quarta-feira, 17 de abril de 2024

Ninguém escapa

Lutar contra os sentimentos não é difícil. É até bastante fácil.  Difícil é lutar contra a razão. Porque a razão está ligada àquilo que se sabe, que se vê. Como negá-la? É ela que angustia. Ela é que mostra o que você preferia não ver. Mas, você vê. Infelizmente, você vê. De nada adianta tocar mantras e fazer meditação se diante de você, diariamente,  a dor de quem tem fome explode na sua cara, a dor de quem não tem casa explode na sua cara, a dor das milhares de crianças assassinadas na Palestina explode na sua cara. A única paz possível só existe com justiça social. Não vem da ioga. Vem de ver gente feliz. De nada adianta seu skincare, quando você sente seu rosto sujo do sangue dos homens.  O único amor em que você crê é o que socorre o outro. Todo o resto, pra você, virou um conto de fadas. É muito bonito, veste belas roupas de seda. Mas, não é consistente. Não é confiável. Só existe em condições ideais de temperatura e pressão. Acontece, entretanto, que a temperatura às vezes congela e a pressão pode se tornar muito alta à medida que se desce às profundezas do abismo. E o que você vê ao redor são só dor e memes. E você não quer ver nem a dor que santifica um homem e nem os memes que desanimam os seus olhos. Em quem confiar? De quem nunca desejar se esconder? Você se pergunta melancolicamente sem achar a resposta. A humanidade sempre consegue ferir você.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Uma estrelinha na testa para o ateu fanático

      O conhecimento científico não é o único conhecimento que existe. Já dizia Shakespeare, e com razão, que há muito mais entre o céu e a Terra do que pode supor a nossa vã filosofia. Contudo, há quem insista na crença de que qualquer conhecimento não científico deve ser desqualificado. Primeiro: o que é conhecimento? Seria bom tentarem definir isso antes. Aristóteles, por exemplo, deu-se o trabalho de fazer estudos a esse respeito, o que mostra que não se trata de um conceito tão simples. Mas, independente dos estudos aristotélicos,  uma coisa é evidente para qualquer um de nós, quer conheçamos ou não um pouquinho do filósofo grego: nem todo conhecimento é científico e cada um de nós deveria se limitar apenas a fazer afirmações sobre aquilo que sabe. 

    Os artistas são dotados de muito conhecimento.  Um conhecimento plural. Parte desse conhecimento não é científico. Há técnicas, mas isso nao basta. Por exemplo, a criação de um poema não exige apenas técnica. É mais fácil, inclusive, resolver uma equação que escrever um poema! A equação se deduz. Mas, um poema, não. Se você pedir a um poeta para resolver uma equação, sei lá, do segundo grau, ele vai conseguir resolver. Mas, nem todo estudante de exatas será capaz de escrever um poema. 

   Além da Literatura, a Psicanálise apresenta inúmeras contribuições sobre a natureza humana mesmo sem ser considerada uma ciência.

    O que é o pressentimento? Quantas vezes não pressentimos que algo acontecerá e, de fato, acontece? O que é o sexto sentido materno? Ninguém consegue explicar essas coisas cientificamente. Contudo, ninguém vai dizer que não existem. E os nossos sentimentos? Qual a explicação deles? É científica? 

       A verdade é que não sabemos de quase nada nessa vida e quem acha que sabe muito tem grande chance de se tornar uma pessoa tola, apenas vaidosa. Uma pessoa bem bobona mesmo.

     Talvez já fosse suficiente ao ser humano estudar bastante,  mas sem deixar de também querer aprender a respeitar os outros. Vou dar um exemplo aqui: debochar da fé de alguma pessoa evangélica e inferiorizá-la. Existem motivos que levam uma pessoa a se tornar fanática. Descobrir quais são e falar sobre eles é não só mais respeitoso e honesto com essas pessoas, como também evidencia uma capacidade analítica de quem realiza a crítica. O que critica sem analisar, não critica. Ataca. E, mesmo se analisa, com que propósito o faz?

        Se partirmos do pressuposto de que as pessoas são livres e de que a fé delas nem sempre interfere na vida alheia, serem ofendidas sistematicamente é apenas um indício de que sofrem intolerância religiosa. 

   A fé das pessoas não interessa a ninguém. A fé por si só, não. A bomba atômica foi criada por pessoas religiosas, por acaso? Um cara que acredita em aromaterapia incomoda quem? Não é apenas a ética que importa em vez da fé de cada um?

