Tenho visto, com reserva e preocupação, o entusiasmo de muita gente com Inteligências Artificiais, chatbots e tudo quanto é coisa que agiliza certos processos que todos somos plenamente capazes de executar. Estamos nos fazendo descartáveis e, para piorar, nos orgulhando disso. Eu não sou uma entusiasta de Inteligências nem sempre necessárias. Aliás, quando eu resolvo estudar alguma invenção humana, a primeira coisa que investigo é o porquê de ter sido criada. Por que foi necessário produzi-la?, eis uma pergunta crucial. Outra pergunta - e a mais importante - é que consequências o seu uso pode ter e quem as sofrerá.
Hoje me dei conta de que a pergunta sobre as necessidades parece não mais precisar ser feita, deixou de ser uma exigência. Produz-se muito - em particular, lixo eletrônico - sem justificativa alguma que, de fato, o valha, que convença. Gasta-se também um contingente considerável de energia elétrica para se gerenciar tamanha quantidade de dados.
Alguém saberia dizer por que a Alexa é necessária? E o ChatGpt? Que eles tenham utilidade, é uma coisa. Serem necessários já é outra. Ninguém deveria necessitar usar isso para conseguir informações. A consequência é que alunos já não conseguem sequer fazer uma pesquisa eficiente no Google Acadêmico. Estão focados nos resultados, não nos processos. Querem o resumo, querem ler. Vão aprender sobre o que o texto diz, sem dúvida. Mas, como pesquisar já será um desafio maior para eles do que era para a minha geração.
O trabalho excessivo criou uma necessidade para essas inteligências. Inteligências que não criam. Inteligências que compilam e copiam. Adeus direitos autorais. Elas agilizam processos. Essa é a utilidade delas. Resta a pergunta: por que agilizar processos que somos capazes de fazer? Os que não somos, tudo bem. Mas, para o que sabemos, isso significa regredir intelectualmente. Significa ir perdendo a capacidade de aprender a fazer sem uma dica, sem uma ajudinha. É a lei do menor esforço para poder se dar bem, para obter um resultado. Assim, até mesmo eticamente isso nos faz regredir. Uma ética, porém, contra nós próprios.
No ano passado, o Prêmio Jabuti foi retirado de um ilustrador. Motivo: ele havia sido erroneamente premiado por ilustrar a capa de um livro fazendo uso de Inteligência Artificial. Quem poderá dizer que foi realmente ele quem criou a ilustração? Dizer como se quer uma imagem e ajustá-la é o mesmo que criá-la? Ter o pleno domínio de uma máquina constroi um ilustrador ou um operário eficiente?
Recentemente, li que há Inteligências Artificiais que produzem planos de aula e também avaliações de aprendizagem. Os planos de aula, embora sejam aparentemente perfeitos, não substituem o trabalho de um professor. Afinal, nem tudo sai como se planeja quando um plano cria aulas a partir de um aluno padronizado. O professor terá de fazer ajustes. O ChatGpt, portanto, pode auxiliar. Mas, indispensável, indispensável ele não é. Ele apenas torna o processo de produção bem mais veloz. Muitos dos professores saberão como ajustar os parafusos, mas não como se montou o aparato que precisará de seus remendos. A justificativa para seu uso, porém, é legítima: facilita a vida de um profissional que precisa dar aulas em número excessivo para conseguir pagar as contas do mês seguinte. A necessidade é conseguir ser produtivo, mesmo sem fazer questão de elaborar um plano sozinho, coisa que lhe permitiria ser um profissional mais reflexivo sobre sua própria prática, sobre as suas próprias competências.
Um Iphone faz muito mais coisas de que seus usuários realmente necessitam (ou sabem) usar. Seus usuários, em média, só usam o básico do que o aparelho tem a oferecer. Poderiam ter qualquer outro aparelho, portanto. Mas, querem um Iphone. Porque Iphones são mais chiques, porque Iphones lhe conferem uma imagem melhor, de pessoa bem sucedida na vida, de pessoa "de sucesso". Antes mesmo de você terminar de pagar a última parcela do cartão de crédito que você usou para adquirí-lo, outro Iphone já estará sendo produzido e o seu se tornará obsoleto. Você vai notar que ele trava - e foi programado para isso, tá? Você parará para pensar que nunca precisou de todos os recursos que eles lhe oferecem? Não. Você não parará para pensar. Você não acha isso importante, você se desacostumou. Você faz questão é de não pensar, de usar ferramentas que o poupem deste trabalho. Você então se angustiará para comprar o modelo novo. O desejo o consumirá até que você consiga consumir o objeto que vem consumindo o seu cérebro e o seu coração. Você deseja o que grandes empresas decidem que você deve desejar. A sua mente já está sendo acessada e, assim, programada, para funcionar conforme a capacidade de seu bolso enriquecer quem quer ditar as regras da sua vida.
