Desde a militância que "enaltece a maturidade" mostrando que podemos vestir as mesmas roupas que vestiríamos se tívéssemos hoje vinte anos de idade, há quem resista à ideia de que mudar faz parte da vida. E quando digo que faz parte, digo que nós todos mudamos, independente do quanto a vida esteja estável ou não.
Quando se é mãe, divorciada, professora, pesquisadora, orientadora, coordenadora e se está escrevendo um livro a três mãos, a coisa para a qual você mais quer usar seu tempo é para sossegar um pouco. Sossegar é ler um romance, é ver um filme, é ir ao teatro, é ir ao cinema, é ir a um show agradável onde se possa ficar sentada, é fazer uma trilha e até mesmo pode ser sentar a bunda na cadeira e aproveitar o tempo para terminar aquele artigo porque você sabe que o prazo para submissão pode estar acabando.
Porém, há mulheres que ainda não entendem as que se enquadram no perfil do parágrafo anterior. Elas pensam de tudo sobre aquelas. Desde nerds bitoladas a mulheres sem pulsão de vida. Assustam-se com o fato de existirem mulheres que gostam de estudar. O espanto é tanto, que perguntam: "você não sente falta de um companheiro?". E quando você diz que companhias não são uma necessidade, mas um desejo, elas a olham como se você tivesse super poderes. Então elas dizem "Gostaria tanto de ser como você, sabe? Gostaria de não precisar dos homens".
Foi essa a frase que introduziu minha conversa, anteontem, com uma mulher que conheci no aniversário de um amigo. Algumas vezes ela me escreve no zap e é um doce de pessoa. Muito amável mesmo. Dentre tantas coisas que desabafava comigo ao longo da conversa, estava a falta que sentia de um ex-companheiro que foi bastante desleal com ela. Por mais que a relação tenha se encerrado há mais de dois anos, ainda sente falta da companhia dele. Decidi perguntar-lhe se ela ainda gostava do dito cujo e a resposta que ouvi me encucou: "não gosto, ele me fez muito mal; eu sinto falta é de ter um homem ao meu lado". A causa da dor dela, do vazio que, ao menos naquele momento, sentia, era não ter um homem. A inexistência de um homem faz seus dias tristes, sem emoção, desgostosos.
Voltemos, então, ao segundo parágrafo, aquele que fala da mulher que tenta aproveitar o tempo para escrever um artigo para publicação em revista acadêmica. Aquela que é mãe etc etc etc e que tem tanta coisa com que se preocupar na vida, que nem se lembra que está solteira. Essa mulher já sabe que homem algum é o centro de sua vida. Mais ainda: ela sabe que nenhuma outra mulher deveria ter isso em mente (e no coração), que homem algum deveria ser a principal razão da alegria, do bem estar, do entusiasmo de qualquer pessoa do sexo feminino. Contudo, a outra ainda se espanta. Ela tem dificuldade em perceber a naturalidade do prazer de uma mulher com seu trabalho e com sua pesquisa, isto é, a satisfação de uma mulher que, mesmo não tendo um companheiro, consegue se sentir feliz e entusiasmada com a vida.
Dentre todos os problemas presentes na péssima educação que nós, mulheres, costumamos receber desde que existe vida na Terra, está a capacidade de inúmeras ainda serem falocêntricas. O falo, mesmo após séculos de feminismo, ainda se mantém de pé. E muito de pé. Bem durinho mesmo. Tanto, que essa moça teve mãe feminista, militante, com doutorado em Psicanálise e o escambau, mas até hoje não compreendeu que seu valor está todinho em si mesma. Qual o mistério a ser descoberto pelos pais para educarem suas filhas para uma vida menos dependente emocionalmente dos homens? Quando todas as mulheres se sentirão bem, amadas ou não, solteiras ou não, simplesmente por desenvolverem o potencial que têm para tocarem suas vidas e seus projetos? Por que os projetos precisam ser sempre dos homens? Por que só eles devem protagonizar?
Por mais que tenhamos mil exemplos de protagonismo feminino, na prática, no dia a dia, muitas se espantam ainda com ele. Chegam até a não entender que você dizer que não precisa de um homem é muito diferente de você dizer que não quer um homem. Em outras palavras, uma coisa é querer, outra é precisar. E precisar, precisar nenhuma precisa!
Amor é sorte, gente. Uma hora pode acontecer ou nunca. E pode até mesmo acontecer e ser tão impossível de ser vivido, que passa a sobreviver platonicamente nas pessoas ou ser enterrado de vez. Seria bom todos encararem isso com mais naturalidade. O amor pode ser possível ou não. Mas, antes ele precisa existir. Enquanto não existir, ninguém deveria sofrer por ainda não encontrá-lo. Deixe para sofrer na hora em que ele se instalar de vez. Não faça do amor a única razão da sua felicidade, das suas ações cotidianas. Há muitos espaços que ainda nos esperam, mulherada!
Antes de cogitar ter um homem em sua casa, pense em você chegando e tendo de lavar a louça por dois. Pense em você terminando de lavar a louça e sendo interrompida em sua leitura a cada momento que sentar para ler e escrever. Já parou para pensar que você também precisa de tempo e de paz para produzir? Eu fiz essas perguntas para ela. Sei lá. Eu tinha a esperança de ela se convencer de que talvez fosse feliz e não soubesse. Vai saber? Você já parou para pensar nisso?, eu lhe indagava.
Depois de um tempo pensando, ela me fala que eu estou certa e que conversar comigo lhe fazia bem. Falou que muitos homens a bloqueavam, carinhas que conhecia nas redes ou em aplicativos - essas coisas que só gente muito otimista acredita que realmente funcione. Foi nessa hora que a libriana aqui meteu a louca para encerrar de vez o assunto, pois eu falava falava falava e pouco adiantavam as minhas palavras. Eram como paliativos, mas não lhe traziam nenhum tipo de cura.
"Nesses aplicativos você só vai achar gente querendo te comer. Se transar com algum e quiser amor, vai sofrer. Mais fácil contratar um garoto de programa. Alguns são bem carinhosos. Fora que eles ainda são profissionais, né?", falei-lhe. A reação dela foi de espanto. Uma nerd falando aquilo? Pois é. Eu a trolei mesmo com esse papo de garotos. Vocês ainda não sacaram que eu sou doidinha? Eu queria muito encerrar aquela conversa, gente, e escandalizar foi a única ideia que me passou pela cabeça. Fez-se um silêncio, uma pausa. Então notei que a minha estratégia funcionou. Bingo!
Hoje à tarde recebi um zap do nosso amigo em comum. Parabenizou-me e disse que ela passará a seguir os meus conselhos. Que bom!, exclamei. É ótimo ela perceber que os homens não devem ser o centro da vida dela! Foi então que ouvi a voz dele rindo no áudio: Raquel, ela está considerando se contrata um garoto de programa.
Ele riu e eu fiquei pensativa. De todos os conselhos dados por mim, ela pensa justamente no que eu lhe dei brincando! Como sei que sorte ela pouco terá, não lhe desejarei boa sorte. Seria uma perda de tempo. Que ao menos goze, então.
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