terça-feira, 16 de abril de 2024

Uma estrelinha na testa para o ateu fanático

      O conhecimento científico não é o único conhecimento que existe. Já dizia Shakespeare, e com razão, que há muito mais entre o céu e a Terra do que pode supor a nossa vã filosofia. Contudo, há quem insista na crença de que qualquer conhecimento não científico deve ser desqualificado. Primeiro: o que é conhecimento? Seria bom tentarem definir isso antes. Aristóteles, por exemplo, deu-se o trabalho de fazer estudos a esse respeito, o que mostra que não se trata de um conceito tão simples. Mas, independente dos estudos aristotélicos,  uma coisa é evidente para qualquer um de nós, quer conheçamos ou não um pouquinho do filósofo grego: nem todo conhecimento é científico e cada um de nós deveria se limitar apenas a fazer afirmações sobre aquilo que sabe. 

    Os artistas são dotados de muito conhecimento.  Um conhecimento plural. Parte desse conhecimento não é científico. Há técnicas, mas isso nao basta. Por exemplo, a criação de um poema não exige apenas técnica. É mais fácil, inclusive, resolver uma equação que escrever um poema! A equação se deduz. Mas, um poema, não. Se você pedir a um poeta para resolver uma equação, sei lá, do segundo grau, ele vai conseguir resolver. Mas, nem todo estudante de exatas será capaz de escrever um poema. 

   Além da Literatura, a Psicanálise apresenta inúmeras contribuições sobre a natureza humana mesmo sem ser considerada uma ciência.

    O que é o pressentimento? Quantas vezes não pressentimos que algo acontecerá e, de fato, acontece? O que é o sexto sentido materno? Ninguém consegue explicar essas coisas cientificamente. Contudo, ninguém vai dizer que não existem. E os nossos sentimentos? Qual a explicação deles? É científica? 

       A verdade é que não sabemos de quase nada nessa vida e quem acha que sabe muito tem grande chance de se tornar uma pessoa tola, apenas vaidosa. Uma pessoa bem bobona mesmo.

     Talvez já fosse suficiente ao ser humano estudar bastante,  mas sem deixar de também querer aprender a respeitar os outros. Vou dar um exemplo aqui: debochar da fé de alguma pessoa evangélica e inferiorizá-la. Existem motivos que levam uma pessoa a se tornar fanática. Descobrir quais são e falar sobre eles é não só mais respeitoso e honesto com essas pessoas, como também evidencia uma capacidade analítica de quem realiza a crítica. O que critica sem analisar, não critica. Ataca. E, mesmo se analisa, com que propósito o faz?

        Se partirmos do pressuposto de que as pessoas são livres e de que a fé delas nem sempre interfere na vida alheia, serem ofendidas sistematicamente é apenas um indício de que sofrem intolerância religiosa. 

   A fé das pessoas não interessa a ninguém. A fé por si só, não. A bomba atômica foi criada por pessoas religiosas, por acaso? Um cara que acredita em aromaterapia incomoda quem? Não é apenas a ética que importa em vez da fé de cada um?

        Detesto presenciar memes de algumas pessoas que estudam um pouquinho e já se consideram uma espécie de Umberto Eco. Essas pessoas riem da cultura indígena, do xamanismo, da crença de deuses da natureza. Riem de qualquer fé. Acham que apenas uma cultura é válida, que é a do homem branco europeu. E ainda acreditam que têm conhecimento. Se o tem, é de uma parte ínfima. Porque não conhecem o mínimo, que é o outro homem! Aliás, não conhecem nem a si. 

   Acho um porre essas páginas com memes envolvendo as ciências, geralmente criadas por estudantes de pós-graduação em exatas, que ficam tirando sarro da fé dos outros. E observo que não raras vezes recai sobre a fé das pessoas a quem o acesso a livros é pequeno. Nunca vi debocharem de gente poderosa. A propósito, nem sei qual o propósito de se querer debochar das pessoas. Prática de muito mau gosto. Memes políticos muito específicos como o do cara na frente do caminhão sao engraçados porque estão dentro de um contexto que dá sentido à questão retratada. Mas, pegar alguém pra bode expiatório por sua fé ou seja lá o que for é de um humor paupérrimo. Eu diria até que é falta de criatividade mesmo. E, principalmente, de respeito.

        Em tempo: o mundo não precisa mais de cientistas brilhantes que de artistas brilhantes. Não precisa mais de cientistas brilhantes que de homens justos. Precisamos mais mesmo é de pessoas com disposição para tornar esse mundo um lugar de menos ostentação e de mais amor. Essas páginas de memes científicos que zombam das pessoas têm como único propósito ostentar que seus membros fazem parte de uma casta especial. Coitados, né?  Enfim, espero que postem a foto do prêmio Nobel deles quando conseguirem realizar um grande feito para a humanidade. Enquanto isso não chegar, restar-lhes-á zombar da fé alheia. 

        Ah, e antes que me perguntem: eu não sou religiosa. Sou só alguém que detesta a cultura da ostentação e que acha o ateu fanático um poço sem fundo de intolerância e de vaidade. Verdadeiros iludidos consigo mesmos (o ápice da ilusão).

Nenhum comentário:

Postar um comentário