segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Sonhos

Sobre sonhos, só sei sonhar acordada. Dificilmente sonho dormindo ou, se sonho, raramente me lembro do que sonho. Isso, aliás, me angustia um bocado – confesso. A Psicologia Junguiana leva muito em consideração a análise dos sonhos para chegar ao nosso inconsciente. Será que, de tanto pensar, sou toda consciente? Onde foi parar a minha parte de que pouco sei? Tenho até a impressão de que seja a minha maior parte. Quem sou eu, afinal? Hoje sou atormentada por essa curiosidade sobre mim mesma.

Sempre prestei muita atenção ao mundo que me cerca e à gente toda. Sempre fui profundamente atenciosa e cuidadosa com os outros. Ponderando, pensando, levando todos em consideração em qualquer decisão que não envolva só a mim. A meu ver, a vida é coletiva, no sentido de que mesmo a minha individualidade respeita a de qualquer outro ser humano. Não posso, não sei e não quero fingir que não vejo os outros. Eu vejo, eu olho, eu busco, eu penso, eu considero. Porém, de uns tempos pra cá, descobri que preciso também prestar atenção em mim. Será que sei o suficiente sobre mim? Dei-me conta de que não, de que me surpreendo comigo. Acho, inclusive, que sou eu a pessoa que mais tem me surpreendido!

Esse troço de caminhar pra si mesmo é muito complicado. Eu tenho a impressão de que a estrada que dá pra mim é repleta de buracos ou foi erguida só até uma parte. Será que foi mesmo construída? Ela existe? A minha caminhada a pé precisa também ser descalça? Há um mapa? Alguma dica para eu chegar até mim? Os sonhos poderiam ser parte dela? Se sim, o que faço, se não sonho quase nunca?

Recentemente, conversando com um amigo psicólogo, contei-lhe sobre o único sonho que me é recorrente, quando chego a me lembrar do que sonho. O mar invade o local em que estou. Porém, não o temo. No sonho eu me preocupo unicamente em salvar a vida de desconhecidos. A praia sempre lotada. No fim todos se salvam e o mar volta a ficar calmo. É uma espécie de tsunami temporário. Nenhum rosto sequer conhecido. Conhecido, porém, é o mar. No sonho, prevejo o momento exato em que avança, bem como o momento em que recua. Tenho intimidade com o mar.

Ah, e por falar em sonho, na semana passada assisti a um filme estranhamente belo. Ou seria terrivelmente belo? No mínimo, inusitado, posso dizer que o filme húngaro “Corpo e alma” é. A trama gira em torno do desejo de duas pessoas que trabalham em um mesmo local. Mas, o desejo só é aflorado quando ambos descobrem que, ao dormirem, têm exatamente os mesmíssimos sonhos! Eu fico pensando: que coisa mágica é essa de você dormir e ter exatamente os mesmos sonhos de uma outra pessoa, com exatamente os mesmos detalhes, os mesmos cenários e os mesmos personagens? Não seria incrível isso? Pois bem. É o que acontece no filme. A história se desenrola entre encantamentos e medos até que um dia tomam coragem de ir pra cama sem quererem dormir – se é que vocês me entendem. Transam. E, a partir daí, ambos param de sonhar ou simplesmente passam a não se lembrar mais do que sonham. Filme delicadíssimo, criativo, lindamente intrigante – exatamente do jeito que eu gosto.

Na Psicanálise, os sonhos também têm importância. Freud até escreveu um livro sobre a interpretação deles. Qual seria o significado de um tsunami e da minha intimidade com o mar?

Oscar Wilde, por sua vez, dizia que o mundo até perdoa os criminosos, mas nunca perdoa os sonhadores. O escritor falava dos que sonham acordados, dentre os quais eu me incluo. Para mim, é no sonho que nos colocamos por inteiro. A realidade é a máscara do homem. No sonho, a máscara é tirada. Nele o homem se despe. É preciso, portanto, ter certa dose de coragem para escolher sonhar acordado. Já para  sonhar dormindo, creio que só seja necessário ter um punhado de sorte. Ou, talvez, não transar com quem tenha os mesmos sonhos que você.

domingo, 29 de setembro de 2024

A gente mais pobre que existe

Este ano César Lattes estaria completando cem anos de idade. Descobriu a méson pi e só não levou o Nobel em 1950 por meras questões políticas.  Ao todo, foi indicado sete vezes ao prêmio. Não ganhou em nenhuma das indicações e tampouco se frustrou por conta disso. O Nobel é apenas um prêmio, dizia. O que queria era ver a ciência se desenvolver no Brasil. Inúmeras vezes fôra convidado para trabalhar permanentemente em grandes universidades estrangeiras, tendo recusado o convite de todas. Aqui, criou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, cuja sigla antes significava Conselho Nacional de Pesquisas) e foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). 

Todos os anos agências de fomento brasileiras custeiam bolsas de doutoramento e pós-doutoramento de inúmeros pesquisadores que, quando muito promissores, recebem inúmeros convites para abandonarem o país e servirem a interesses estrangeiros. E quando falo "interesses", falo-o por saber que nenhuma ciência é neutra. Por saber que ciência é assunto político, por mais universais que os conhecimentos científicos sejam.

Obviamente, todo indivíduo é livre e tem direito de ir e vir. Mas, quem custeou os estudos do promissor cientista, quem investiu nele, foi uma agência do governo federal ou uma agência de governos estaduais (Faperj, Fapemig, Fapesp etc). Trata-se de uma questão meramente ética, portanto. Por outro lado, que cientista não se sente tentado a sair, quando em seu próprio país é tão desvalorizado? E por que Lattes, talvez o maior dos cientistas brasileiros, decidiu nunca deixar essa terra?

Darcy Ribeiro, o magnífico, sempre deixou claro o que atrapalha o Brasil: são "os bonitos", os filhos de senhores de terras e aqueles que gostariam de sê-lo. Não são os pobres que não deixam o Brasil crescer.  Ele também enfatizou que não existe, no ponto de vista dele - que conhecia muito bem o Brasil - , país com mais potencial para o desenvolvimento do que o nosso. Lattes, inteligente que era, também sabia disso e, bravamente, quis investir seu tempo na melhoria dessa terrinha.

Desde 2016 eu coordeno o programa de Iniciação Científica da OBMEP em uma das regiões do Rio de Janeiro. Sou uma das coordenadoras a que chamam de "cric" (coordenadora regional de iniciação científica). O programa trabalha a metodologia de resolução de problemas com alunos que obtêm bom desempenho nas provas da OBMEP. Um dos objetivos do programa, para além da melhoria do ensino, é também fomentar o gosto pela ciência nos jovens brasileiros. Afinal de contas, nenhum país se desenvolve economicamente sem ciência e o Brasil tem um enorme potencial de crescimento. Deste modo, é correto afirmar que a OBMEP investe na ciência brasileira quando investe no conhecimento matemático dos jovens. Exatamente por investir é que sempre fui procurada por representantes de escolas internacionais com sede no Brasil que me pedem para divulgar para esses alunos que eles podem conseguir bolsas nelas e depois estudarem nos Estados Unidos, na Europa ou no Canadá. Eu nunca divulguei isso para os estudantes, obviamente. E nunca divulguei por inúmeras razões. A primeira delas, é bastante óbvia. Eu sou uma servidora pública do governo federal. Não tenho, portanto, nenhum interesse em incentivar alunos a estudarem em universidades estrangeiras. Muito pelo contrário, até. Eu luto pelo fortalecimento das universidades do Brasil e é pelo meu país que eu trabalho. É o meu país que desejo que cresça e tenha os melhores cientistas que conseguirmos formar. Nós não investimos nos jovens para que eles fujam do país. É claro que eles são livres e não serão penalizados se o fizerem, mas daí a contar com meu incentivo, é muita falta de consciência política a dessa gente sem noção.

Nas redes sociais e nos grupos de whatsapp, inúmeros pais de classe média a classe média alta perguntam quando ocorrerão os exames de Cambridge, exames que medem a proficiência de uma pessoa na língua inglesa. Há escolas estrangeiras que oferecem diplomas válidos no Canadá. Os pais ficam animadíssimos com isso. São aquelas pessoas que vivem na ideologia da prosperidade. Aquelas cujos sonhos são poder tirar uma foto na Torre Eiffel, abraçar o Mickey na Disneylândia, ter filhos graduados no exterior, com greencard e cheios de netinhos loiros. Se conseguirem isso, terão obtido sucesso na vida. O interesse pelo Brasil nasce e morre nos jogos da seleção, nas alegrias do carnaval ou nas férias no Nordeste. Só querem saber daquilo de bom que o país lhes dá. E lhes dá porque conseguem pagar. Contudo, ainda que possam saber que são brasileiros, eles não sabem o que significa serem brasileiros. Eles não se sentem brasileiros. No máximo, elogiam a bossa nova, o mico-leão-dourado e a nossa linda mata atlântica.

