sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Seja bom e ganhe um inimigo

Para parte considerável das pessoas, não é suficiente que estejam bem e, sim, sempre melhor que as outras. Isso conduz o modo como costumam medir a própria grandeza. Não pelo que são, mas pelo que são em comparação às demais. Não foi à toa que Oscar Wilde disse que para se conquistar um inimigo é suficiente ser uma boa pessoa para ele. De fato, muita gente troca a gratidão pela sensação de dever favores a quem é legal com elas. Assim, em vez de reconhecimento ou gratidão, sentem-se é pequenas. E contam os dias para devolverem quaisquer ajudas que recebem. A ajuda as incomoda. Odeiam precisar de ajuda. Não a aceitam com alegria e, sim, com tristeza ou vergonha. Eu fico pensando nisso porque entendo que para sermos amados precisamos saber receber amor sem jogar pedras nos outros. Nunca sei o que é mais difícil ao ser humano, se é amar ou se é aceitar ser amado.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Um viva aos cariocas!

Ontem eu postei um vídeo sobre ser um "carioca da gema", no Facebook e no meu story do Instagram. Agora há pouco recebo lá o seguinte comentário de um belorizontino e, portanto, meu conterrâneo: "Antipáticos desde a tenra idade". Respondi, obviamente, que discordo dessa visão sobre os cariocas. 

Moro no Rio há dezessete anos. A cultura é bem diferente da cultura em BH. A cidade é bem mais caótica. Mas, nem por isso pouco acolhedora. O Rio tem pessoas de todas as partes do país, algo mais difícil de se ter em BH, por exemplo. 

Noto que o fato de o carioca se orgulhar muito de ser carioca sempre incomodou o bairrista belorizontino. Sim. Porque o belorizontino é extremamente bairrista, né? Sabe-se lá porque considera que as outras populações se acharem o máximo afeta a sua vida em alguma coisa. 

Morei em BH até os meus vinte e cinco anos. Lá eu sentia que as pessoas sempre se preocupavam se a grama do vizinho era mais verde. Aqui no Rio as pessoas não se preocupam tanto com a grama do vizinho. Afinal, quem tem praias tão lindas vai se preocupar com grama de vizinho? 

O carioca é veloz, é objetivo e é despojado. Não anda arrumadinho como os belorizontinos. Aqui o uniforme é regata, bermuda, chinelo e óculos escuros. O carioca gosta de curtir a vida e isso transparece em seu sotaque cheio de ginga. O carioca fala como se estivesse sambando. E, mais importante, o carioca não repara na roupa dos outros como os belorizontinos reparam. 

Enquanto os mineiros puxam papo com os "forasteiros" (gente de outras cidades) o tempo todo, sempre tentando oferecer um pão-de-queijo e um café pra puxar a sua língua, o carioca deixa o café na mesa para que você se sirva, sem nenhum tipo de cerimônia. O carioca não pergunta sobre sua vida, não pergunta o que você está fazendo, não pergunta nem de onde você veio. O carioca percebe pelo teu sotaque e te oferece um Guaravita gelado. O carioca não alonga a conversa. O carioca precisa aproveitar o tempo para dar um mergulho. E ele vai dar um, dois, três. 

O carioca é alegre, bem humorado, bronzeado, feliz. O carioca sequer se importa se alguém o acha marrento. O carioca se encherá mais ainda de orgulho disso, prezado belorizontino. 

O carioca é carioca. E isso não é pra qualquer um. Por fim, devo dizer que tenho um filho carioca e ainda em tenra idade. E, portanto, quero que vá à merda quem disser que cariocas são antipáticos desde a tenra idade. Ou, em bom mineirês, que vá pastar!

O advogado do diabo

O que mais me impressiona é a quantidade de gente que vai a missas e que admira pessoas responsáveis pela implantação de governos tiranos. Governos que torturam pessoas, que deixam crianças órfãs. Pessoas moralmente deploráveis aplaudidas de pé por cristãos de meia tigela. Repito: de pé, por cristãos de meia tigela. 

