O que mais me impressiona é a quantidade de gente que vai a missas e que admira pessoas responsáveis pela implantação de governos tiranos. Governos que torturam pessoas, que deixam crianças órfãs. Pessoas moralmente deploráveis aplaudidas de pé por cristãos de meia tigela. Repito: de pé, por cristãos de meia tigela.
Esse troço de pagar de bonzinho, de pregador da paz, mas ao mesmo tempo enaltecer criminosos de guerra revela, pelo menos aos meus olhos, um contrasenso enorme. Há algo errado em um comportamento assim, pois é um comportamento muito hipócrita. A menos que ser hipócrita não seja mais um problema moral, a hipocrisia deve levar uma pessoa crítica a buscar entender porque está sendo contraditória. Pode fazer Psicanálise ou pode perguntar como as outras pessoas a enxergam, para tentar ver se a imagem linda que tem de si mesma coincide com o que os outros percebem. Ou será que acham que ninguém percebe?
Incomoda-me também a covardia que demonstram ao negarem os motivos que as levam a admirarem canalhas. Ninguém deve justificar porque admira um canalha. Afinal, todos temos direito de admirar canalhas. Mas, é muito feio fingir que não admira. É bonito quando assumimos nossa posição se admirarmos um canalha a ponto de nos preocuparmos tanto em enaltecê-lo, a ponto de nos preocuparmos tanto em homenageá-lo. Assumir a admiração já explícita em vez de covardemente, hipocritamente, negá-la. Todos já estão vendo. O rei está nu.
"A vaidade é o meu pecado favorito", disse Milton, personagem do Al Pacino em "O advogado do diabo". E a vaidade, sobretudo a acadêmica, a intelectual, faz com que muitos esqueçam os crimes de guerra de outro acadêmico para tentar valorizar um intelecto que nunca é colocado em prática nem mesmo pelo próprio "intelectual". Em outras palavras, nem o aplaudido por bajuladores acredita em si mesmo. Os bajuladores lhe engraxam os sapatos sujos de sangue, lustrando-os para que algo brilhe em uma criatura detestável.
Sempre haverá tempo para uma pessoa cristã entender que Cristo e Kissinger não falam a mesma língua. E sempre haverá tempo para quem se acha impecável perceber que também peca. Segundo o apóstolo Mateus, mais precisamente no capítulo 6, versículo 21 de seu Evangelho: onde está o seu tesouro, aí está também o seu coração. Deste modo, aquilo que você valoriza é exatamente aquilo que você ama. Não se pode valorizar, portanto, quem faz guerras e amar Cristo, pois Cristo jamais passaria pano para criminosos de guerra. Ou se valoriza um tirano ou se valoriza Cristo. Ambos são muito antagônicos para serem simultaneamente defendidos. Assim, façamos um brinde à vaidade! Ela quase sempre vence o homem e o joga abruptamente no chão. A vaidade, a formidável vaidade. O pecado favorito dos advogados do diabo.
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