sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Sobre razão, afeto e liberdade

A liberdade serve à razão, não à emoção. O filósofo Kant dizia que só conseguimos ser livres se formos capazes de dizer não àquilo que desejamos. Em outras palavras, se formos capazes de perceber que nem tudo o que queremos comunga com os valores que cultivamos. Então o que devemos escolher? Ser livre seria, nesse caso, escolher fazer o que quer? Para Kant, não. Para Kant, quem só sabe fazer o que quer é, na verdade, um escravo do desejo. Ser livre seria ser capaz de analisar a influência dos desejos em nossas ações e ser capaz de não se ajoelhar diante deles. Cabe observar que não fazer o que quer e fazer o que não quer não são, necessariamente, a mesma coisa. Fazer o que não quer também pode levar a situações de escravidão. Então, onde está o espírito da liberdade? Está em ter possibilidade de escolher e em fazer um uso consciente desse poder de escolha. Livre é quem se põe em condições de fazer uso da razão. É nítida a influência de Kant sobre Hannah Arendt, que cunhou o termo "banalização do mal" para se referir à prática do mal sem questionamento. Notem também que esse termo exemplifica com exatidão o que falei antes: fazer o que quer também não significa ser livre. É preciso fazer uso da escolha consciente. A questão de Arendt é mostrar que só podemos fazer o mal quando não fazemos uso da razão. Dito de outro modo, só quem pensa é capaz de dizer não. Em particular, quem tortura alguém obedecendo a ordens só o faz porque não questiona este ato. É a banalização do mal. Assim, por mais contraditório que possa parecer, vamos concluir que para sermos éticos, bons e amorosos devemos sempre saber usar a razão. Sempre. Muitas vezes as pessoas confundem razão com ausência de sentimentos. Pelo contrário. A razão é unicamente pensar. Pensar e sentir não são a mesma coisa! Pode-se ser muito racional e muito emotivo ao mesmo tempo (quem é libriano sabe disso muito bem, inclusive).

A grande questão é que não existe amor sem razão. Inclusive, quando se renuncia a algo por um bem coletivo vemos alguém atuar por amor, não é? O amor não olha apenas para si. Daí a capacidade de escolher o que é melhor para todos, mesmo não sendo o melhor para você mesmo. Daí a capacidade de ir embora quando a sua ausência torna as pessoas mais felizes. Tudo isso é ato de amor. Percebem? Não existe amor longe da razão. Porque amar necessita da existência do objeto do amor. Logo, pressupõe outra existência e você terá de levar essa outra existência em consideração. Terá de pensar sobre isso. Uma vez escrevi um "textão" aqui falando sobre isto: não existe razão sem sensibilidade. A razão só existe em quem tem sensibilidade. A ausência de sentimentos é amargura e pessoas amargas costumam agir em obediência cega a rancores. Logo, são escravos de certos fantasmas que precisam de cura. Resumindo: quem não se mostra capaz de pensar, não se mostra capaz de amar.

As vantagens da Barbie

Na última semana, um filme sobre a Barbie estreou nos cinemas mundiais. Tendo contado com um excelente trabalho de marketing, o assunto “Barbie” tem viralizado nas redes sociais. Muitas pessoas, mais entusiasmadas, fãs ou não da boneca, mostram-se alegres em fotos com fundos cor-de-rosa, enquanto outras, com ares de ranço ou desprezo, optam por tirar sarro de toda essa empolgação. Já eu, que sou uma pessoa sempre empolgada com aquilo que “faz a minha cabeça”, não me irrito nenhum pouco com as paixões alheias cor-de-rosa. As paixões que me irritam costumam ser em verde e amarelo e fazem arminhas com as mãos. As cor-de-rosa... as cor-de-rosa não me incomodam não.  Sei que sempre preferirei as pessoas apaixonadas às pessoas indiferentes - pelo menos as primeiras eu sinto que ainda estão vivas.