        Detesto presenciar memes de algumas pessoas que estudam um pouquinho e já se consideram uma espécie de Umberto Eco. Essas pessoas riem da cultura indígena, do xamanismo, da crença de deuses da natureza. Riem de qualquer fé. Acham que apenas uma cultura é válida, que é a do homem branco europeu. E ainda acreditam que têm conhecimento. Se o tem, é de uma parte ínfima. Porque não conhecem o mínimo, que é o outro homem! Aliás, não conhecem nem a si. 

   Acho um porre essas páginas com memes envolvendo as ciências, geralmente criadas por estudantes de pós-graduação em exatas, que ficam tirando sarro da fé dos outros. E observo que não raras vezes recai sobre a fé das pessoas a quem o acesso a livros é pequeno. Nunca vi debocharem de gente poderosa. A propósito, nem sei qual o propósito de se querer debochar das pessoas. Prática de muito mau gosto. Memes políticos muito específicos como o do cara na frente do caminhão sao engraçados porque estão dentro de um contexto que dá sentido à questão retratada. Mas, pegar alguém pra bode expiatório por sua fé ou seja lá o que for é de um humor paupérrimo. Eu diria até que é falta de criatividade mesmo. E, principalmente, de respeito.

        Em tempo: o mundo não precisa mais de cientistas brilhantes que de artistas brilhantes. Não precisa mais de cientistas brilhantes que de homens justos. Precisamos mais mesmo é de pessoas com disposição para tornar esse mundo um lugar de menos ostentação e de mais amor. Essas páginas de memes científicos que zombam das pessoas têm como único propósito ostentar que seus membros fazem parte de uma casta especial. Coitados, né?  Enfim, espero que postem a foto do prêmio Nobel deles quando conseguirem realizar um grande feito para a humanidade. Enquanto isso não chegar, restar-lhes-á zombar da fé alheia. 

        Ah, e antes que me perguntem: eu não sou religiosa. Sou só alguém que detesta a cultura da ostentação e que acha o ateu fanático um poço sem fundo de intolerância e de vaidade. Verdadeiros iludidos consigo mesmos (o ápice da ilusão).

O ateu fundamentalista

     Tão chato quanto o fundamentalista religioso é o ateu fundamentalista. De um modo geral, todos devemos ter em mente que somos muito diferentes e que devemos aprender a nos suportarmos. Do contrário, teremos apenas brigas e isso é uma escolha das mais estúpidas. 

      Peguemos como exemplo o Facebook. Basta você gostar, sei lá, de astrologia, que uma pessoa acha realmente normal ela agredir gratuitamente você. Gratuitamente. Claro que agredir os outros gratuitamente não é uma postura de alguém razoável. Rir dos outros também não é.  Isso foi só um exemplo. Agora tome como exemplo o fundamentalismo evangélico. O que mais se vê sao memes de pessoas os criticando. Mas, uma análise social desse fenômeno religioso, que seria a única coisa útil a se falar sobre os fundamentalistas, isso nunca é feito. Boa parte das postagens referentes a isso são memes que inferiorizam e ridicularizam pessoas vitimas de pastores. 

        Qual o proposito de tocar num assunto sem apresentação de qualquer conjuntura aprofundada? Se a apresentação só visar à ridicularização dessas pessoas? A resposta é bem simples: VAIDADE. A necessidade nunca é discutir o problema e, sim, ser aplaudido ou aplaudida. Há uma necessidade gritante de se sentir superior, destacado, especial, mais inteligente que. Porém, se não é feita análise profunda das coisas que apresentam é porque, no fundo, não devem mesmo ser capazes de fazê-la. Do contrário, fariam-na. 

       Uma pessoa ter uma fé ou uma religião não a torna menos inteligente que um ateu. Newton era místico, Fernando Pessoa também. E ambos eram brilhantes. Mais brilhantes que todos os ateus do meu Facebook, por exemplo. 

   Os evangélicos correspondem a uma parcela considerável do eleitorado. Ainda assim, a maior preocupação dos "intelectuais de esquerda do Facebook" é unicamente rir deles. Santa ingenuidade, pois eles riem ainda mais de nós! Eles conseguem estremecer a democracia, se desejarem.  Mas, nós, nós não somos capazes de derrubá-los. Em outras palavras, os dignos de deboche acabam sendo nós. Simplesmente porque não sabemos lidar com esse problema.  Não adianta estudar o problema. É preciso tentar também resolvê-lo. Os palhaços somos nós, não eles. Eles estão conseguindo crescer cada vez mais politicamente. E apoiam majoritariamente a direita. Temos mesmo motivos para rir dessa gente?