Nos bares ou em reuniões com amigos ou mesmo em seus textos (para aqueles que gostam de escrever), os assuntos rondam a arte europeia ou estadunidense. Se de esquerda, terão lido Bourdieu, terão tentado ler Marx (marxista raiz é quase inexistente) e conhecerão bem a literatura francesa. Como Darcy Ribeiro chegou a afirmar, masturbam seus egos, encantados exatamente com tudo aquilo que pouco lhes diz respeito, que não faz parte de sua cultura - por mais que se esforcem para que faça. 

Se por um lado, são capazes de apreciar uma filosofia estritamente burguesa (cuja liberdade nunca se aplica, na prática, a todos), seus olhos permanecem fechados para a produção cultural que consideram inferior em qualidade, ou seja, a de quem não é europeu. Nunca tiveram curiosidade (não é incrível isso?) em ler uma obra de Fanon, de Abdias do Nascimento, de Lelia Gonzalez, de Angela Davis, de Achille Mbembe, de Milton Santos e nem mesmo dos brancos Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro. Afinal, tais brancos são brasileiros. De literatura, praticamente também só sabem falar dos europeus. Nunca tiveram curiosidade em ver o mundo pelos olhos de um africano, de um asiático, de um árabe ou até mesmo de um chileno, um peruano, um colombiano ou um argentino. Será que esses povos nunca escreveram livros ou não têm nada de interessante ou bonito para contar? Nada que nos interesse saber? 

Pois é. Os que nada querem saber da produção intelectual de outras culturas - a não ser a europeia - vivem alheios às suas próprias raízes, como se delas pudessem escapar. Essas pessoas apresentam, portanto, um comportamento bastante alienado. Alienado no sentido de não saberem de que matéria são feitos. Vivem alheias ao seu próprio país, à realidade circundante. Interessa-lhes unicamente a vida sob a luz, como se não houvesse vida também no submundo. Falta-lhes uma certa sensibilidade para enxergar um sorriso ou um gozo naqueles que sabem sentir dor. São pessoas que estão sempre fugindo da dor e de falarem nela. A dor de que falam é uma dor de cotovelo, é uma dor de não conseguir ingresso para um show, é a dor de terem de trabalhar todos os dias para poderem pagar as suas contas e faturas de cartão de crédito. Se pudessem, escolheriam nunca trabalhar. A consciência social de que a vida é coletiva e de que esse país também é deles - o que deveria ser suficiente para se sentirem obrigados a também trabalharem por ele -  lhes falta em demasia.

Assim, o Brasil se torna um país apenas  daqueles que querem ficar aqui ou daqueles que não têm outro lugar para viver. Os demais existem aqui, mas é como se não existissem aqui. Brasileiros são os indígenas, os negros, os nordestinos, os moradores de comunidades, os pardos. Os brancos, não raras vezes, sempre se acham um pouco europeus. Eles não estão na mesma linhagem do resto. Até vemos movimentos sociais com muita gente branca de classe média. Alguns vivem dando cursos sobre intelectuais em "casas de saberes" ou na PUC. E é muito curioso que falam sobre os marginalizados como se pudessem protegê-los do alto do palco pelo qual cobram para palestrar. Eles palestram para quem? Para os pobres que defendem e que não conseguem pagar a inscrição? O que têm a oferecer a quem defendem? O que oferecem? O que, efetivamente, lhes dão? Há, inclusive, uma mania estranha de ninguém achar que moradores de favelas também sabem palestrar, filosofar e que seria maravilhoso um dia visitar a Rocinha para ver algum jovem lhes ensinar alguma coisa. Quem sabe lhes recitar um poema autoral? Mas, não. Nunca têm a aprender. E, se têm, será apenas com europeus. Eles só sabem falar da literatura e da filosofia europeias. O recorte que fazem do mundo é limitadíssimo. Limitadíssimo. Ainda assim, autoproclamam-se intelectuais, quando, na verdade, são especialistas em fulano ou em ciclano. 

Uma educação, em pleno Brasil, que nunca  se interessa em estudar as diversas visões de mundo ou, mais poeticamente, os sentimentos do mundo, é uma educação muito, muito, muito pobre. No máximo, farão recortes de recortes - de paisagens europeias. Somos o país de Santos Dumont e de Guimarães Rosa. E o sonho de educação que muitos pais almejam para seus filhos não é viver em um país melhor, ensinando-os a construirem um efetivamente melhor. O sonho é que possam ter um diploma válido no Canadá, nos Estados Unidos ou na França, para que apenas tenham dinheiro e desistam de transformar o mundo. É uma educação sem nenhum outro ideal além do ideal de poder abraçar o Mickey e ter um Iphone da última geração. O sonho é, sobretudo, falar o inglês com o sotaque mais próximo possível de um britânico ou de um estadunidense.

O Brasil não conhece o Brasil, cantava Elis Regina. Mas, às vezes, o conhece sem querer. Agora que Cate Blanchett elogiou Clarice Lispector no Festival de Cinema de San Sebastian, todos os brasileiros reconhecerão que ela era mesmo foda. Descobriram Clarice na hora da estrela, da estrela de Hollywood.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Cute, but psycho, but cute

Eu não sou alegre, nem sou triste e nem sou poeta. Mas, eu gosto de escrever. Eu me divirto ou relaxo escrevendo. Os textos mais sérios são uma forma de extravasar, de parar de pensar. São como jogar fora, e no papel, o que tá rondando muito a mente. Já os meus famosos textos nonsense, eu escrevo por pura diversão. 

Eu gosto de sátira. Eu acho o mundo completamente absurdo e, muitas vezes, há um aspecto cômico no que poderia parecer apenas trágico. Como perder de vista o médico antivacina? Como perder de vista quem faz críticas construtivas sem nunca ter construído nada? Como perder de vista aquelas adoráveis pessoas que acham suas opiniões indispensáveis e que as têm para absolutamente tudo? As que nunca têm coragem de dizer "eu não sei"? Essas pessoas são muito inspiradoras para mim. Quando vejo, já tô imaginando uma história na qual elas vão surgir em algum momento. 

Nas redes, por exemplo,  elas aparecem em profusão. Dia desses, vi uma psicóloga que me lembrava aquele suco do Chaves que é de laranja, parece maracujá e tem gosto de tamarindo. Ela é psicóloga e psicanalista, parece socióloga e tem gosto de comediante. Ela só faz postagens dizendo que a psicanálise não ameniza os problemas das pessoas. Por que ela escolheu essa profissão, se ela não acredita na Psicanálise? Meu cérebro bugou. 

Eu tenho uma amiga cuja irmã é também psicóloga. Essa irmã dela não consegue ficar um minuto sequer em silêncio. Constantemente ela apresenta, nas festas, diagnósticos de pessoas que ela nem conhece. Ela bate o olho, observa um pouquinho e apresenta o diagnóstico infalível. Rio muito. Acho divertido o jeito dela. Essa confiança inabalável de estar sempre certa sobre aquilo que desconhece por completo. 

Em BH havia uma bibliotecária que parecia psicóloga e tinha gosto de policial. Em 2014, assim do nada, falou que fulano era um psicopata nível 10. Fulano era um amigo em comum. Segundo ela, todos temos algum grau de psicopatia. Ela leu em algum lugar. Ela é bibliotecária. Ela lê muito. Ela deve saber muito bem o que diz. Tanto, que ela me bloqueou em 2014, naquele ano mesmo. Desconfio que já tenha descoberto que meu grau de psicopatia é justamente o mais alto de todos.

domingo, 22 de setembro de 2024

Garotos de programa

Desde a militância que "enaltece a maturidade" mostrando que podemos vestir as mesmas roupas que vestiríamos se tívéssemos hoje vinte anos de idade, há quem resista à ideia de que mudar faz parte da vida. E quando digo que faz parte, digo que nós todos mudamos, independente do quanto a vida esteja estável ou não.