De minha parte, que ainda não assisti ao filme, nada posso dizer a seu respeito, a não ser o que rapidamente li em alguma postagem alheia: trata-se de um filme feminista. Alguma Barbie havia sido expulsa da “Barbielândia” por não ser uma mulher perfeita e, na busca por onde morar, acabou tendo de conviver com humanos. Bom, foi o que li da tal postagem e, portanto, não me responsabilizo pela veracidade dos fatos ali descritos. Eu realmente precisaria ver o filme. Entretanto, uma coisa eu já posso observar mesmo sem tê-lo visto me baseando somente no que li: um filme cuja protagonista imperfeita é representado pela belíssima (e execelente) atriz Margot Robbie só pode mesmo estar de sacanagem com o telespectador. Quem ousaria dizer que essa beldade é imperfeita? Em sã consciência, ninguém. Pois é. E aí o filme apresenta uma coerência marcante: as exigências que pesam sobre as mulheres na sociedade real também são descabidas. Em particular, as que envolvem seus corpos e as suas idades. Mulheres são expulsas quando não são perfeitas. As “mais velhas” são criticadas quando estudam com as mais novas em certas universidades. As mais velhas escutam “Nossa! Como você está bem! O que você faz para estar assim?” (como se as quarentonas, cinquentonas, sessentonas etc perdessem a capacidade criativa, a capacidade de transarem, a capacidade de amarem e de viverem plenamente como bem entenderem). As que estão um pouco acima do peso sofrem deboches que os homens mesmo não sofrem. Aliás, homens costumam ser tão ridículos, que chega ao ponto de diversos homens claramente gordos exigirem que suas esposas emagreçam com a desculpa de se preocuparem é com a saúde. Ora, se fosse preocupação com a saúde, eles fariam regime e parariam de beber. Em suma: há sempre dois pesos e duas medidas e dependendo do seu sexo, você pode ter que sair da Barbielância também. Afinal, a vida não é tão cor-de-rosa assim para as mulheres.

A minha geração, nascida na década de 1980, talvez tenha sido a última em que meninas de dez anos ainda se entusiasmavam com a Barbie. Hoje, nessa idade, as meninas não costumam mais brincar de bonecas. A Barbie de hoje tem um teto menor, ou seja, o etarismo também já atingiu a boneca Barbie! Eu não fui uma menina que teve bonecas como brincadeira favorita. Eu preferia montar quebra-cabeças, jogar baralho, jogar vôlei, pular elástico, jogar queimada, andar de bicicleta e de carrinhos de rolimã, além de jogar futebol de botão, que faz parte - assim como o jogo de peteca – da cultura belorizontina. Entretanto, como qualquer menina, eu também tive bonecas. Em particular, uma, e somente uma, Barbie. A minha, aliás, eu ganhei aos nove anos. Antes dela, o máximo que ganhei foi uma “Academia da Barbie”, dada por meu padrinho, que cismou que a boneca vinha também dentro da caixa. Para a imensa decepção dele e também para a minha, aquele presente de natal não fora tão perfeito quanto era a Barbie.

Naquele tempo, a qualidade da boneca era melhor, suas roupas eram melhores e até seus sapatos eram prateados. E praticamente todas as meninas quiseram ter alguma, mesmo as que brincavam com carrinhos de rolimã, quebra-cabeças e baralhos. A Barbie representava a imagem da mulher adulta que, em nossas mentes e corações, representava quem seríamos no futuro. Era uma mulher muito bem sucedida. Havia a Barbie médica, a Barbie dona de restaurante, a Barbie arquiteta, a Barbie professora, a Barbie veterinária etc. A Barbie tinha um carrão e uma vida estável e confortável. E sabe o que mais lindo ela tinha, além disso tudo? Ela não precisava do Ken para ter aquilo tudo. Ela não era casada! Não havia aliança dourada alguma em seu dedo. Havia, sim, um anel de brilhantes. Mas, comprado por ela. O Ken era seu namorado e jamais fora o personagem central da história dela. Ele era absolutamente coadjuvante. Nenhuma menina fazia questão de comprar o Ken. Poucas tinham o casal. Porém, muitas tinham várias Barbies! Havia brincadeiras em que na casa de uma várias delas se encontravam para jantar: a veterinária, a médica, a professora. Ken? Quem era Ken? O Ken não nos interessava. Vocês, críticos tão severos da boneca, por acaso acham que isso é pouco? Vocês realmente acham?

Por essas e por outras, é que o entusiasmo  das meninas e das mulheres com a Barbie ainda é considerável. E hoje, somado ao fato de já termos no mercado Barbies baixinhas, Barbies gordinhas, Barbies negras, Barbies cadeirantes, Barbies com vitiligo etc. As Barbies acompanhando as exigências de movimentos sociais para ainda habitarem os sonhos das meninas. E, isso, meus caros, também é uma conquista política, apesar de ainda não termos Barbies que sejam faxineiras ou caixa de supermercado. Quem sabe um dia elas também surjam nas prateleiras? Quem sabe a realidade um dia mude no mundo dos sonhos?

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Autoatendimento: bom pra quem?

