Começo este texto já adiantando que ele não agradará homens muito machistas. Entendam o “muito” aqui como a afirmação de que todos os homens são machistas, mas que alguns passam de um limite razoável para que se possa conviver com eles sem se sentir constantemente desrespeitada. Ao longo da história, mulheres têm conquistado direitos importantes. Direitos que levaram séculos para serem adquiridos. Direito ao voto, direito ao divórcio sem a perda da guarda dos filhos, direito è educação formal (isto é, o direito a estudar em uma escola e não em ambiente doméstico) e, em alguns lugares, até mesmo o direito ao aborto. Em alguns países, se uma mulher é estuprada e engravida, ela não só é obrigada a ter a criança como também é obrigada a se casar com o estuprador. Na Ìndia, além disso, mulheres devem se esconder quando menstruam, dado que Deus nos fez naturalmente sujas e pecadoras, sempre associadas a incitar os homens à perdição. As mulheres os tentam e os santos homens caem em tentação. E são sempre perdoados, vítimas dos instintos, da testosterona e de quaisquer desculpas que lhes permitirem fazer o que quiserem e sempre culparem as mulheres.
A
objetificação das mulheres, porém, atingiu também a esfera do mundo
puramente virtual. Em particular, há homens que pagam caro para ver vídeos
sensuais de mulheres falando sacanagens enquanto eles se masturbam do outro
lado da tela. Segundo o documentário “Pornocracy”, essa é uma nova forma de
prostituição. Nela, homens do mundo inteiro escolhem o rosto que desejam e
pagam por um vídeo ao vivo com aquelas mulheres. Mulheres de diversas partes do
mundo. Sequer precisam tocá-la. A imagem é suficiente para que se masturbem e
gozem e o importante é que eles gozem e só. Há redes sociais em que mulheres
vendem fotos e vídeos. Por exemplo, o onlyfans. Em tais sites, vendem suas
imagens para homens cujo sonho é o de comprá-las. Elas não se importam e consideram
que são empoderadas sexualmente. Pergunto: que empoderamento é esse que
transforma um ser humano em produto? Estamos falando de um ser humano que
decidiu se vender. Não há liberdade alguma aí. O simples fato de uma pessoa
decidir o que fazer com o próprio corpo não significa que decidiu pela liberdade
dele. Um escravo que decide ser escravo não deixa de ser escravo por ter
escolhido “livremente” ser um. Quem dita as regras ainda é seu senhor. Com as
mulheres não é diferente. Infelizmente, há uma apropriação indevida do conceito
de liberdade sexual da mulher. A liberdade só pode ser liberdade enquanto não a
sujeitar à prostituição, à condição de um produto. Uma mulher que não se
prostitui é que pode ser livre. Uma mulher que se prostitui jamais será. Entristece-me
consideravelmente ver uma mulher se sujeitar à condição de um produto. Isso
independe de eu gostar ou não dela, de ela ser politicamente de esquerda ou de
direita. É um ser humano. Entristece-me também ver tantas vezes as minhas palavras serem desonestamente
consideradas “machistas” justamente por esquerdomachos que se aproveitam da
sujeição dessas moças. Eu sinto pena da subjugação delas e sinto um enorme nojo
deles. Utilizam um discurso desonesto e mentiroso, dando a entender que elas
são livres por escolherem fazer o que querem com seus corpos, quando o que
escolhem é se expor para eles. É claro que eles vão defender essa “liberdade”,
uma vez que eles se beneficiam com a exposição dessas mulheres. Mas, e elas? Em
que elas se beneficiam? Em quê? Em nada! Muito pelo contrário. Suas fotos são
distribuídas de um homem para outro, sempre acompanhadas de palavras que as
objetificam. E elas, tolas, não são capazes de perceber que isso não é
empoderamento algum. Até eu já recebi, por engano, foto de uma mulher. Um homem
de esquerda me enviou errado a foto de uma mulher que o amigo dele pegava.
Desculpou-se. Não há desculpas. Isso é sórdido. Imaginem: uma mulher envia uma
foto para um homem e ele distribui para os amigos para mostrar o quanto ele é fodão
e pegador. Um pegador, ou seja, um homem que consome mulheres deliberadamente.
É um discurso mentiroso fazer essas moças acreditarem que realmente não se
objetificam. Esses homens curtem ver fotos nuas de mulheres nas redes usando
esse discurso falso de empoderamento para se aproveitarem delas, da imagem
delas. Entretanto, não são capazes de defender a exposição de suas companheiras
nuas para outros homens. Aí o discurso deles muda. Esse comportamento é
desonesto, mentiroso, torpe mesmo.