Esse troço de pagar de bonzinho, de pregador da paz, mas ao mesmo tempo enaltecer criminosos de guerra revela, pelo menos aos meus olhos, um contrasenso enorme. Há algo errado em um comportamento assim, pois é um comportamento muito hipócrita. A menos que ser hipócrita não seja mais um problema moral, a hipocrisia deve levar uma pessoa crítica a buscar entender porque está sendo contraditória. Pode fazer Psicanálise ou pode perguntar como as outras pessoas a enxergam, para tentar ver se a imagem linda que tem de si mesma coincide com o que os outros percebem. Ou será que acham que ninguém percebe? 

Incomoda-me também a covardia que demonstram ao negarem os motivos que as levam a admirarem canalhas. Ninguém deve justificar porque admira um canalha. Afinal, todos temos direito de admirar canalhas. Mas, é muito feio fingir que não admira. É bonito quando assumimos nossa posição se admirarmos um canalha a ponto de nos preocuparmos tanto em enaltecê-lo, a ponto de nos preocuparmos tanto em homenageá-lo. Assumir a admiração já explícita em vez de covardemente, hipocritamente, negá-la. Todos já estão vendo. O rei está nu.

"A vaidade é o meu pecado favorito", disse Milton, personagem do Al Pacino em "O advogado do diabo". E a vaidade, sobretudo a acadêmica, a intelectual, faz com que muitos esqueçam os crimes de guerra de outro acadêmico para tentar valorizar um intelecto que nunca é colocado em prática nem mesmo pelo próprio "intelectual". Em outras palavras, nem o aplaudido por bajuladores acredita em si mesmo. Os bajuladores lhe engraxam os sapatos sujos de sangue, lustrando-os para que algo brilhe em uma criatura detestável. 

Sempre haverá tempo para uma pessoa cristã entender que Cristo e Kissinger não falam a mesma língua. E sempre haverá tempo para quem se acha impecável perceber que também peca. Segundo o apóstolo Mateus, mais precisamente no capítulo 6, versículo 21 de seu Evangelho: onde está o seu tesouro, aí está também o seu coração. Deste modo, aquilo que você valoriza é exatamente aquilo que você ama. Não se pode valorizar, portanto, quem faz guerras e amar Cristo, pois Cristo jamais passaria pano para criminosos de guerra. Ou se valoriza um tirano ou se valoriza Cristo. Ambos são muito antagônicos para serem simultaneamente defendidos. Assim,  façamos um brinde à vaidade! Ela quase sempre vence o homem e o joga abruptamente no chão. A vaidade, a formidável vaidade. O pecado favorito dos advogados do diabo.

A linguagem e a argumentação

Uma das características mais marcantes de qualquer matemático é saber identificar falhas em uma argumentação. Isso se deve à sua formação, que lida com raciocínio formal lógico-dedutivo o tempo todo. Deste modo, somos muito atentos ao "se, então", ou seja, a analisar se, de fato, uma coisa realmente implica na outra.
 
No filme "O desafio de Marguerite", a protagonista é xingada pela  instrutora de um curso para vendas por sugerir que ela mudasse o enunciado, que era incongruente. Na vida real, isso também acontece o tempo todo. Vira e mexe, eu recebo grosserias ou sou excluída porque ousei observar falhas na argumentação de pessoas que fazem afirmações meramente especulativas. 

Ora, isso mostra que tais pessoas não estão preocupadas com o estudo da coisa em si, mas apenas em serem olavos de carvalho da vida, desejosas de brilho filosófico sem argumentos que justifiquem tal brilho. O que na matemática ou mesmo entre cientistas é corriqueiro e plenamente aceito - muitas vezes até com gratidão -, não o é entre a maioria das pessoas. 

