O escritor alemão Hermann Hesse disse, certa vez, que o caminho mais duro para o ser humano é aquele que o conduz a si mesmo. Talvez essa dificuldade se deva, em parte, ao fato de todos sermos seres inacabados. A gente não nasce com a personalidade pronta. Por isso, nunca somos. Nós sempre estamos. Mudamos a todo momento.
Existem sim características que nos são próprias, mas algumas adquirimos ao longo da vida e outras vamos largando no meio do caminho, quando consideramos que pesam essa grande mala que somos de nossa própria viagem.
Cada um carrega apenas a sua mala, embora algumas vezes peguemos emprestadas coisas das malas daqueles que nos acompanham, que convivem conosco. Se não eliminarmos constantemente coisas que não nos servem, a mala vai ficando cada vez mais pesada. Você tem então duas necessidades básicas para a viagem não ser muito cansativa para si: saber aquilo que fica e aquilo que deve excluir da mala e saber para onde você está indo.
Eu chamo o destino da viagem de consciência. Estamos indo cada vez mais para nós mesmos, para a nossa identidade. Quem somos nesse exato momento? Vou sentir mesmo prazer em conhecer a pessoa que sou hoje? A mala pesa? Você jogou fora justamente algo de que precisava para a viagem? E agora como você vai fazer para achar o que você perdeu? Em que ponto da estrada você jogou isso fora? Bom, terá de se virar sem isso. Talvez não encontre mais. Talvez, pelas circunstâncias, você tenha de aprender a se reinventar.
Oscar Wilde dizia que o homem é uma criação de si mesmo. Ele se referia tanto às máscaras quanto ao fato de não sermos acabados.
No que diz respeito às máscaras, podemos observar que muitas vezes são confundidas com os próprios rostos. Há quem se apegue tanto à beleza das próprias máscaras, que já não consegue mais se interessar em conhecer o próprio rosto. Isso significa que não se conhecem, que acreditam numa imagem que criam para serem vistas. Inclusive - e talvez principalmente - por elas próprias. E essa máscara é mágica. Quanto mais a desejarmos, mais ela gruda à própria pele, desfigurando o nosso verdadeiro rosto. Não foi exatamente isso o que aconteceu com o retrato de Dorian Gray (leiam este livro do Wilde!)?
Não acreditemos nas máscaras. Quantas vezes nos julgamos exemplares, bondosos e respeitosos, mas tomamos atitudes, na verdade, pouco respeitosas a alguém? Muitas vezes o imperador não percebe que está nu, mesmo com toda a plateia já o vendo nuzinho da Silva (leiam o conto "A roupa nova do imperador", do Andersen). Ele admira uma roupa que ele acredita piamente que existe, por mais que nem ele mesmo seja capaz de vê-la. Mas, ele continua acreditando.
Não somos aquilo que pensamos ou queremos ser. Somos aquilo que fazemos. Lênin observou isto bem: a prática é o critério da verdade. Percebem como ele soluciona o problema? Se é o que somos, não depende do olhar de quem nos olha e, sim, das consequências dos nossos atos. Mas, calma. O que ele diz não é fatalista. Pelo contrário, é carregado de esperança. Uma vez que somos o que fazemos, sempre podemos mudar. Não nos bastará, porém, querer. Importa essencialmente aquilo que fazemos, o reconhecimento do caminho a ser percorrido na viagem.
E a mala? Que carreguemos apenas o essencial. Quanto mais cheia, mais pesada fica. Temos de jogar muita coisa dos outros fora e muitas coisas nossas que já não nos servem mais. Em particular, aquelas nossas máscaras mais perfeitas.
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* Em tempo: leiam os clássicos!
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