Ah, e não pense que não estão realmente ditando. A Prefeitura do Rio de Janeiro estampa orgulhosamente um contrato que fez com aplicativos que o informam se seu ônibus já está chegando. Eu acharia isso maravilhoso, se em todos os pontos de ônibus também houvesse a informação de que linhas passam por eles. Mas, não. Não é bem isso o que ocorre. Na sexta-feira passada, notei que os pontos em certo local da cidade já não disponibilizavam os números das linhas. Antes disponibilizavam. Hoje, não mais. Foram apagadas. Em seu lugar, um enorme código QR. Para se informar se seu ônibus passa lá, você é obrigado, portanto, a baixar aquele aplicativo. Notem: é uma imposição. Você não tem como escapar. Criaram uma necessidade que antes você não possuía. Unicamente para alguém lucrar em cima de você. Observe que se informassem o número da linha, você poderia não baixar o aplicativo por não se importar se está vindo ou não. Mas, o número do ônibus, o número do õnibus é uma informação, de fato, necessária.
Vejamos um outro exemplo, talvez mais fácil de você averiguar. Se você for a um supermercado, notará que para saber os ingredientes e funcionalidades de alguns produtos, precisará ler um código QR. Algumas pessoas, que não entendem muito a minha língua, dir-me-ão: "mas, os indivíduos precisam se adaptar às tecnologias.". Será mesmo que precisam? Será que não podem escolher abrir mão daquelas que realmente não julgam necessárias às suas vidas? Onde foi parar a liberdade de escolha? O nosso sagrado direito de decidir? Por que as informações que sempre estiveram nas embalagens agora não conseguem mais estar? As embalagens não diminuíram tanto assim de tamanho para que não as coubessem mais. Que explicação lógica há por trás dessa atitude, então? Fazer você baixar um aplicativo, fazer a empresa fazer "parte da sua vida", coletar dados seus. Afinal de contas, você é um consumidor. Não é um cidadão, posto que não tem voz. Mas, é um consumidor. Você é um produto de muito valor. E você é porque consome.
Note também que há uma seletividade. O mercado seleciona apenas os que podem ou querem ter o aplicativo tal. Milton Santos, um dos melhores geógrafos que o Brasil já conheceu, já dizia, há anos (!), que a globalização é seletiva. Alguns se mantém à sua margem, ela não chega a todos. A maioria da população mundial não tem acesso à alta tecnologia e nem mesmo à média. Mas, a energia que as empresas utilizam é de todos nós, assim como o lixo eletrônico que produzem para o meio ambiente. Poderíamos tomar a decisão de freá-las (não falo nem em pará-las, mas em saber usá-las), mas nos vendemos para manter os lucros de uma ínfima porcentagem de milionários que tentam legitimar que todos devam se curvar a eles e adorá-los, não importando os efeitos sociais e psicológicos dessa adoração. Aceitamos viver vidas viciadas que só geram desejos estúpidos e enriquecimento de quem mais nos faz mal do que bem, de quem invade diariamente a nossa privacidade. As redes sociais vendem tudo sobre você a quem lhes pagar para isso, empresas lhe ofertam diariamente serviços e produtos até mesmo por email - como sabem seu endereço?
Nos supermercados, muitos atendentes já são substituídos por máquinas, um tipo de chatbot - essas inteligências que simulam ações humanas. O que pouca gente percebe é que elas não apenas tiram o emprego de várias pessoas, como tornam atendentes os próprios consumidores! E trabalhamos de graça para eles, tá? Você acessa a máquina, passa cada produto, embala e paga. Ora, e não é esse o serviço do atendente? Substituem atendentes por consumidores. Somos realmente produtivos! Mas, produzimos para quem? Nós nos tornamos atendentes quando eles ficam sem o emprego. E ganhamos, ao menos, algum desconto por sermos funcionários temporários dessas empresas? Ganhamos? Não seria justo que usuários de autoatendimento ganhassem desconto nos produtos? Seria. Não é justo nos auto explorarmos. E se não é justo, então não faz sentido algum que aceitemos.
O que faz sentido mesmo é viver uma vida desacelerada, focada mais em qualidade que em pressa e em produtividade. Produtividade para quem?, perguntem-se! Qual o impacto da produtividade na vida de cada um de nós? Pensemos! Reservemos sempre um tempo do dia para pensar. Porque pensar nunca é um ato imediato. Precisamos de tempo, o nosso bem mais precioso. Esse bem que diariamente damos em demasia- e de graça - para as big techs.
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