A Ciência e a Filosofia estão acima dos egos pessoais. Ontem eu dei um comentário absolutamente pertinente, que foi atacado por um cara sem que houvesse falha alguma no que foi expresso por mim. Ao perceber que ele não compreendia o que eu dizia, mostrei-lhe um contraexemplo para perceber onde estava a sua falha de raciocínio. Minha intenção? Nenhuma. Isso faz parte do ato de pensar, da argumentação. É algo tão natural como respirar. 

Não houve grosseria alguma da minha parte. Apenas expressei meu pensamento em uma postagem pública que afirmava universalmente uma coisa sem contextualizá-la histórica e, sobretudo, socialmente. Apresentei um contraexemplo e fui excluída porque sou uma mulher "que ousa pensar" e sempre se expressar entre pessoas que, ao fim, acabo percebendo que agem com estupidez. E com estupidez não por falhas de argumentação (afinal, quem nunca falha nisso?), mas por serem incapazes de compreender o significado de duas locuções: liberdade de expressão e busca pela verdade. 

Não é à toa que nunca fui atacada por filósofos. Afinal, a dialética nasce na Filosofia. E seu uso, assim como o próprio espírito filosófico, é aplicável em todas as ações humanas, uma vez que em todas elas devemos pensar no que fazemos e no porquê de estarmos fazendo isso e não aquilo. A razão deve preceder as ações ou seremos alienados. Uma pessoa alienada é aquela que despreza as hipóteses, as causas, e acredita que compreende bem a tese, ou seja, os efeitos. 

Ninguém é arrogante por fazer questão de pensar sempre. Arrogantes são aqueles que afirmam coisas falsas, que se baseiam em raciocínios falhos, e, ainda assim, querem que todos as aceitem como verdadeiras. Esse comportamento fere  o espírito matemático, que se fundamenta, essencialmente, no trabalho lógico-dedutivo. Independente da área em que se trabalha, um contraexemplo é um contraexemplo. A matemática não especula. Não é à toa que a maioria de nós se irrita com a economia baseada em especulação e com qualquer afirmação imposta a todos mesmo sendo mal fundamentada, mal estruturada, sem se sustentar de modo algum. Como sugere a Marguerite, no filme que vi quinta-feira, basta mudar o enunciado! Basta aplicar o exercício da razão, exercício esse que é indissociável da humildade. 


Ser humilde não é ser calado. Ser humilde é apreciar mais o pensamento que os aplausos. O ato de pensar é sempre um ato de humildade. Em particular, deve aceitar questionamento, pois é dialético. Quem pensa não apaga comentários nem exclui pessoas que "ousam" questionar seus argumentos. Menos ainda, ofende-se com contraexemplos.  Quem pensa entende que não importa quem seja o interlocutor! Pode ser feio, bonito, temperamental ou sereno. O que importa unicamente é o texto, é o que está sendo dito. Nada é pessoal para aqueles que se atêm unicamente ao texto, ao que está sendo dito , e não às características de quem diz. 

A própria crítica literária, só pra mostrar que também se impregna de argumentação e não de gosto pessoal,   estuda o poema e não os atributos do poeta para construir os sentidos do texto. O distanciamento do poeta é o distanciamento do interlocutor. É olhar para o objeto de estudo: o texto. É o estudo primoroso da estética. Há tanta beleza na crítica literária! E há justamente porque se atem exclusivamente ao texto. É sempre no texto que estão os sentidos e os valores da criação. Nunca é no poeta.
Igualmente, é no argumento que está o pensamento. 
Quando as pessoas aprenderão a se ater exclusivamente ao texto? Quando aprenderão que seus sentidos são construídos, entre tantas outras coisas, pela coerência apresentada? 

