encarar a vida. Por mais que a vida os encare diariamente.

A autoapresentação coincide com a existência se o indivíduo, consciente de quem seja, decide expor-se sem máscaras. Neste caso, seria o mesmo que autoexposição. Se a dúvida é o preço da pureza (Sartre), ser mau corresponde a ser consciente de que a autoapresentação não o representa. E se, ainda assim, insiste em se esconder é porque detesta ser quem é.  Para estes tipos, portanto, talvez a hipocrisia seja tomada como uma questão de sobrevivência: é preciso crer na mentira contada para  enganar a consciência. O orgulho dominando o caráter humano. Parece certo Hesse: o caminho mais duro é o que nos conduz a nós mesmos. Longe do orgulho e de toda vaidade.

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