Pode-se admirar a obra de um homem sem admirar o homem. E quando se trata de alguém deplorável cuja obra se admira, tudo que se espera de quem separa tal homem de sua obra é que, no momento de sua morte, faça-lhe apenas um minuto de silêncio. Isso, sim, revela separar um homem detestável de sua obra, quando se considera esta relevante.
Curiosamente, muitos enaltecem homens deploráveis, por algo intelectual que tenham deixado. E, como justificativa, dizem que o fazem por serem imparciais. Ora, imparciais seriam se não manifestassem a admiração, se não se incomodassem em ver um homem morto ser merecidamente julgado por sua moral empobrecida por atos de violação aos direitos humanos.
Quem separa o homem da obra sabe que as obras podem ser imortais, mas, os homens não. Aceita-se a morte do homem e, se deplorável, não se sofre nenhum pouco com tal morte. Sente-se até um alívio, como se alguma justiça tivesse finalmente sido feita, quando a vida leva embora pessoas responsáveis pelo fim da vida de outras. Por outro lado, a obra fica, permanece intocável e, portanto, os admiradores da obra não têm motivos reais para se inquietarem com a morte do autor. Assim, a morte de um homem só incomoda realmente quem não é capaz de separar um homem de sua produção intelectual ou artística e não o contrário. Só incomoda quem é parcial. Os imparciais não sentirão sua morte, uma vez que saberão que a obra e o autor não se misturam.
Opa! Mas, espere um pouco aí. Será mesmo que em todas as áreas, autor e obra não se misturam? Ou apenas na produção artística? Existe eu lírico em um texto acadêmico? Aí é que está! Na ciência, os textos são escritos com o conhecimento da causa e efeito. E são textos com intencionalidade. Escreve-se para defender um ponto de vista bem fundamentado teoricamente a partir de dados bem analisados. A intencionalidade textual faz com que autor e obra não se separem. Se um autor se separa de um texto acadêmico, é porque nem ele acredita no que escreve, escrevendo, portanto, apenas para vender seu peixe. Em tal caso, escapa-nos uma pergunta imediata: a troco do que escreve? Trabalha para quem? Quem o está pagando para escrever? Quem o está comprando? Aos interesses de quem atende?
A ciência nunca foi imparcial, uma vez que se insere na esfera política. Isso não significa que não seja confiável. Significa apenas que ela não pode se isentar das consequências que sabe muito bem que deixa.
Uma obra só consegue se separar do autor quando se trata de textos literarios. Isso porque esse tipo de texto foge a licenças de ordem moral. É o texto pelo texto. A estética é o seu foco e os diversos sentidos que produz. A palavra não deve ser amarrada. Pelo contrário, corre solta. Mas, corre solta por linhas bem traçadas pelos autores. Quanto mais o poeta desvencilhar o texto de si, melhor cumprirá a sua pena. A pena que escreve. Não a punição. Afinal, o poeta não é o poema. E é nisso que ele se salva. É nisso que ele escapa daquilo que escreve. Ninguém pode provar que ele quis dizer isso ou aquilo. A poesia multiplica sentidos e torna leitor coautor de qualquer obra. Apenas os textos literários têm essa capacidade. Os acadêmicos, não. Os acadêmicos colocam o autor no olho do furacão. Somente a literatura é capaz de criar sem deixar rastros de seus autores. Assim, a poesia inocenta o poeta. E, assim, só se pode ser realmente livre dentro do campo da criação artística.
Ninguém fala em criação acadêmica e, sim, em produção acadêmica. A gente fala é em criação artística. A produção acadêmica tem o propósito de prestar serviço à sociedade. A criação artística, não. Esta insere o homem em sua individualidade, que nunca deixa de ser também coletiva. Não há um só sentido, uma só interpretação (Quem assina, de fato, o poema?). No texto acadêmico, porém, só há uma interpretação. Somente os autores se responsabilizam pela interpretação daqueles que souberem ler. Assim, torna-se impossível separá-los de suas próprias obras. Nenhum cientista é inocente. A ética deve, portanto, ser seu princípio mais fundamental e sua ausência pode lhe ser tanto motivo justo de punição quanto motivo plausível de repugnância.
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