Uma das coisas mais chatas da rotina de todos nós é fazer compras. E de todas as etapas chatas dessa atividade, a mais chata é a finalização dela: a fila e todo o processo de atendimento dos caixas. Não pelos caixas, é claro, pois são trabalhadores muito explorados que, inclusive, não tiveram o privilégio de fazerem isolamento durante a pandemia enquanto os que tiveram podiam comer às custas do sacrifício deles (eu me incluo entre os privilegiados). Não. Não é por eles. É que nesse momento vemos a exploração geral dos donos das redes de supermercados.

Pagamos caro (tudo está caro) e ainda pagamos as sacolas que, na verdade, deveriam ser dadas aos clientes pelos estabelecimentos. Afinal, se compramos ali, que nos forneçam os meios de levar para casa. Se você compra roupa, sapato, perfume etc, as lojas fornecem os embrulhos. Mas, supermercados são privilegiados. Deveria ser obrigação deles fornecer as sacolas ecológicas gratuitamente. 

Como se não bastasse isso, alguns trabalham com atendimento eletrônico. Máquinas que só aceitam cartão ou pix e que existem para "agilizar" o atendimento (como se você fosse realmente mais competente que os atendentes...rss). 

Mas, as máquinas não são robôs. Nós é que temos que passar os produtos, pesá-los ou digitalizá-los, além de pagar as sacolas e também embalar os produtos. Em outras palavras, o cliente se torna o atendente de si mesmo. Sendo mais clara (se é que ainda não ficou claro): o supermercado poupa a si de contratar mais funcionários transformando os clientes em funcionários. Mas, em funcionários que não recebem salários e nem descontos! A meu ver, deveria ser dado um bom desconto para quem fizesse uso das máquinas, como forma de ressarcir o cliente por trabalhar de graça para o supermercado. 

Quando eu for deputada federal vou criar um projeto de lei para tornar obrigatório o desconto de 31,4% (aproximadamente 10pi) das compras de todos os clientes que utilizarem essas máquinas, assim como a obrigatoriedade do fornecimento gratuito das sacolas ecológicas pelos supermercados. Me aguardem. Já tô de saco cheio. Não de sacolas.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Nem só de narrativas se faz um "empoderamento"

             Começo este texto já adiantando que ele não agradará homens muito machistas. Entendam o “muito” aqui como a afirmação de que todos os homens são machistas, mas que alguns passam de um limite razoável para que se possa conviver com eles sem se sentir constantemente desrespeitada. Ao longo da história, mulheres têm conquistado direitos importantes. Direitos que levaram séculos para serem adquiridos. Direito ao voto, direito ao divórcio sem a perda da guarda dos filhos, direito è educação formal (isto é, o direito a estudar em uma escola e não em ambiente doméstico) e, em alguns lugares, até mesmo o direito ao aborto. Em alguns países, se uma mulher é estuprada e engravida, ela não só é obrigada a ter a criança como também é obrigada a se casar com o estuprador. Na Ìndia, além disso, mulheres devem se esconder quando menstruam, dado que Deus nos fez naturalmente sujas e pecadoras, sempre associadas a incitar os homens à perdição. As mulheres os tentam e os santos homens caem em tentação. E são sempre perdoados, vítimas dos instintos, da testosterona e de quaisquer desculpas que lhes permitirem fazer o que quiserem e sempre culparem as mulheres.