Quando se é mãe, divorciada, professora, pesquisadora, orientadora, coordenadora e se está escrevendo um livro a três mãos, a coisa para a qual você mais quer usar seu tempo é para sossegar um pouco. Sossegar é ler um romance, é ver um filme, é ir ao teatro, é ir ao cinema, é ir a um show agradável onde se possa ficar sentada, é fazer uma trilha e até mesmo pode ser sentar a bunda na cadeira e aproveitar o tempo para terminar aquele artigo porque você sabe que o prazo para submissão pode estar acabando.

Porém, há mulheres que ainda não entendem as que se enquadram no perfil do parágrafo anterior. Elas pensam de tudo sobre aquelas. Desde nerds bitoladas a mulheres sem pulsão de vida. Assustam-se com o fato de existirem mulheres que gostam de estudar. O espanto é tanto, que perguntam: "você não sente falta de um companheiro?". E quando você diz que companhias não são uma necessidade, mas um desejo, elas a olham como se você tivesse super poderes. Então elas dizem "Gostaria tanto de ser como você, sabe? Gostaria de não precisar dos homens".

Foi essa a frase que introduziu minha conversa, anteontem, com uma mulher que conheci no aniversário de um amigo. Algumas vezes ela me escreve no zap e é um doce de pessoa. Muito amável mesmo. Dentre tantas coisas que desabafava comigo ao longo da conversa, estava a falta que sentia de um ex-companheiro que foi bastante desleal com ela. Por mais que a relação tenha se encerrado há mais de dois anos, ainda sente falta da companhia dele. Decidi perguntar-lhe se ela ainda gostava do dito cujo e a resposta que ouvi me encucou: "não gosto, ele me fez muito mal; eu sinto falta é de ter um homem ao meu lado". A causa da dor dela, do vazio que, ao menos naquele momento, sentia, era não ter um homem. A inexistência de um homem faz seus dias tristes, sem emoção, desgostosos.

Voltemos, então, ao segundo parágrafo, aquele que fala da mulher que tenta aproveitar o tempo para escrever um artigo para publicação em revista acadêmica. Aquela que é mãe etc etc etc e que tem tanta coisa com que se preocupar na vida, que nem se lembra que está solteira. Essa mulher já sabe que homem algum é o centro de sua vida. Mais ainda: ela sabe que nenhuma outra mulher deveria ter isso em mente (e no coração), que homem algum deveria ser a principal razão da alegria, do bem estar, do entusiasmo de qualquer pessoa do sexo feminino. Contudo, a outra ainda se espanta. Ela tem dificuldade em perceber a naturalidade do prazer de uma mulher com seu trabalho e com sua pesquisa, isto é, a satisfação de uma mulher que, mesmo não tendo um companheiro, consegue se sentir feliz e entusiasmada com a vida.

Dentre todos os problemas presentes na péssima educação que nós, mulheres, costumamos receber desde que existe vida na Terra, está a capacidade de inúmeras ainda serem falocêntricas. O falo, mesmo após séculos de feminismo, ainda se mantém de pé. E muito de pé. Bem durinho mesmo. Tanto, que essa moça teve mãe feminista, militante, com doutorado em Psicanálise e o escambau, mas até hoje não compreendeu que seu valor está todinho em si mesma. Qual o mistério a ser descoberto pelos pais para educarem suas filhas para uma vida menos dependente emocionalmente dos homens? Quando todas as mulheres se sentirão bem, amadas ou não, solteiras ou não, simplesmente por desenvolverem o potencial que têm para tocarem suas vidas e seus projetos? Por que os projetos precisam ser sempre dos homens? Por que só eles devem protagonizar? 

Por mais que tenhamos mil exemplos de protagonismo feminino, na prática, no dia a dia, muitas se espantam ainda com ele. Chegam até a não entender que você dizer que não precisa de um homem é muito diferente de você dizer que não quer um homem. Em outras palavras, uma coisa é querer, outra é precisar. E precisar, precisar nenhuma precisa! 

Amor é sorte, gente. Uma hora pode acontecer ou nunca. E pode até mesmo acontecer e ser tão impossível de ser vivido, que passa a sobreviver platonicamente nas pessoas ou ser enterrado de vez. Seria bom todos encararem isso com mais naturalidade. O amor pode ser possível ou não. Mas, antes ele precisa existir. Enquanto não existir, ninguém deveria sofrer por ainda não encontrá-lo. Deixe para sofrer na hora em que ele se instalar de vez. Não faça do amor a única razão da sua felicidade, das suas ações cotidianas. Há muitos espaços que ainda nos esperam, mulherada! 

Antes de cogitar ter um homem em sua casa, pense em você chegando e tendo de lavar a louça por dois. Pense em você terminando de lavar a louça e sendo interrompida em sua leitura a cada momento que sentar para ler e escrever. Já parou para pensar que você também precisa de tempo e de paz para produzir? Eu fiz essas perguntas para ela. Sei lá. Eu tinha a esperança de ela se convencer de que talvez fosse feliz e não soubesse. Vai saber? Você já parou para pensar nisso?, eu lhe indagava.

Depois de um tempo pensando, ela me fala que eu estou certa e que conversar comigo lhe fazia bem. Falou que muitos homens a bloqueavam, carinhas que conhecia nas redes ou em aplicativos - essas coisas que só gente muito otimista acredita que realmente funcione. Foi nessa hora que a libriana aqui meteu a louca para encerrar de vez o assunto, pois eu falava falava falava e pouco adiantavam as minhas palavras. Eram como paliativos, mas não lhe traziam nenhum tipo de cura. 

"Nesses aplicativos você só vai achar gente querendo te comer. Se transar com algum e quiser amor, vai sofrer. Mais fácil contratar um garoto de programa. Alguns são bem carinhosos. Fora que eles ainda são profissionais, né?", falei-lhe.  A reação dela foi de espanto. Uma nerd falando aquilo? Pois é. Eu a trolei mesmo com esse papo de garotos. Vocês ainda não sacaram que eu sou doidinha? Eu queria muito encerrar aquela conversa, gente, e escandalizar foi a única ideia que me passou pela cabeça. Fez-se um silêncio, uma pausa. Então notei que a minha estratégia funcionou. Bingo! 

Hoje à tarde recebi um zap do nosso amigo em comum. Parabenizou-me e disse que ela passará a seguir os meus conselhos. Que bom!, exclamei. É ótimo ela perceber que os homens não devem ser o centro da vida dela! Foi então que ouvi a voz dele rindo no áudio: Raquel, ela está considerando se contrata um garoto de programa.

Ele riu e eu fiquei pensativa. De todos os conselhos dados por mim, ela pensa justamente no que eu lhe dei brincando! Como sei que sorte ela pouco terá, não lhe desejarei boa sorte. Seria uma perda de tempo. Que ao menos goze, então. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Código QR

Tenho visto, com reserva e preocupação, o entusiasmo de muita gente com Inteligências Artificiais, chatbots e tudo quanto é coisa que agiliza certos processos que todos somos plenamente capazes de executar. Estamos nos fazendo descartáveis e, para piorar, nos orgulhando disso. Eu não sou uma entusiasta de Inteligências nem sempre necessárias. Aliás, quando eu resolvo estudar alguma invenção humana, a primeira coisa que investigo é o porquê de ter sido criada. Por que foi necessário produzi-la?, eis uma pergunta crucial. Outra pergunta - e a mais importante - é que consequências o seu uso pode ter e quem as sofrerá.

Hoje me dei conta de que a pergunta sobre as necessidades parece não mais precisar ser feita, deixou de ser uma exigência. Produz-se muito - em particular, lixo eletrônico - sem justificativa alguma que, de fato, o valha, que convença. Gasta-se também um contingente considerável de energia elétrica para se gerenciar tamanha quantidade de dados.

Alguém saberia dizer por que a Alexa é necessária? E o ChatGpt? Que eles tenham utilidade, é uma coisa. Serem necessários já é outra. Ninguém deveria necessitar usar isso para conseguir informações. A consequência é que alunos já não conseguem sequer fazer uma pesquisa eficiente no Google Acadêmico. Estão focados nos resultados, não nos processos. Querem o resumo, querem ler. Vão aprender sobre o que o texto diz, sem dúvida. Mas, como pesquisar já será um desafio maior para eles do que era para a minha geração.