Dos exageros

         Não sei se o que escrevo aqui será bem compreendido. Mas, vou tentar me fazer compreender. Eu escrevo bastante "textão" na minha timeline. É uma forma de esvaziar a mente e colocar o pensamento no papel para organizar as ideias, olhar para elas do lado de fora. No que tange à escrita, tenho muita ciência das minhas limitacões e vivo bem com a ciência que tenho delas. A meu ver, na maioria das vezes, eu só escrevo obviedades. Mas, apesar de serem obviedades, vivemos num mundo onde, infelizmente, mesmo as obviedades precisam ser ditas. Então eu as digo. Porque me parece necessário dizê-las. Porque já me angustiam não serem ditas. O mundo nos sufoca a esse ponto!

            Quando alguém com suficiente grau de instrução intelectual elogia em excesso um texto que eu sei muito bem que é apenas mediano, eu não fico lisonjeada não. A minha primeira impressão é a de que as mulheres são tão desprezadas em seus intelectos, que qualquer coisa que elas escreverem que faça algum sentido já parece algo extraordinário. Eu gostaria muito que a sociedade naturalizasse a capacidade intelectual de todos, sejam homens ou mulheres, a tal ponto de textos banais que escrevemos não serem tratados como epifanias por pessoas com instrução intelectual suficiente.  Elogios na direção contrária não apenas soam artificiais - o que me incomoda muitíssimo - como também soam ofensivos à inteligência das mulheres. Uma mulher que pensa é simplesmente uma mulher como qualquer outra. O que precisa estar claro é que todas as mulheres pensam, caras pálidas! Cada uma à sua maneira. Também deve ficar claro que a expressão "uma mulher inteligente" não é nadinha elogiosa. Muito pelo contrário, denigre o nosso gênero e é carregada de arrogância machista. Naturalizem isso. Porque sei que muitos homens com suficiente grau de instrução não param para pensar porque se impressionam tanto com textos, muitas vezes até óbvios, escritos por mulheres. Por que textos assim impressionam? 

           Então, a sugestão que dou é: quando elogiarem muito um texto, elogiem apenas aqueles que realmente forem super fodas. Esses sim. Esses fazem sentido receberem um elogio. Mas, textos medianos serem efusivamente elogiados é algo incômodo. A menos que os leitores não tenham instrução suficiente para perceberem que são óbvios. Mas, se têm tal instrução, a única coisa que justifica o elogio excessivo a um texto mediano não é a qualidade do texto e, sim, o fato de uma mulher ter conseguido escrevê-lo.  É a única explicação lógica para esse tipo de vislumbre. A outra explicação para elogios excessivos é o cortejo. Nesse caso, não há vislumbre. Há apenas a invenção do vislumbre para alimentar os egos das mulheres. Seja como for, sempre ficará evidente para as autoras quando um elogio não condiz com o mérito de seus textos. Por fim, cabe lembrar que nem todo mundo busca ter fãs. Há quem prefira  só ter amigos.

O heroísmo atual é a tirania, o heroísmo impiedoso

        Vocês também têm a impressão de que a humanidade está regredindo cognitivamente ou eu estou equivocada em minhas impressões? Parte considerável dos comentários sobre uma gama variada de temas não diz coisa com coisa. 
     Além disso, muita gente é atacada do nada. Veja o caso da Alane (BBB 24). O seu choro fez muita gente considerá-la falsa. Então chorar está deixando de ser uma ação natural dos seres humanos? Por que o choro é desacreditado? Por que a dor está se tornando tão desacreditada hoje em dia? 
   A imbecilidade e a quantidade de pessoas imbecis está me assustando. Claro que o voto em Bolsonaro e em Milei já deixam isso evidente. Vivemos uma época de regressão cognitiva, pois as mentes são induzidas à preguiça de pensar pela dependência excessiva do uso das tecnologias e pelo hábito de transformar tudo em objeto de consumo (inclusive, as pessoas já não se importam em serem objetos). Em contrapartida, todos sentem necessidade de serem protagonistas de algo. Do contrário, não se sentem vivos. Parece que ser vivo é ter alguma causa a defender, pouco importando saber profundamente a seu respeito. O problema maior é que esse protagonismo vem acompanhado da exclusão violenta do outro. 
      Os extremismos encontram um terreno muito fértil para angariarem apoiadores. A democracia sempre correrá riscos em uma sociedade que basicamente só se alimenta destas duas coisas: consumir e querer ser heroi. Há uma necessidade gritante de heroísmo, de empoderamento, de ser grandioso(a), de ser visto, de ter seguidores (discípulos). Não tendemos para sociedades mais autoritárias? O comportamento geral não corre para esse rio? 
     O momento atual é de tanto heroísmo, que a dor já passou a ser desacreditada e até mesmo perseguida. Quem sofre merece ser excluído sem dó. Porque é fraco ou é inútil. "Você é uma inútil aqui!", ouvimos essa frase sem pararmos para pensar o tanto de gravidade que ela traz em si mesma. O quanto de violência ela pode tantas vezes carregar. Os nazistas, por exemplo, matavam os "inúteis". Havia uma política de eliminação dos inúteis.