Não tenho culpa de amar os números e as palavras. Não tenho culpa em ser uma apaixonada pelas linguagens e em aplicar essa paixão no bom uso delas. Aceitem isso ou simplesmente me excluam mesmo. Porque eu sou muito consciente de que contraexemplos não ferem ninguém. E sou também muito consciente de que não mereço grosserias só por gostar dos porquês. A propósito, sou uma pessoa extremamente delicada. Mas, só quem sabe ler consegue perceber que sou.

Só os poetas conseguem ser inocentes

Pode-se admirar a obra de um homem sem admirar o homem. E quando se trata de alguém deplorável cuja obra se admira, tudo que se espera de quem separa tal homem de sua obra é que, no momento de sua morte, faça-lhe apenas um minuto de silêncio. Isso, sim, revela separar um homem detestável de sua obra, quando se considera esta relevante.


Curiosamente, muitos enaltecem homens deploráveis, por algo intelectual que tenham deixado. E, como justificativa, dizem que o fazem por serem imparciais. Ora, imparciais seriam se não manifestassem a admiração, se não se incomodassem em ver um homem morto ser merecidamente julgado por sua moral empobrecida por atos de violação aos direitos humanos. 


Quem separa o homem da obra sabe que as obras podem ser imortais, mas, os homens não. Aceita-se a morte do homem e, se deplorável, não se sofre nenhum pouco com tal morte. Sente-se até um alívio, como se alguma justiça tivesse finalmente sido feita, quando a vida leva embora pessoas responsáveis pelo fim da vida de outras. Por outro lado, a obra fica, permanece intocável e, portanto, os admiradores da obra não têm motivos reais para se inquietarem com a morte do autor. Assim, a morte de um homem só incomoda realmente quem não é capaz de separar um homem de sua produção intelectual ou artística e não o contrário. Só incomoda quem é parcial. Os imparciais não sentirão sua morte, uma vez que saberão que a obra e o autor não se misturam. 


Opa! Mas, espere um pouco aí.  Será mesmo que em todas as áreas, autor e obra não se misturam? Ou apenas na produção artística? Existe eu lírico em um texto acadêmico? Aí é que está! Na ciência, os textos são escritos com o conhecimento da causa e efeito. E são textos com intencionalidade. Escreve-se para defender um ponto de vista bem fundamentado teoricamente a partir de dados bem analisados. A intencionalidade textual faz com que autor e obra não se separem. Se um autor se separa de um texto acadêmico, é porque nem ele acredita no que escreve, escrevendo, portanto, apenas para vender seu peixe. Em tal caso, escapa-nos uma pergunta imediata:  a troco do que escreve? Trabalha para quem? Quem o está pagando para escrever? Quem o está comprando? Aos interesses de quem atende?


A ciência nunca foi imparcial, uma vez que se insere na esfera política. Isso não significa que não seja confiável. Significa apenas que ela não pode se isentar das consequências que sabe muito bem que deixa. 


Uma obra só consegue se separar do autor quando se trata de textos literarios. Isso porque esse tipo de texto foge a licenças de ordem moral. É o texto pelo texto. A estética é o seu foco e os diversos sentidos que produz. A palavra não deve ser amarrada. Pelo contrário, corre solta. Mas, corre solta por linhas bem traçadas pelos autores.  Quanto mais o poeta desvencilhar o texto de si, melhor cumprirá a sua pena. A pena que escreve. Não a punição. Afinal, o poeta não é o poema. E é nisso que ele se salva. É nisso que ele escapa daquilo que escreve. Ninguém pode provar que ele quis dizer isso ou aquilo. A poesia multiplica sentidos e torna leitor coautor de qualquer obra. Apenas os textos literários têm essa capacidade. Os acadêmicos, não. Os acadêmicos colocam o autor no olho do furacão. Somente a literatura é capaz de criar sem deixar rastros de seus autores. Assim, a poesia inocenta o poeta. E, assim, só se pode ser realmente livre dentro do campo da criação artística. 