O trabalho excessivo criou uma necessidade para essas inteligências. Inteligências que não criam. Inteligências que compilam e copiam.  Adeus direitos autorais. Elas agilizam processos. Essa é a utilidade delas. Resta a pergunta: por que agilizar processos que somos capazes de fazer? Os que não somos, tudo bem. Mas, para o que sabemos, isso significa regredir intelectualmente. Significa ir perdendo a capacidade de aprender a fazer sem uma dica, sem uma ajudinha. É a lei do menor esforço para poder se dar bem, para obter um resultado. Assim, até mesmo eticamente isso nos faz regredir. Uma ética, porém, contra nós próprios.

No ano passado, o Prêmio Jabuti foi retirado de um ilustrador. Motivo: ele havia sido erroneamente premiado por ilustrar a capa de um livro fazendo uso de Inteligência Artificial. Quem poderá dizer que foi realmente ele quem criou a ilustração? Dizer como se quer uma imagem e ajustá-la é o mesmo que criá-la? Ter o pleno domínio de uma máquina constroi um ilustrador ou um operário eficiente? 

Recentemente, li que há Inteligências Artificiais que produzem planos de aula e também avaliações de aprendizagem. Os planos de aula, embora sejam aparentemente perfeitos, não substituem o trabalho de um professor. Afinal, nem tudo sai como se planeja quando um plano cria aulas a partir de um aluno padronizado. O professor terá de fazer ajustes. O ChatGpt, portanto, pode auxiliar. Mas, indispensável, indispensável ele não é. Ele apenas torna o processo de produção bem mais veloz. Muitos dos professores saberão como ajustar os parafusos, mas não como se montou o aparato que precisará de seus remendos. A justificativa para seu uso, porém, é legítima: facilita a vida de um profissional que precisa dar aulas em número excessivo para conseguir pagar as contas do mês seguinte. A necessidade é conseguir ser produtivo, mesmo sem fazer questão de elaborar um plano sozinho, coisa que lhe permitiria ser um profissional mais reflexivo sobre sua própria prática, sobre as suas próprias competências.

Um Iphone faz muito mais coisas de que seus usuários realmente necessitam (ou sabem) usar. Seus usuários, em média, só usam o básico do que o aparelho tem a oferecer. Poderiam ter qualquer outro aparelho, portanto. Mas, querem um Iphone. Porque Iphones são mais chiques, porque Iphones lhe conferem uma imagem melhor, de pessoa bem sucedida na vida, de pessoa "de sucesso". Antes mesmo de você terminar de pagar a última parcela  do cartão de crédito que você usou para adquirí-lo, outro Iphone já estará sendo produzido e o seu se tornará obsoleto. Você vai notar que ele trava - e foi programado para isso, tá? Você parará para pensar que nunca precisou de todos os recursos que eles lhe oferecem? Não. Você não parará para pensar. Você não acha isso importante, você se desacostumou. Você faz questão é de não pensar, de usar ferramentas que o poupem deste trabalho.  Você então se angustiará para comprar o modelo novo. O desejo o consumirá até que você consiga consumir o objeto que vem consumindo o seu cérebro e o seu coração. Você deseja o que grandes empresas decidem que você deve desejar. A sua mente já está sendo acessada e, assim, programada, para funcionar conforme a capacidade de seu bolso enriquecer quem quer ditar as regras da sua vida. 

Ah, e não pense que não estão realmente ditando. A Prefeitura do Rio de Janeiro estampa orgulhosamente um contrato que fez com aplicativos que o informam se seu ônibus já está chegando. Eu acharia isso maravilhoso, se em todos os pontos de ônibus também houvesse a informação de que linhas passam por eles. Mas, não. Não é bem isso o que ocorre. Na sexta-feira passada, notei que os pontos em certo local da cidade já não disponibilizavam os números das linhas. Antes disponibilizavam. Hoje, não mais. Foram apagadas. Em seu lugar, um enorme código QR. Para se informar se seu ônibus passa lá, você é obrigado, portanto, a baixar aquele aplicativo. Notem: é uma imposição. Você não tem como escapar. Criaram uma necessidade que antes você não possuía. Unicamente para alguém lucrar em cima de você. Observe que se informassem o número da linha, você poderia não baixar o aplicativo por não se importar se está vindo ou não. Mas, o número do ônibus, o número do õnibus é uma informação, de fato, necessária. 

Vejamos um outro exemplo, talvez mais fácil de você averiguar. Se você for a um supermercado, notará que para saber os ingredientes e funcionalidades de alguns produtos, precisará ler um código QR. Algumas pessoas, que não entendem muito a minha língua, dir-me-ão: "mas, os indivíduos precisam se adaptar às tecnologias.". Será mesmo que precisam? Será que não podem escolher abrir mão daquelas que realmente não julgam necessárias às suas vidas? Onde foi parar a liberdade de escolha? O nosso sagrado direito de decidir? Por que as informações que sempre estiveram nas embalagens agora não conseguem mais estar? As embalagens não diminuíram tanto assim de tamanho para que não as coubessem mais. Que explicação lógica há por trás dessa atitude, então? Fazer você baixar um aplicativo, fazer a empresa fazer "parte da sua vida", coletar dados seus. Afinal de contas, você é um consumidor. Não é um cidadão, posto que não tem voz. Mas, é um consumidor. Você é um produto de muito valor. E você é porque consome. 

Note também que há uma seletividade. O mercado seleciona apenas os que podem ou querem ter o aplicativo tal. Milton Santos, um dos melhores geógrafos que o Brasil já conheceu, já dizia, há anos (!), que a globalização é seletiva. Alguns se mantém à sua margem, ela não chega a todos. A maioria da população mundial não tem acesso à alta tecnologia e nem mesmo à média. Mas, a energia que as empresas utilizam é de todos nós, assim como o lixo eletrônico que produzem para o meio ambiente. Poderíamos tomar a decisão de freá-las (não falo nem em pará-las, mas em saber usá-las), mas nos vendemos para manter os lucros de uma ínfima porcentagem de milionários que tentam legitimar que todos devam se curvar a eles e adorá-los, não importando os efeitos sociais e psicológicos dessa adoração.  Aceitamos viver vidas viciadas que só geram desejos estúpidos e enriquecimento de quem mais nos faz mal do que bem, de quem invade diariamente a nossa privacidade. As redes sociais vendem tudo sobre você a quem lhes pagar para isso, empresas lhe ofertam diariamente serviços e produtos até mesmo por email - como sabem seu endereço?

Nos supermercados, muitos atendentes já são substituídos por máquinas, um tipo de chatbot - essas inteligências que simulam ações humanas. O que pouca gente percebe é que elas não apenas tiram o emprego de várias pessoas, como tornam atendentes os próprios consumidores! E trabalhamos de graça para eles, tá? Você acessa a máquina, passa cada produto, embala e paga. Ora, e não é esse o serviço do atendente? Substituem atendentes por consumidores. Somos realmente produtivos! Mas, produzimos para quem? Nós nos tornamos atendentes quando eles ficam sem o emprego. E ganhamos, ao menos, algum desconto por sermos funcionários temporários dessas empresas? Ganhamos? Não seria justo que usuários de autoatendimento ganhassem desconto nos produtos? Seria. Não é justo nos auto explorarmos. E se não é justo, então não faz sentido algum que aceitemos. 

O que faz sentido mesmo é viver uma vida desacelerada, focada mais em qualidade que em pressa e em produtividade. Produtividade para quem?, perguntem-se! Qual o impacto da produtividade na vida de cada um de nós? Pensemos! Reservemos sempre um tempo do dia para pensar. Porque pensar nunca é um ato imediato. Precisamos de tempo, o nosso bem mais precioso. Esse bem que diariamente damos em demasia- e de graça - para as big techs. 

Fonte da imagem: 
https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/12627427-escaneie-meu-codigo-qr
 


sábado, 3 de agosto de 2024

Deixem o nosso cérebro em paz!

Não sei se vocês concordarão comigo ou se eu realmente mereço a medalha de ouro na corrida dos atletas textuais mais chatos. Sim. Esse será um texto chato. Com uma pitada de açúcar, quiçá alguém perceba. Quem sabe consigo esse milagre? Milagre mesmo - e dos bons - seria acordar numa época em que a maioria percebesse que há muito prazer em descobrir as coisas, em observá-las e até mesmo em querer ser surpreendida(o) por elas. Contudo, vivemos em  um tempo em que pensar já parece ser algo nocivo ao homem. Um dia, talvez até transformem o ato de pensar em um ato criminoso. Não duvido nadinha disso! Tenho muita fé nas minhas dúvidas.