terça-feira, 16 de janeiro de 2024

O que é ter consideração por alguém?

Querid@s tod@s, como vocês estão? Tudo bem? Como foi o dia de vocês? Foi difícil? Árduo? Mas, teve alguma coisa que valeu a sua paciência? Me conte como foi o seu dia. Você parece cansado, ansioso. Está tudo bem? Quer conversar? Eu tenho algum tempinho, caso necessite conversar.

Assim começo esse texto que, prometo-lhes!, não será um textão chato. Falarei de coisas doces. Eu gosto de coisas doces.  Por exemplo, aprecio muito a gentileza e a consideração. A consideração é um tipo de gentileza.  E apesar de ser um sentimento sentir consideração por alguém, esse sentimento pode facilmente ser representado, manifestado em atitudes. A propósito, existe algum sentimento que não consegue ser expresso concretamente nunca? Bom, reflitam aí.

Hoje eu peguei um táxi. A temperatura do carro, geladinha. Como se não bastasse isso, o carro estava impecavelmente limpo e perfumado e uma música muito agradável tocava numa altura também agradável. O cenário era tão bom, que eu não tive a menor dúvida: esse táxi foi preparado para me receber! Eu, a passageira. Como não notar a gentileza do taxista com as pessoas que se sentarão naquelas poltronas? Um ranzinza diria: "mas, é a obrigação dele!". Ok. Concordo. Mas, é a obrigação de todos, mesmo que nem todos façam questão de cumpri-la! Então eu não contenho a minha alegria e faço questão de enfatizar que eu notei a importância dada a mim. Eu não apenas agradeço. Agradecer é ser educada. Não diz tudo que sinto. Eu expresso o que sinto. Eu digo, após pagar a conta do táxi: "Cara, que táxi bom o seu! Muito difícil se sentir tão bem tratada e considerada assim. Parabéns!". O taxista sorri, seus olhos brilham. Quantos passageiros não se sentirão bem ali? Todos se sentirão! Todos! Mas, quantos farão questão de lhe mostrar que ficaram plenamente satisfeitos com a viagem?  

Por que é tão difícil sermos justos? É mesmo tão difícil assim? E quando falo em "justos", refiro-me ao reconhecimento. Aquela pessoa se dedicou! Ela se esforçou! Ela merece a minha gentileza também. Sabe por que ela merece? Porque ela me fez bem e eu devo saber que o mundo não gira em torno de mim. Por que devo poupá-la da minha alegria? Ela merece saber. Ela, sim!

Quantas não são as mães e os pais que, mesmo exaustos, esforçam -se para deixar tudo perfeito para os filhos? Aquela comida saborosa que você come diariamente é feita com amor. É feita pra você gostar, ter prazer! Você gostou? Então diga! Digaaaa! Pode estar certo de que a pessoa se sentirá valorizada, ela se sentirá importante para você. Perceberá que você nota o carinho dela e o mais importante de tudo: que esse carinho te faz bem! Ah, mas, eu tenho que dizer todo dia? Tem! Se todo dia você tiver prazer, todo dia deve manifestar que tem prazer!

Consideração está, como a própria palavra diz, em considerar alguém, isto é, em considerá-la importante. A falta de consideração está, portanto, em manifestar que ela não tem importância alguma. E não pensem que é difícil perceber quem não tem consideração por nós. Quem não tem é aquela pessoa que NUNCA faz questão de ser gentil. Eu digo NUNCA porque um dia ou outro, as pessoas podem não mostrar mesmo gentileza. Mas, há pessoas que NUNCA mostram. Basta observar como ela trata os outros e como ela trata você, 

assim como observar se ela se mostra feliz quando você muito se esforça para deixá-la feliz! E eu não tô falando de pagar na mesma moeda!  Eu tô falando de, na hora em que você estiver feliz, tipo lançando um livro, se você pudesse dá-lo a alguém, para quem você daria? Pois é. As pessoas de quem você se lembrou são exatamente as pessoas que você considera!