Ninguém fala em criação acadêmica e, sim, em produção acadêmica. A gente fala é em criação artística. A produção acadêmica tem o propósito de prestar serviço à sociedade. A criação artística, não. Esta insere o homem em sua individualidade, que nunca deixa de ser também coletiva. Não há um só sentido, uma só interpretação (Quem assina, de fato, o poema?). No texto acadêmico, porém, só há uma interpretação. Somente os autores se responsabilizam pela interpretação daqueles que souberem ler. Assim,  torna-se impossível separá-los de suas próprias obras. Nenhum cientista é inocente. A ética deve, portanto, ser seu princípio mais fundamental e sua ausência pode lhe ser tanto motivo justo de punição quanto motivo plausível de repugnância.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Gente rabugenta

    É claro que a fome existe no natal. É claro que sempre existiu. Mas, também deveria ser claro que a culpa não é do natal, não é da data comemorada com ceia farta. Existem pessoas tão amargas, que odeiam o natal porque muitos não têm natal. E há também os que o detestam por não terem famílias, o que, ao menos, é um argumento.

    Conheço pessoas que passam o natal com amigos porque não têm família biológica, mas têm outras famílias. Conheço também gente que em vez de usar as redes para falar sobre a miséria, escolhe gastar seu tempo fazendo comida para entregar a moradores de rua na data natalina. Estas sabem que a fome existe e que em vez de moralizar os outros e exalar mau humor - coisas infrutíferas - apenas se pode ajudar concretamente um faminto com um prato de comida. Não são daqueles que escolhem o natal para falar sobre a hipocrisia, sem refletirem sobre a hipocrisia dos que falam muito e se empenham pouco para ajudar concretamente os demais.

    O amor só é vivido na prática diária. Não está apenas nas palavras. Está nas nossas ações. Muita gente está doando alimentos sem fazer questão de tirar foto para mostrar o quanto é bondosa. Outros não doam nada e ficam espalhando fotos de miséria, no natal, para lembrar que "todo mundo é hipócrita", exceto eles que têm consciência de que a fome existe. Tá certo. Cadê a consciência para ajudar de verdade os que têm fome?

    Dia desses um cara aposentado falou sobre a pobreza intelectual dos jovens. De fato, a coisa está feia. Mas, ele não é tão melhor que os incultos como ele pensa. Se isso o incomodasse de verdade, acho que ele daria um jeito para se oferecer como professor voluntário em algum pré-vestibular social, não é mesmo? Mas, ele não faz isso. Ele passa o dia todo falando das mazelas sociais. Meu Deus, será que ele é tão bondoso assim, que não consegue gastar um pouco do seu tempo participando de um projeto social? Está aposentado. O que, de fato, o incomoda? O que o faz sair do lugar? Que tipo de amor é esse que tudo que faz é cobrar dos outros ações que elas mesmas não fazem? Em que se empenham na sua vida prática?

    Nosso amigo Lênin afirmava que a prática é o critério da verdade. A prática, isto é, o que você faz, aquilo que você pratica, mostra quem você é.
Assim, a bondade sem ações é oca. O amor sem ações é um delírio.

   A propósito, não existe amor sem comprometimento e muito trabalho. O trabalho da escuta, da parceria, da gentileza, da lealdade, da cumplicidade. Amar dá trabalho! Porque, para amar, o outro precisa existir. Só falta alguém me dizer que ama se nunca lembrou, na prática (e não em palavras), que o outro existe. E lembrar não é pensar, é fazer. É deixar claro que você está tão acompanhado de quem você ama, que a pessoa já está, de alguma forma, presente em tudo o que você faz. Ela simplesmente se instalou em você. Então você a considera, você a trata bem, você a enxerga sem querer estar ausente de sua vida.