Coisas que o homem é absolutamente capaz de fazer, como, por exemplo, pesquisar e elaborar um texto, hoje são sistematicamente entregues a inteligências artificiais. Por quê? Porque elas são muito rápidas na entrega. Ora, mas por que pedir a alguém para fazer algo para você, se você é plenamente capaz de fazê-lo? Pois é. Por quê? Por que, oh, céus?

Dia desses, um colega de trabalho me falou que passou para seus alunos o gabarito de uma lista de exercícios. Para sua surpresa, alguns deles, em vez de lerem o gabarito, preferiram recorrer ao Chat GPT, mesmo este dando respostas imprecisas. Eles estão perdendo a capacidade de dialogar com pessoas reais? Estão perdendo a capacidade de apreciar o que é feito pela mente humana? Ou será que já estão viciados nesse troço, a ponto de preferirem trocar o certo (o gabarito detalhado) pelo duvidoso? 

A propósito, o Chat GPT ainda não aprendeu a pensar. Por enquanto, usa dados e os analisa mediante algoritmos criados por pessoas. Os algoritmos é que determinam a conclusão a que chegam. Os mesmos dados podem produzir conclusões diferentes, a depender de como são programados para os interpretarem. O Chat GPT não pensa. Porque pensar não se resume a dar uma resposta. Pelo contrário, pensar está mais associado a saber fazer as perguntas certas. 

Uma das coisas mais irritantes no Instagram são aqueles vídeos super óbvios repostados por alguém que cisma em querer explicá-los. Pessoa escolhe os ingredientes para fazer uma "omelete gourmet" (se não for gourmet, quem vai parar para ver, né?), filma cada etapa do processo e, mesmo assim, aparece alguém querendo traduzir o que não tem a mínima necessidade de ser traduzido! A coisa é tão absurda, que eu nunca sei se quem faz isso é um oportunista que rouba um trem de alguém para ganhar curtidas ou se simplesmente já acha que a humanidade perdeu completamente as suas capacidades mentais para conseguir compreender as coisas mais óbvias.

Querem ver outro exemplo que todos vocês também já estão carequíssimos de ver, em todo lugar e ao mesmo tempo? Explicações sobre ironias e metáforas! Ah, não entenderam o que estou dizendo aqui? Ok, ok. Vou explicar, então. Sabe-se lá se vocês são realmente capazes de entender sem que alguém lhes explique, né? Sabe-se lá. Então vai: imaginem que uma cobra picou vocês e, em vez de vocês procurarem tomar logo um soro, decidem é correr atrás da cobra para convencê-la de que vocês não mereciam ser picados - isso não é sobre cobras! Ah, como é necessário dizer que não é sobre cobras! É realmente muito importante explicar, destrinchar todos os códigos, antecipar tudo antes que qualquer um de vocês ouse tentar entender o texto sem querer ajuda alguma. 

Essas coisas todas são tão bizarras, que desconfio seriamente que estamos sendo forçados a nos tornarmos completamente idiotas só para dependermos das tecnologias. A burrice é lucrativa, afinal.

Quando deixarão o nosso cérebro em paz?, eis uma pergunta que me aflige. Queremos ter o direito de pensar! Precisamos, em particular, de tempo para pensar. Pensar é descobrir por si só.

Tem coisa mais valiosa que o pensamento? Tem coisa mais poderosa? Tem não. Até mesmo nas relações afetivas, só se percebe a existência do outro a partir do momento em que ele passa a ocupar o nosso pensamento.  "Eu penso em você" é uma clara declaração de afeto. Ou de ódio. Vai depender do que se pensa! Mas, enquanto não ocupar o pensamento, também não ocupará o coração. Embora o caminho mais provável seja o do coração para a mente, a mente decidirá  o que ficará ou não no peito. 

A regra é velha. Velha e muito clara: penso, logo existo. Não penso? Logo desisto. E desisto é de mim. Pensem nisso. 

terça-feira, 23 de julho de 2024

Os dias perfeitos, as redes sociais, o nosso tempo

Ontem, dia 21 de julho de 2024, completei três meses sem conta no Facebook. Acreditem ou não, não tive crise alguma de abstinência nesse período. Muito pelo contrário. Muito pelo contrário mesmo! Tem sido um momento de pausas longas para leituras de todo tipo. Em particular, para livros escritos por pediatras, psicólogos e até mesmo profissionais da computação que afirmam que é preciso evitar o uso excessivo das redes sociais. Alguns, mais radicais, chegam a dizer que o melhor mesmo é abandoná-las.

Nem todos conseguem isso. Alguns, por vício. Outros, por necessitarem delas para divulgarem serviços ou produtos. Isso sugere que talvez as questões mais importantes sejam as que buscam responder apenas o que fazemos nelas, como as usamos e por quantas horas do dia. Abandonei o Facebook porque meus dados (assim como os de todos vocês) eram vendidos a empresas pelo Mark Zuckerberg e meu tempo era também, de certa forma, controlado por esse homem. O tempo todo o feed é invadido por vídeos e informações diversas sem que tenhamos o menor controle sobre elas. São dados em profusão, a maioria deles apenas servindo para nos roubar o foco. Tudo no Facebook é repetitivo. É um eterno retorno diário. Impossível não se desesperar diante desse cenário. Impossível não desejar unicamente fugir, achar a saída de emergência. E como eu não dependo dele para trabalhar, saí em definitivo.

O tempo atual é realmente de relações líquidas? Isso seria otimismo demais. Eu já arrisco considerá-las gasosas mesmo. Evaporam-se num piscar de olhos. Já há, inclusive, reportagens sobre o número crescente de pessoas que namoram ou namorariam inteligências artificiais. Afinal, as IAs não brigam, não discordam delas e sabem afagar seus egos. A IA não tem personalidade e, exatamente por isso, funciona como uma espécie de espelho de quem dela usufrui. Seu namorado dirá “Samanta, me indique uma leitura”. E Samanta indicará sempre algo dentro do que ele costuma ler. “Samanta, meu chefe não gosta do meu serviço.”. E Samanta lhe dirá para ter paciência, para relaxar, para perdoar o chefe. Samanta nunca dirá que ele talvez precise ser mais eficiente no trabalho. Samanta jamais o contestará em nada. Ela é ética, tem sempre o mesmíssimo humor, só fala quando perguntada e nunca fica cansada. Ela não torra, ela não vê os defeitos dele! E não ver os seus defeitos é o mesmo que estar a um passo de venerá-lo. E por que venerar é tão importante assim? Porque vivemos um momento em que tudo gira em torno da sedução e da idolatria de si próprio. É empoderamento, é ser afrontoso(a), é postar tudo o que faz nas redes, é se fazer uma celebridade, é buscar ter fãs, visualizações, engajamento. Mesmo que o engajamento seja em torno de absolutamente nada que engaje quem quer que seja. Todo santo dia as mesmas coisas, com pequenas variações. Absolutamente previsível para qualquer bom observador. Não é tão difícil perceber o emocional daqueles que se expõem mais. E é sobre as nossas emoções que as redes sociais agem. Chegam mesmo a contratar psicólogos e neurocientistas que os auxiliam a prender sua atenção, a emocionar você, a conduzir você a seguir o caminho A em vez do caminho B.

Se antigamente a dominação se dava pela repressão, hoje ela se dá pela ilusão da liberdade absoluta. Liberdade essa entendida unicamente como ter todas as suas vontades satisfeitas e nunca parar de querer algo que nunca teve antes. A liberdade de poder consumir sem parar. Poder é poder consumir. E liberdade é consumo.

Não é preciso ser muito brilhante para perceber que isso é um fiasco. Por que a liberdade deveria atrelar-se a ter todas as vontades satisfeitas? Sabemos perfeitamente que nunca as teremos. Precisamos aprender a viver sem querer tudo e sem ter muitas de nossas vontades realizadas. Isso nos fará bem. Gostar e querer com afinco exatamente aquilo que se tem, a ponto de se satisfazer, de não sentir outro tipo de fome mais. Isso nos traria tranquilidade, paz, independência. Aprender a “viver sem” é um Oasis no coração mais deserto. Viver aquilo que dá para viver, apreciar mais o possível que o impossível, viver a realidade, amar a rotina, o mesmo pão com manteiga, andar de mãos dadas com a mesma mulher ou o mesmo homem com quem você se deita há mais de vinte anos e não se cansar disso nunca. Uma vida sem espetáculos, sem aplausos, sem fogos de artifícios. Mas, com muitas árvores. Uma vida fincada na terra, com toda a paciência que esse elemento exige de nós para nos dar apenas aquilo que nela plantamos. E nada além daquilo que plantamos.  