Pra finalizar, enfatizo: tratar bem alguém é muito mais que não tratar muito mal. Tratar bem é buscar a satisfação do outro. 

Eu trato as pessoas bem. E eu trato muito bem as pessoas de quem eu realmente gosto. Essas, então, conseguem de mim tudo o que estiver ao meu alcance. Deste modo, se um dia eu me esforçar muito, dedicar muito do meu tempo, para deixar você feliz, a única coisa que me deixaria feliz é saber que você ficou mesmo feliz! Esse é o único prêmio que quem se dedica deseja. Nada mais que deixar você satisfeito! Então, se você, por acaso, gostou, mostre! Se ficou feliz, compartilhe comigo a sua alegria! A sua alegria me interessa. Do contrário, eu não teria me dedicado tanto!

sábado, 6 de janeiro de 2024

A autodescoberta

O escritor alemão Hermann Hesse disse, certa vez, que o caminho mais duro para o ser humano é aquele que o conduz a si mesmo. Talvez essa dificuldade se deva, em parte, ao fato de todos sermos seres inacabados. A gente não nasce com a personalidade pronta. Por isso, nunca somos. Nós sempre estamos. Mudamos a todo momento.

Existem sim características que nos são próprias, mas algumas adquirimos ao longo da vida e outras vamos largando no meio do caminho, quando consideramos que pesam essa grande mala que somos de nossa própria viagem. 

Cada um carrega apenas a sua mala, embora algumas vezes peguemos emprestadas coisas das malas daqueles que nos acompanham, que convivem conosco. Se não eliminarmos constantemente coisas que não nos servem, a mala vai ficando cada vez mais pesada. Você tem então duas necessidades básicas para a viagem não ser muito cansativa para si: saber aquilo que fica e aquilo que deve excluir da mala e saber para onde você está indo. 

Eu chamo o destino da viagem de consciência. Estamos indo cada vez mais para nós mesmos, para a nossa identidade. Quem somos nesse exato momento? Vou sentir mesmo prazer em conhecer a pessoa que sou hoje? A mala pesa? Você jogou fora justamente algo de que precisava para a viagem? E agora como você vai fazer para achar o que você perdeu? Em que ponto da estrada você jogou isso fora? Bom, terá de se virar sem isso. Talvez não encontre mais. Talvez, pelas circunstâncias, você tenha de aprender a se reinventar. 

Oscar Wilde dizia que o homem é uma criação de si mesmo. Ele se referia tanto às máscaras quanto ao fato de não sermos acabados.

No que diz respeito às máscaras, podemos observar que muitas vezes são confundidas com os próprios rostos. Há quem se apegue tanto à beleza das próprias máscaras, que já não consegue mais se interessar em conhecer o próprio rosto. Isso significa que não se conhecem, que acreditam numa imagem que criam para serem vistas. Inclusive - e talvez principalmente - por elas próprias. E essa máscara é mágica. Quanto mais a desejarmos, mais ela gruda à própria pele, desfigurando o nosso verdadeiro rosto. Não foi exatamente isso o que aconteceu com o retrato de Dorian Gray (leiam este livro do Wilde!)?

Não acreditemos nas máscaras. Quantas vezes nos julgamos exemplares, bondosos e respeitosos, mas tomamos atitudes, na verdade, pouco respeitosas a alguém? Muitas vezes o imperador não percebe que está nu, mesmo com toda a plateia já o vendo nuzinho da Silva (leiam o conto "A roupa nova do imperador", do Andersen). Ele admira uma roupa que ele acredita piamente que existe, por mais que nem ele mesmo seja capaz de vê-la. Mas, ele continua acreditando.

Não somos aquilo que pensamos ou queremos ser. Somos aquilo que fazemos. Lênin observou isto bem: a prática é o critério da verdade. Percebem como ele soluciona o problema? Se é o que somos, não depende do olhar de quem nos olha e, sim, das consequências dos nossos atos. Mas, calma. O que ele diz não é fatalista. Pelo contrário, é carregado de esperança. Uma vez que somos o que fazemos, sempre podemos mudar. Não nos bastará, porém, querer. Importa essencialmente aquilo que fazemos, o reconhecimento do caminho a ser percorrido na viagem. 

E a mala? Que carreguemos apenas o essencial. Quanto mais cheia, mais pesada fica. Temos de jogar muita coisa dos outros fora e muitas coisas nossas que já não nos servem mais. Em particular, aquelas nossas máscaras mais perfeitas.

------

* Em tempo: leiam os clássicos!