    Não existe amor nas pessoas que praticam a ausência. Não existe. A prática é o exercício da verdade, é o seu critério. Portanto, não são as palavras e nem as boas intenções a prática do amor. E é assim que o silêncio diz mais que as palavras. Silenciar em uma relação simboliza mágoa ou simplesmente indiferença ao outro. Isso, tanto em nossas relações pessoais quanto coletivas. Podemos falar e escrever muito. Enquanto não agirmos, seremos tão ausentes quanto os que comemoram natais sem lembrarem que a fome existe. Ambas as atitudes levam ao mesmo resultado. Mas, uns se acham mais bondosos que os outros para lhes cobrarem um amor que nem eles mesmos sabem dar. Que conclusão podemos tirar? Que o que as diferencia não é a bondade. Tampouco é a hipocrisia ou o cinismo. O que as diferencia é apenas o espírito de festa, é o grau que ocupam na tão larga escala da rabugice.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Meninos devem aprender a ser homens, não moleques

Lembro exatamente do dia em que, estando grávida, fui saber qual seria o sexo do bebê. Respeito as mães que preferem descobrir isso só no dia do parto. No entanto, como sou ansiosa, eu decidi saber antes, aos quatro meses de gestação. Quando a médica exclamou sorrindo "É, mãe, vem um menininho por aí!", eu logo senti um calafrio no estômago, tamanha a minha insegurança. Um menino! Logo ele estaria nascendo e eu teria de compreendê-lo, reconhecer suas emoções e necessidades. Pensei no meu irmão pequeno e nos meninos do prédio onde morávamos quando crianças. Futebol, jogo de botão, carrinhos de rolimã, simulações de brigas e algumas brigas de verdade, quando eles acreditavam que realmente eram super-heróis.

Prestar atenção nele, brincar com ele, estudar com ele, ler para ele, seguir minha intuição e contar com uma boa pediatra. Essa era a minha listinha de suporte. "Eu vou aprender a ser mãe", dizia a mim mesma. Quando ele fazia alguma malcriação (quase nunca fazia!), o sentimento de culpa tomava conta. Mãe tem esse defeito de trazer toda a responsabilidade para si. Nem precisa ler Freud para se culpar por tudo que não funcionar como ela cobra de si que funcione. Outro ser existe e precisa de seus cuidados. Um ser que não pediu para nascer, mas que os pais quiseram que nascesse. Um descuido grave pode traumatizar. É preciso estar atenta. É preciso ler sobre Psicologia Infantil. É preciso isso, é preciso aquilo. E é preciso descobrir algumas horas do dia para cuidar de si mesma, da solidão de se preocupar tantas vezes sozinha com aquilo que, muitas vezes, só as mães mesmo se preocupam. Haja neurose! Freud era mesmo brilhante. 

Há mulheres que vivenciam seus maiores momentos de solidão justamente quando se percebem mães solteiras, estando ou não casadas. Esse momento pode ocorrer mesmo durante o pós-parto, quando ela se dá conta de que o filho parece ser só dela. Só ela troca as fraldas, só ela dá banho, só ela acorda cedo, só ela interrompe o trabalho ou os estudos, enquanto pais dormem até tarde, saem com seus amigos e investem na própria carreira, pois lhes ensinaram que seu principal papel no mundo é o de ser um provedor.  

Antes de muitas mulheres se darem conta de que quase toda a responsabilidade com os filhos recairá sobre os seus ombros, a natureza já as treina por nove meses. Por nove meses, a mãe carrega seu filho sozinha no ventre e só ela sabe como é o seu chute e a maneira como ele se mexe. Muito antes de nascer, toda mãe acaricia o filho alisando a própria barriga. Mãe e filho conversam em silêncio por nove meses. Nove meses em que ela mal sabe o que está acontecendo com ela, pois não é capaz de decifrar suas emoções. São emoções que ela nunca havia conhecido antes. 