É nessa vibe (usando aqui um termo jovial para conseguir uma curtida) que se dá o roteiro do filme “Dias perfeitos”, que está disponível na plataforma de streaming MUBI. Um filme que insiste em nos fazer lembrar das nossas necessidades mais básicas, sendo a mais básica delas a beleza. Afinal, é da beleza  que emerge todo o sentido da vida. O protagonista, um faxineiro de banheiros públicos de Tóquio, vive todos os seus dias praticamente do mesmo jeito, fazendo as mesmas coisas, sentindo os mesmos sabores. Porém, ele não se entendia nunca. As repetições jamais o aborrecem. Porque ele repete aquilo de que gosta e também aquilo que não consegue modificar mais. Abraça a vida na plena aceitação dela, no amor fati.

Limpar privadas é um trabalho chato como também são muitos outros. Porém, nem todos os trabalhos são necessários à sociedade como o daquele protagonista. O filme deixa isso muito claro, uma vez que os banheiros só ficam limpos quando ele aparece. O tempo todo tem gente entrando e saindo desses locais. Deste modo, o filme trabalha bem o conceito de alienação. Se tem algo que o faxineiro não é de jeito nenhum é alienado. Ele está sempre dirigindo a sua própria vida. Muitas são as cenas em que está pilotando seu carro ou sua bicicleta pelas ruas da cidade. Rechaça a tecnologia que considera desnecessária à sua vida. Ouve fitas cassete em vez de cds. Frequenta sebos.

A coerência do personagem é tão grande, que em sua própria casa não tem banheiro. Em outras palavras, ele realmente só suja aquilo que ele mesmo limpa. É, portanto, uma pessoa honesta consigo mesma.

O acaso, ou seja, a aceitação da vida como ela é, está nas fotografias aleatórias que tira das mesmas árvores com uma máquina fotográfica antiga. Ele não sabe o que é um Iphone, mesmo morando no Japão! Se as fotos não ficam boas, ele as joga fora. Simples assim. Faz parte da vida dar ruim de vez em quando. Aceita-se isso e se continua fotografando. Quem disse que tem que dar certo sempre? A vida é um constante correr riscos, é sempre uma probabilidade e nunca uma certeza. Funciona exatamente como um jogo da velha. Nada mais e nada menos que um jogo que escolhemos para passar o nosso tempo. E, sim, há quem prefira os videogames.



quarta-feira, 17 de abril de 2024

Ninguém escapa

Lutar contra os sentimentos não é difícil. É até bastante fácil.  Difícil é lutar contra a razão. Porque a razão está ligada àquilo que se sabe, que se vê. Como negá-la? É ela que angustia. Ela é que mostra o que você preferia não ver. Mas, você vê. Infelizmente, você vê. De nada adianta tocar mantras e fazer meditação se diante de você, diariamente,  a dor de quem tem fome explode na sua cara, a dor de quem não tem casa explode na sua cara, a dor das milhares de crianças assassinadas na Palestina explode na sua cara. A única paz possível só existe com justiça social. Não vem da ioga. Vem de ver gente feliz. De nada adianta seu skincare, quando você sente seu rosto sujo do sangue dos homens.  O único amor em que você crê é o que socorre o outro. Todo o resto, pra você, virou um conto de fadas. É muito bonito, veste belas roupas de seda. Mas, não é consistente. Não é confiável. Só existe em condições ideais de temperatura e pressão. Acontece, entretanto, que a temperatura às vezes congela e a pressão pode se tornar muito alta à medida que se desce às profundezas do abismo. E o que você vê ao redor são só dor e memes. E você não quer ver nem a dor que santifica um homem e nem os memes que desanimam os seus olhos. Em quem confiar? De quem nunca desejar se esconder? Você se pergunta melancolicamente sem achar a resposta. A humanidade sempre consegue ferir você.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Uma estrelinha na testa para o ateu fanático

      O conhecimento científico não é o único conhecimento que existe. Já dizia Shakespeare, e com razão, que há muito mais entre o céu e a Terra do que pode supor a nossa vã filosofia. Contudo, há quem insista na crença de que qualquer conhecimento não científico deve ser desqualificado. Primeiro: o que é conhecimento? Seria bom tentarem definir isso antes. Aristóteles, por exemplo, deu-se o trabalho de fazer estudos a esse respeito, o que mostra que não se trata de um conceito tão simples. Mas, independente dos estudos aristotélicos,  uma coisa é evidente para qualquer um de nós, quer conheçamos ou não um pouquinho do filósofo grego: nem todo conhecimento é científico e cada um de nós deveria se limitar apenas a fazer afirmações sobre aquilo que sabe. 

    Os artistas são dotados de muito conhecimento.  Um conhecimento plural. Parte desse conhecimento não é científico. Há técnicas, mas isso nao basta. Por exemplo, a criação de um poema não exige apenas técnica. É mais fácil, inclusive, resolver uma equação que escrever um poema! A equação se deduz. Mas, um poema, não. Se você pedir a um poeta para resolver uma equação, sei lá, do segundo grau, ele vai conseguir resolver. Mas, nem todo estudante de exatas será capaz de escrever um poema. 

   Além da Literatura, a Psicanálise apresenta inúmeras contribuições sobre a natureza humana mesmo sem ser considerada uma ciência.

    O que é o pressentimento? Quantas vezes não pressentimos que algo acontecerá e, de fato, acontece? O que é o sexto sentido materno? Ninguém consegue explicar essas coisas cientificamente. Contudo, ninguém vai dizer que não existem. E os nossos sentimentos? Qual a explicação deles? É científica? 

       A verdade é que não sabemos de quase nada nessa vida e quem acha que sabe muito tem grande chance de se tornar uma pessoa tola, apenas vaidosa. Uma pessoa bem bobona mesmo.

     Talvez já fosse suficiente ao ser humano estudar bastante,  mas sem deixar de também querer aprender a respeitar os outros. Vou dar um exemplo aqui: debochar da fé de alguma pessoa evangélica e inferiorizá-la. Existem motivos que levam uma pessoa a se tornar fanática. Descobrir quais são e falar sobre eles é não só mais respeitoso e honesto com essas pessoas, como também evidencia uma capacidade analítica de quem realiza a crítica. O que critica sem analisar, não critica. Ataca. E, mesmo se analisa, com que propósito o faz?

        Se partirmos do pressuposto de que as pessoas são livres e de que a fé delas nem sempre interfere na vida alheia, serem ofendidas sistematicamente é apenas um indício de que sofrem intolerância religiosa. 

   A fé das pessoas não interessa a ninguém. A fé por si só, não. A bomba atômica foi criada por pessoas religiosas, por acaso? Um cara que acredita em aromaterapia incomoda quem? Não é apenas a ética que importa em vez da fé de cada um?

        Detesto presenciar memes de algumas pessoas que estudam um pouquinho e já se consideram uma espécie de Umberto Eco. Essas pessoas riem da cultura indígena, do xamanismo, da crença de deuses da natureza. Riem de qualquer fé. Acham que apenas uma cultura é válida, que é a do homem branco europeu. E ainda acreditam que têm conhecimento. Se o tem, é de uma parte ínfima. Porque não conhecem o mínimo, que é o outro homem! Aliás, não conhecem nem a si. 

   Acho um porre essas páginas com memes envolvendo as ciências, geralmente criadas por estudantes de pós-graduação em exatas, que ficam tirando sarro da fé dos outros. E observo que não raras vezes recai sobre a fé das pessoas a quem o acesso a livros é pequeno. Nunca vi debocharem de gente poderosa. A propósito, nem sei qual o propósito de se querer debochar das pessoas. Prática de muito mau gosto. Memes políticos muito específicos como o do cara na frente do caminhão sao engraçados porque estão dentro de um contexto que dá sentido à questão retratada. Mas, pegar alguém pra bode expiatório por sua fé ou seja lá o que for é de um humor paupérrimo. Eu diria até que é falta de criatividade mesmo. E, principalmente, de respeito.