Mas, falemos um pouco dos homens bons também. Alguns, bastante conhecidos. Virginia Woolf teve um marido que a apoiou
bastante. As irmãs Brönte tiveram apoio do pai. Camille Claudel teve um pai que
acreditava muito nela (infelizmente morreu antes da artista). A matemática Emmy
Nöether foi defendida pelo matemático
David Hilbert para dar aulas em uma universidade. Ele enfrentou uma luta para
conseguir legitimar que mulheres ocupassem cargos de relevância científica.
Marie Curie também foi apoiada por seu marido, também cientista. O filósofo inglês Stuart Mill , em sua obra “A
sujeição das mulheres” (obra que escrevera com sua esposa Harriet Taylor)
defendeu, ainda na era vitoriana, que mulheres deveriam ter plenos direitos
sobre a propriedade, sobre o voto e sobre exercerem carreira política ou
qualquer outra que lhes interessasse. Mill ainda dizia que sua esposa era uma
das mentes mais aguçadas que ele já conhecera. O que todos esses homens têm em
comum? A resposta é simples: o apreço pelo intelecto da mulher. Apreço suficiente
para defenderem que, em vez de usarem o corpo para se sobressaírem na vida,
elas usassem o cérebro, o intelecto. Exatamente como fazem, a princípio, os
homens.
Antes
de encerrar, cabem algumas considerações bastante importantes aqui. A primeira
delas é que abundam homens de esquerda que gostam de silenciar mulheres. O
silenciamento pode ser tanto direto quanto indireto. No indireto, eles se
recusam veementemente a ouvir o que elas têm a dizer, sobretudo quando o que
elas dizem se referir a algum proveito deles sobre mulheres. Não ouvem e ainda
tentam dar a entender que as falas são infundadas ou que feministas reclamam
muito. Em alguns casos, podem até acusarem a feminista de machismo, enquanto eles
continuam tirando proveito das situações que o patriarcado lhes oferece.
Desde
2016 atuo como coordenadora do Programa de Iniciação Científica da OBMEP em uma
das regiões do Rio de Janeiro. Este programa tem como um de seus objetivos, despertar
o interesse das meninas pela matemática e pelas áreas de tecnologia. Sou uma
mulher que atua na área de extas, embora eu goste consideravelmente de Literatura
e Filosofia. Nas áreas de STEM (Ciências, Tecnologia e Matemática), nós temos
que lutar dobrado até hoje. Muito espaço ainda há para ser conquistado. E para
nós, mulheres que lutam pelo crescimento intelectual de outras mulheres, ver qualquer
mulher se objetificar é algo muito triste, independente de quem seja, de
gostarmos ou não dela ou de quaisquer divergências possíveis. Nosso desejo é o
de que estas mulheres não se sujeitem mais a homem algum para se sustentarem.
Que, em vez de fãs, busquem ter amigos, assim como Emmy Nöether teve em Hilbert.
Porque existem homens que são sim amigos das mulheres. E estes são exatamente
aqueles que nunca gostarão de vê-las se venderem.
Para finalizar, sempre deixei muito claro o que aprendi lendo “As reivindicações dos direitos das mulheres”, de Mary Wollstonecraft. Nós, mulheres, devemos recusar a ideia, tão defendida por Jean-Jacques Rousseau em seu livro “Emílio”, de que a educação que nos cabe é a de aprendermos a ser bem cortejadas. Rousseau desprezava tanto o nosso intelecto e, ao mesmo tempo o temia tanto, que insistia que as mulheres deveriam ser educadas em casa e, mesmo assim, apenas para a vida doméstica. Para ele, a maioria das mulheres era frívola e, para serem felizes, bastar-lhes-ia receber elogios sobre sua beleza, além de muitos presentes que garantissem a sua subsistência. Espero ter deixado claro até aqui que não existe liberdade da mulher enquanto ela não valorizar o seu próprio intelecto. Por fim, é preciso ter muito cuidado com a apropriação indevida do termo “liberdade sexual da mulher” pela sociedade patriarcal. Em particular, essa liberdade não está dissociada do seu intelecto. Deste modo, uma mulher intelectual pode ser plenamente livre, uma vez que a inteligência não lhe retira, de modo algum, a sensualidade. Associar liberdade à objetificação é um equívoco que só favorece os homens, jamais as mulheres. Recentemente, li que os livros mais vendidos na Amazon num determinado mês do ano passado foram aqueles no estilo “50 tons de cinza”. Vários romances com a temática do homem rico e conservador que abusa psicologicamente de mulheres com joguinhos sexuais de poder. Quem comprava tais livros eram majoritariamente mulheres. Não é chocante isso? Assim, deixo para vocês um minuto de reflexão sobre que ideia de empoderamento a mídia, a TV e o cinema têm vendido para as mulheres.
Nenhum comentário:
Postar um comentário