Um homem pode dar segurança emocional à mulher durante esse momento, já que grávido ele não tem como ficar. Mas, ela gostaria de ter alguém que zelasse por ela num momento em que se sente "tomada da gravidez". E é muito desolador para uma mulher quando ela nota que seu companheiro já é ausente antes mesmo de o bebê nascer. Afinal, ele é o pai. O que será que os homens acham que as mulheres esperam de um homem quando está grávida de um filho dele? Esperam que a sogra dela lhe faça companhia? Esperam que a sogra dele lhe faça? Entendam que a ausência é o primeiro sintoma de indiferença de um pai. E já começa antes de a criança nascer, bastando que a mulher lhe delegue algumas tarefas como, por exemplo, ser um pouco mais presente.

Curiosamente, muitos homens não compreendem isso. E fica realmente difícil para eles compreenderem, pois desde a adolescência aprendem que têm certos direitos que as mulheres não têm. Durante a adolescência, fase de transição da infância para a iniciação à vida adulta, um menino pode mudar radicalmente. É quando ele busca compreender o que significa ser homem. E o que significa ser homem? Carlos Drummond de Andrade faz essa pergunta em um de seus poemas. Um poema tão bonito, que uma mãe de menino que gosta de poesia, ao lê-lo, dirá: meu deus! Um homem pode ser tão bonito, que até pode conseguir ser, de fato, um homem! Pode ser criativo, pode ser um pensador, pode produzir conhecimento, pode ajudar a curar pessoas, pode ajudar as pessoas a acreditarem mais em si mesmas. Pode tanta coisa um homem! Tanta coisa para tornar sua existência significativa, que sabemos perfeitamente que a definição de homem não pode se resumir ao frágil conceito de masculidade. 

Entretanto, dificilmente conseguimos imaginar que aqueles meninos que aos sete protegiam as meninas das baratas, tirando-as do recinto ou as matando para elas se sentirem seguras...aqueles meninos que raramente levantavam a mão para elas...aqueles meninos que enchiam a mãe de amor como ninguém mais seria capaz de encher, poderiam durante a adolescência "aprender" que mulheres são objetos de consumo. Sutilmente eles aprendem isso. Eles aprendem com seus pais e também com suas mães. Com aquela mãe que lhe dá um vídeo pornô logo cedo para ele "aprender a dar no couro". Com aquele pai que olha para tudo quanto é mulher e o filho percebe. Com aquele pai que coleciona "revista de homem" e que já se viciou em pornografia. Com aquele pai que assina Onlyfans de alguma gostosa que ele jamais terá. Mas, que paga para ver. Faz questão de gastar dinheiro com isso. 

Um adolescente aprende cedo que é preciso passar no vestibular para ter dinheiro e que ele precisa comer o maior número possível de mulheres (uma das razões pelas quais ele deve ter dinheiro). E que se, por acaso, ele não comer, é importante ele ao menos dar a entender aos colegas que é um comedor. O valor de um homem, ele aprende, está no tipo de mulher que seu dinheiro consegue manter, no quão caro ele pode pagar num restaurante. Nada o envaidecerá mais do que conseguir trepar com um mulherão. Muitos não acham ridículo comprar uma mulher. Pelo contrário, isso lhes confere um status social. Eles têm uma gostosa porque venceram na vida. E como lhes é ensinado que esse é o principal benefício de ter uma mulher, por que desejaria o amor de alguma? Para ela controlá-lo? Para ele ter de ficar lhe dando atenção? Melhor é estar com os amigos, compartilhar fotos de mulheres e dizer o que fizeram com fulana e ciclana. É o momento da glória, da sensação máxima de que são homens. 