        Em tempo: o mundo não precisa mais de cientistas brilhantes que de artistas brilhantes. Não precisa mais de cientistas brilhantes que de homens justos. Precisamos mais mesmo é de pessoas com disposição para tornar esse mundo um lugar de menos ostentação e de mais amor. Essas páginas de memes científicos que zombam das pessoas têm como único propósito ostentar que seus membros fazem parte de uma casta especial. Coitados, né?  Enfim, espero que postem a foto do prêmio Nobel deles quando conseguirem realizar um grande feito para a humanidade. Enquanto isso não chegar, restar-lhes-á zombar da fé alheia. 

        Ah, e antes que me perguntem: eu não sou religiosa. Sou só alguém que detesta a cultura da ostentação e que acha o ateu fanático um poço sem fundo de intolerância e de vaidade. Verdadeiros iludidos consigo mesmos (o ápice da ilusão).

O ateu fundamentalista

     Tão chato quanto o fundamentalista religioso é o ateu fundamentalista. De um modo geral, todos devemos ter em mente que somos muito diferentes e que devemos aprender a nos suportarmos. Do contrário, teremos apenas brigas e isso é uma escolha das mais estúpidas. 

      Peguemos como exemplo o Facebook. Basta você gostar, sei lá, de astrologia, que uma pessoa acha realmente normal ela agredir gratuitamente você. Gratuitamente. Claro que agredir os outros gratuitamente não é uma postura de alguém razoável. Rir dos outros também não é.  Isso foi só um exemplo. Agora tome como exemplo o fundamentalismo evangélico. O que mais se vê sao memes de pessoas os criticando. Mas, uma análise social desse fenômeno religioso, que seria a única coisa útil a se falar sobre os fundamentalistas, isso nunca é feito. Boa parte das postagens referentes a isso são memes que inferiorizam e ridicularizam pessoas vitimas de pastores. 

        Qual o proposito de tocar num assunto sem apresentação de qualquer conjuntura aprofundada? Se a apresentação só visar à ridicularização dessas pessoas? A resposta é bem simples: VAIDADE. A necessidade nunca é discutir o problema e, sim, ser aplaudido ou aplaudida. Há uma necessidade gritante de se sentir superior, destacado, especial, mais inteligente que. Porém, se não é feita análise profunda das coisas que apresentam é porque, no fundo, não devem mesmo ser capazes de fazê-la. Do contrário, fariam-na. 

       Uma pessoa ter uma fé ou uma religião não a torna menos inteligente que um ateu. Newton era místico, Fernando Pessoa também. E ambos eram brilhantes. Mais brilhantes que todos os ateus do meu Facebook, por exemplo. 

   Os evangélicos correspondem a uma parcela considerável do eleitorado. Ainda assim, a maior preocupação dos "intelectuais de esquerda do Facebook" é unicamente rir deles. Santa ingenuidade, pois eles riem ainda mais de nós! Eles conseguem estremecer a democracia, se desejarem.  Mas, nós, nós não somos capazes de derrubá-los. Em outras palavras, os dignos de deboche acabam sendo nós. Simplesmente porque não sabemos lidar com esse problema.  Não adianta estudar o problema. É preciso tentar também resolvê-lo. Os palhaços somos nós, não eles. Eles estão conseguindo crescer cada vez mais politicamente. E apoiam majoritariamente a direita. Temos mesmo motivos para rir dessa gente?

Dos exageros

         Não sei se o que escrevo aqui será bem compreendido. Mas, vou tentar me fazer compreender. Eu escrevo bastante "textão" na minha timeline. É uma forma de esvaziar a mente e colocar o pensamento no papel para organizar as ideias, olhar para elas do lado de fora. No que tange à escrita, tenho muita ciência das minhas limitacões e vivo bem com a ciência que tenho delas. A meu ver, na maioria das vezes, eu só escrevo obviedades. Mas, apesar de serem obviedades, vivemos num mundo onde, infelizmente, mesmo as obviedades precisam ser ditas. Então eu as digo. Porque me parece necessário dizê-las. Porque já me angustiam não serem ditas. O mundo nos sufoca a esse ponto!

            Quando alguém com suficiente grau de instrução intelectual elogia em excesso um texto que eu sei muito bem que é apenas mediano, eu não fico lisonjeada não. A minha primeira impressão é a de que as mulheres são tão desprezadas em seus intelectos, que qualquer coisa que elas escreverem que faça algum sentido já parece algo extraordinário. Eu gostaria muito que a sociedade naturalizasse a capacidade intelectual de todos, sejam homens ou mulheres, a tal ponto de textos banais que escrevemos não serem tratados como epifanias por pessoas com instrução intelectual suficiente.  Elogios na direção contrária não apenas soam artificiais - o que me incomoda muitíssimo - como também soam ofensivos à inteligência das mulheres. Uma mulher que pensa é simplesmente uma mulher como qualquer outra. O que precisa estar claro é que todas as mulheres pensam, caras pálidas! Cada uma à sua maneira. Também deve ficar claro que a expressão "uma mulher inteligente" não é nadinha elogiosa. Muito pelo contrário, denigre o nosso gênero e é carregada de arrogância machista. Naturalizem isso. Porque sei que muitos homens com suficiente grau de instrução não param para pensar porque se impressionam tanto com textos, muitas vezes até óbvios, escritos por mulheres. Por que textos assim impressionam? 

           Então, a sugestão que dou é: quando elogiarem muito um texto, elogiem apenas aqueles que realmente forem super fodas. Esses sim. Esses fazem sentido receberem um elogio. Mas, textos medianos serem efusivamente elogiados é algo incômodo. A menos que os leitores não tenham instrução suficiente para perceberem que são óbvios. Mas, se têm tal instrução, a única coisa que justifica o elogio excessivo a um texto mediano não é a qualidade do texto e, sim, o fato de uma mulher ter conseguido escrevê-lo.  É a única explicação lógica para esse tipo de vislumbre. A outra explicação para elogios excessivos é o cortejo. Nesse caso, não há vislumbre. Há apenas a invenção do vislumbre para alimentar os egos das mulheres. Seja como for, sempre ficará evidente para as autoras quando um elogio não condiz com o mérito de seus textos. Por fim, cabe lembrar que nem todo mundo busca ter fãs. Há quem prefira  só ter amigos.

O heroísmo atual é a tirania, o heroísmo impiedoso

        Vocês também têm a impressão de que a humanidade está regredindo cognitivamente ou eu estou equivocada em minhas impressões? Parte considerável dos comentários sobre uma gama variada de temas não diz coisa com coisa. 
     Além disso, muita gente é atacada do nada. Veja o caso da Alane (BBB 24). O seu choro fez muita gente considerá-la falsa. Então chorar está deixando de ser uma ação natural dos seres humanos? Por que o choro é desacreditado? Por que a dor está se tornando tão desacreditada hoje em dia? 
   A imbecilidade e a quantidade de pessoas imbecis está me assustando. Claro que o voto em Bolsonaro e em Milei já deixam isso evidente. Vivemos uma época de regressão cognitiva, pois as mentes são induzidas à preguiça de pensar pela dependência excessiva do uso das tecnologias e pelo hábito de transformar tudo em objeto de consumo (inclusive, as pessoas já não se importam em serem objetos). Em contrapartida, todos sentem necessidade de serem protagonistas de algo. Do contrário, não se sentem vivos. Parece que ser vivo é ter alguma causa a defender, pouco importando saber profundamente a seu respeito. O problema maior é que esse protagonismo vem acompanhado da exclusão violenta do outro. 
      Os extremismos encontram um terreno muito fértil para angariarem apoiadores. A democracia sempre correrá riscos em uma sociedade que basicamente só se alimenta destas duas coisas: consumir e querer ser heroi. Há uma necessidade gritante de heroísmo, de empoderamento, de ser grandioso(a), de ser visto, de ter seguidores (discípulos). Não tendemos para sociedades mais autoritárias? O comportamento geral não corre para esse rio? 
     O momento atual é de tanto heroísmo, que a dor já passou a ser desacreditada e até mesmo perseguida. Quem sofre merece ser excluído sem dó. Porque é fraco ou é inútil. "Você é uma inútil aqui!", ouvimos essa frase sem pararmos para pensar o tanto de gravidade que ela traz em si mesma. O quanto de violência ela pode tantas vezes carregar. Os nazistas, por exemplo, matavam os "inúteis". Havia uma política de eliminação dos inúteis.



terça-feira, 16 de janeiro de 2024

O que é ter consideração por alguém?

Querid@s tod@s, como vocês estão? Tudo bem? Como foi o dia de vocês? Foi difícil? Árduo? Mas, teve alguma coisa que valeu a sua paciência? Me conte como foi o seu dia. Você parece cansado, ansioso. Está tudo bem? Quer conversar? Eu tenho algum tempinho, caso necessite conversar.

Assim começo esse texto que, prometo-lhes!, não será um textão chato. Falarei de coisas doces. Eu gosto de coisas doces.  Por exemplo, aprecio muito a gentileza e a consideração. A consideração é um tipo de gentileza.  E apesar de ser um sentimento sentir consideração por alguém, esse sentimento pode facilmente ser representado, manifestado em atitudes. A propósito, existe algum sentimento que não consegue ser expresso concretamente nunca? Bom, reflitam aí.

Hoje eu peguei um táxi. A temperatura do carro, geladinha. Como se não bastasse isso, o carro estava impecavelmente limpo e perfumado e uma música muito agradável tocava numa altura também agradável. O cenário era tão bom, que eu não tive a menor dúvida: esse táxi foi preparado para me receber! Eu, a passageira. Como não notar a gentileza do taxista com as pessoas que se sentarão naquelas poltronas? Um ranzinza diria: "mas, é a obrigação dele!". Ok. Concordo. Mas, é a obrigação de todos, mesmo que nem todos façam questão de cumpri-la! Então eu não contenho a minha alegria e faço questão de enfatizar que eu notei a importância dada a mim. Eu não apenas agradeço. Agradecer é ser educada. Não diz tudo que sinto. Eu expresso o que sinto. Eu digo, após pagar a conta do táxi: "Cara, que táxi bom o seu! Muito difícil se sentir tão bem tratada e considerada assim. Parabéns!". O taxista sorri, seus olhos brilham. Quantos passageiros não se sentirão bem ali? Todos se sentirão! Todos! Mas, quantos farão questão de lhe mostrar que ficaram plenamente satisfeitos com a viagem?  

Por que é tão difícil sermos justos? É mesmo tão difícil assim? E quando falo em "justos", refiro-me ao reconhecimento. Aquela pessoa se dedicou! Ela se esforçou! Ela merece a minha gentileza também. Sabe por que ela merece? Porque ela me fez bem e eu devo saber que o mundo não gira em torno de mim. Por que devo poupá-la da minha alegria? Ela merece saber. Ela, sim!

Quantas não são as mães e os pais que, mesmo exaustos, esforçam -se para deixar tudo perfeito para os filhos? Aquela comida saborosa que você come diariamente é feita com amor. É feita pra você gostar, ter prazer! Você gostou? Então diga! Digaaaa! Pode estar certo de que a pessoa se sentirá valorizada, ela se sentirá importante para você. Perceberá que você nota o carinho dela e o mais importante de tudo: que esse carinho te faz bem! Ah, mas, eu tenho que dizer todo dia? Tem! Se todo dia você tiver prazer, todo dia deve manifestar que tem prazer!

Consideração está, como a própria palavra diz, em considerar alguém, isto é, em considerá-la importante. A falta de consideração está, portanto, em manifestar que ela não tem importância alguma. E não pensem que é difícil perceber quem não tem consideração por nós. Quem não tem é aquela pessoa que NUNCA faz questão de ser gentil. Eu digo NUNCA porque um dia ou outro, as pessoas podem não mostrar mesmo gentileza. Mas, há pessoas que NUNCA mostram. Basta observar como ela trata os outros e como ela trata você, 

assim como observar se ela se mostra feliz quando você muito se esforça para deixá-la feliz! E eu não tô falando de pagar na mesma moeda!  Eu tô falando de, na hora em que você estiver feliz, tipo lançando um livro, se você pudesse dá-lo a alguém, para quem você daria? Pois é. As pessoas de quem você se lembrou são exatamente as pessoas que você considera!

Pra finalizar, enfatizo: tratar bem alguém é muito mais que não tratar muito mal. Tratar bem é buscar a satisfação do outro. 

Eu trato as pessoas bem. E eu trato muito bem as pessoas de quem eu realmente gosto. Essas, então, conseguem de mim tudo o que estiver ao meu alcance. Deste modo, se um dia eu me esforçar muito, dedicar muito do meu tempo, para deixar você feliz, a única coisa que me deixaria feliz é saber que você ficou mesmo feliz! Esse é o único prêmio que quem se dedica deseja. Nada mais que deixar você satisfeito! Então, se você, por acaso, gostou, mostre! Se ficou feliz, compartilhe comigo a sua alegria! A sua alegria me interessa. Do contrário, eu não teria me dedicado tanto!

sábado, 6 de janeiro de 2024

A autodescoberta

O escritor alemão Hermann Hesse disse, certa vez, que o caminho mais duro para o ser humano é aquele que o conduz a si mesmo. Talvez essa dificuldade se deva, em parte, ao fato de todos sermos seres inacabados. A gente não nasce com a personalidade pronta. Por isso, nunca somos. Nós sempre estamos. Mudamos a todo momento.

Existem sim características que nos são próprias, mas algumas adquirimos ao longo da vida e outras vamos largando no meio do caminho, quando consideramos que pesam essa grande mala que somos de nossa própria viagem. 

Cada um carrega apenas a sua mala, embora algumas vezes peguemos emprestadas coisas das malas daqueles que nos acompanham, que convivem conosco. Se não eliminarmos constantemente coisas que não nos servem, a mala vai ficando cada vez mais pesada. Você tem então duas necessidades básicas para a viagem não ser muito cansativa para si: saber aquilo que fica e aquilo que deve excluir da mala e saber para onde você está indo. 

Eu chamo o destino da viagem de consciência. Estamos indo cada vez mais para nós mesmos, para a nossa identidade. Quem somos nesse exato momento? Vou sentir mesmo prazer em conhecer a pessoa que sou hoje? A mala pesa? Você jogou fora justamente algo de que precisava para a viagem? E agora como você vai fazer para achar o que você perdeu? Em que ponto da estrada você jogou isso fora? Bom, terá de se virar sem isso. Talvez não encontre mais. Talvez, pelas circunstâncias, você tenha de aprender a se reinventar. 

Oscar Wilde dizia que o homem é uma criação de si mesmo. Ele se referia tanto às máscaras quanto ao fato de não sermos acabados.

No que diz respeito às máscaras, podemos observar que muitas vezes são confundidas com os próprios rostos. Há quem se apegue tanto à beleza das próprias máscaras, que já não consegue mais se interessar em conhecer o próprio rosto. Isso significa que não se conhecem, que acreditam numa imagem que criam para serem vistas. Inclusive - e talvez principalmente - por elas próprias. E essa máscara é mágica. Quanto mais a desejarmos, mais ela gruda à própria pele, desfigurando o nosso verdadeiro rosto. Não foi exatamente isso o que aconteceu com o retrato de Dorian Gray (leiam este livro do Wilde!)?

Não acreditemos nas máscaras. Quantas vezes nos julgamos exemplares, bondosos e respeitosos, mas tomamos atitudes, na verdade, pouco respeitosas a alguém? Muitas vezes o imperador não percebe que está nu, mesmo com toda a plateia já o vendo nuzinho da Silva (leiam o conto "A roupa nova do imperador", do Andersen). Ele admira uma roupa que ele acredita piamente que existe, por mais que nem ele mesmo seja capaz de vê-la. Mas, ele continua acreditando.

Não somos aquilo que pensamos ou queremos ser. Somos aquilo que fazemos. Lênin observou isto bem: a prática é o critério da verdade. Percebem como ele soluciona o problema? Se é o que somos, não depende do olhar de quem nos olha e, sim, das consequências dos nossos atos. Mas, calma. O que ele diz não é fatalista. Pelo contrário, é carregado de esperança. Uma vez que somos o que fazemos, sempre podemos mudar. Não nos bastará, porém, querer. Importa essencialmente aquilo que fazemos, o reconhecimento do caminho a ser percorrido na viagem. 

E a mala? Que carreguemos apenas o essencial. Quanto mais cheia, mais pesada fica. Temos de jogar muita coisa dos outros fora e muitas coisas nossas que já não nos servem mais. Em particular, aquelas nossas máscaras mais perfeitas.

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* Em tempo: leiam os clássicos!