Essa semana, alguns meninos do 7o ao 9o ano de uma tradicional escola fluminense, criaram fotos nuas de colegas utilizando inteligência artificial. Tais fotos, apesar de fakes, eram convincentes. Foram compartilhadas em grupos de whatsapp. As meninas estão arrasadas e a escola ainda não deu suspensão aos garotos. As vítimas estão convivendo com os algozes, que ainda tiram chacota do sofrimento delas. Um dos garotos já disse que irá se safar. Porque é rico, branco e homem. Ele  já sabe que raramente homens são punidos por compartilharem fotos. Muito pelo contrário, ficam com fama de garanhões, o que acham maravilhoso. Certa vez, recebi por engano a foto de uma mulher nua. O homem que me enviou, homem de esquerda, que jura que é feminista e tá sempre fingindo que aprecia o intelecto feminino, compartilhou comigo a foto de uma mulher que o amigo dele estava pegando. A prática do compartilhamento de fotos íntimas de mulheres entre amigos, para todos punhetarem, rirem delas e depois as desvalorizarem. Não é um estupro coletivo. É mais leve: é uma punhetagem coletiva com fotos de mulheres que, ingenuamente, confiam neles e sequer imaginam que são uns misóginos fracassados. Fracassados como homens. Podem até conseguir dinheiro, podem conseguir comer várias. Mas, ainda estarão a anos luz de serem chamados de homens. Nem passam perto disso! Sequer sabem entender o significado da palavra homem. 

Quando contei a história dos garotos deste colégio para o meu filho, sua reação foi de nojo e horror. Respirei aliviada. Se ele risse, eu me sentiria a pior mãe do mundo. Como eu disse, mãe se culpa quase sempre. Mas, ele sentiu nojo, repugnância e tristeza. Ele ainda é o menino que na infância acompanhava as meninas ao ambulatório da escola quando elas se machucavam. Ano passado, do nada soltou a seguinte frase: "eu acho uma tremenda babaquice um homem ter muitas mulheres. Quando eu namorar, não vou ser como esses babacas não.". A mãe aqui se encheu de orgulho. Pensei: "ele deve ter visto algum amigo fazer isso",  pois havia revolta nas palavras, que foram exclamadas fora do contexto daquela frase. 

Uma das minhas séries favoritas é "O método Kominsky". Ela tem como foco a amizade entre dois homens em torno dos setenta anos. Ambos super vivos, trabalhando e cuidando de suas filhas. A série é inteligentíssima, sem violência, sem nudez e é deliciosa. Quem diria que uma série que fala sobre a saúde do homem e suas afetividades aos setenta poderia ser a minha favorita? Já a vi quatro vezes!

Assim que meu filho nasceu, comprei um livro sobre a saúde do homem. Isso mesmo que vocês leram. Ele ainda não era um homem e ainda não é. Mas, quando ele for, vou lhe dar uma cópia do livro. Uma cópia porque já percebi que a maioria dos homens não cuida da própria saúde. Acostumaram-se erroneamente a deixar isso a cargo exclusivo de suas mulheres.

A pessoa que aqui escreve e encerra este "textão", expressa sua tristeza em notar que parte considerável dos homens não respeita as mulheres, as objetifica, não é digna do carinho e nem da admiração da mulherada. Por outro lado, eu fico feliz em ver que muitos estão se esforçando para desconstruir o machismo e percebendo que ser homem não é ser moleque punheteiro, moleque que objetifica mulheres, moleque que se sente bem tratando mal mulheres e as silenciando. Um homem, verdadeiramente homem, jamais tirará proveito de uma mulher. Porque ele não precisa tirar. Enquanto os moleques carregam o sonho de comerem tantas gostosas quanto puderem, os verdadeiramente homens estarão ocupados beneficiando a sociedade de alguma forma. Há quem ame o conhecimento ou as belezas que duram mais que uma ejaculação. Como mãe, respiro aliviada de, ao menos perceber que meu filho sonha em ser um cara legal, honesto e respeitador com as mulheres.

E, se escrevo esse texto, é porque eu gosto de homem. De homem mesmo. Não de moleques. Desde que soube o sexo do bebê eu precisei acreditar na capacidade de os homens serem realmente bons. Afinal, botei um no mundo. Eu preciso acreditar sempre nisso.