No que tange ao sexo, o mundo sempre foi violento apenas com as mulheres. Jamais com os homens. A não ser com os homossexuais afeminados e, mesmo assim, porque estes são considerados traidores por “negarem a sua masculinidade”. Preferir se assemelhar a uma mulher é imperdoável em uma sociedade patriarcal. Sequer compreendem que um gay, afeminado ou não, ainda é muito diferente de uma mulher. Seja como for, a sociedade tolera mais um homossexual não afeminado do que um afeminado. A sociedade não tolera travestis e nem mulheres trans. Podemos dizer, sem medo algum de errar, que a LGBT-fobia representa o ápice da misoginia. Porque nenhuma mulher é expulsa de casa por ser mulher. Mas uma mulher trans é expulsa de casa por ser trans. Ser mulher trans é renegar a masculinidade e isso é algo que a sociedade patriarcal não perdoa. Entretanto, ainda que não perdoe, tira proveito. Mulheres trans e travestis, não raras vezes, são empurradas para a prostituição, por mais que tenham plenas condições de exercerem quaisquer profissões que tenham um dia sonhado para si mesmas. A objetificação das mulheres atinge tanto pessoas cis quanto pessoas trans. Basta que sejam fêmeas. Em ambos os casos, é bom que sejam mansas e obedientes. É bom que a travesti não queira largar uma vida de servilismo sexual (que lhe é imposta pela sociedade!) e nem mesmo as mulheres cis que se prostituem. Afinal, a prostituição beneficia unicamente os homens que as comem. Mesmo quando falamos das mulheres que se prostituem por fetiche, estamos falando de alguém que escolhe ser servil e se subjugar à vontade masculina. Quem paga é o homem e quem paga é quem manda. Estamos falando da relação patrão/empregado. A mesma relação que o ator Pedro Cardoso, corajosamente, denuncia, ao expor o quanto homens poderosos das empresas de TV e de cinema exploram o corpo das atrizes. Sem papas na língua, porém com educação (assim como eu), ele expressa sua indignação em defesa da dignidade das atrizes. Exige-se delas uma nudez forçada, desnecessária à trama, o que revela que não há ali nu artístico algum, mas apenas uma imagem pornográfica. Com efeito, ali está a atriz nua e não a personagem nua. A personagem não precisaria estar. Os empresários querem audiência e, para consegui-la, precisam vender imagens de mulheres nuas para satisfazerem as exigências sexuais dos homens. Os homens se acham tão no direito de terem as mulheres a seu dispor, que a cultura naturalizou a existência de uma revista chamada Playboy, na qual empresários pagavam altos cachês pelas mulheres mais cobiçadas pelo público masculino. Quanto pagariam por um mulherão de seus sonhos? Pagariam muito se assim pudessem. A propósito, certa vez ouvi um homem rico e garanhão dizer que poder pagar por uma mulher lhe satisfazia mais que ter o amor de alguma. Porque um homem é poderoso pelo que ele pode comprar. Que lhe interessa o amor? Amor não se compra, não é mesmo? Outra dia foi vez de um esquerdomacho dizer “mulher que se leva para tomar vinho”. Leia-se: mulher que se leva a lugar caro para impressioná-la e comê-la. 
De um modo geral, os homens sempre acham que temos um preço. Se não tivermos, é capaz de perderem o tesão. Há um prazer no poder de compra. Mas, não sejamos ingênuos. Esse prazer não é inerente ao próprio homem. É uma herança cultural. E uma herança que ganhou cada vez mais força com o capitalismo. Essa força está tão grande, que o ser humano já não consegue diferenciar as pessoas dos objetos. Como disse Zygmunt Bauman, todo mundo está sendo transformado em objeto. Seja sexual, seja trabalhista. Tudo virou líquido. Vejamos um exemplo disso. Em aplicativos de encontro como o Tinder, as pessoas se conhecem em vitrines, não é mesmo? As fotos são vitrines e, meramente pela foto e pelas informações no rótulo deste produto (gostos pessoais), os usuários decidem se levam ou não aquele produto. Não precisam se conhecer, necessariamente. Conversar? Que coisa mais antiguada! Ali é para se encontrarem, se consumirem e se o produto não agradar, troca-se por outro. Tudo isso com a mais absoluta naturalidade, sem que ninguém sequer se pergunte sobre como é ser um produto em uma vitrine. O prazer da descoberta intelectual, coisa só possível por um papo legal tornou-se algo completamente dispensável para boa parte das pessoas, tanto homens quanto mulheres. A objetificação, ou seja, tratar pessoas como produtos cujo objetivo de uso mútuo é o da satisfação sexual imediata e mais nada, pode levar ao descarte, ou não, do produto. Se o produto satisfizer bem, talvez haja algum apego como o de uma pessoa por seu relógio de ouro. O intelecto já não interessa a quase ninguém.

A objetificação das mulheres, porém, atingiu também a esfera do mundo puramente virtual. Em particular, há homens que pagam caro para ver vídeos sensuais de mulheres falando sacanagens enquanto eles se masturbam do outro lado da tela. Segundo o documentário “Pornocracy”, essa é uma nova forma de prostituição. Nela, homens do mundo inteiro escolhem o rosto que desejam e pagam por um vídeo ao vivo com aquelas mulheres. Mulheres de diversas partes do mundo. Sequer precisam tocá-la. A imagem é suficiente para que se masturbem e gozem e o importante é que eles gozem e só. Há redes sociais em que mulheres vendem fotos e vídeos. Por exemplo, o onlyfans. Em tais sites, vendem suas imagens para homens cujo sonho é o de comprá-las. Elas não se importam e consideram que são empoderadas sexualmente. Pergunto: que empoderamento é esse que transforma um ser humano em produto? Estamos falando de um ser humano que decidiu se vender. Não há liberdade alguma aí. O simples fato de uma pessoa decidir o que fazer com o próprio corpo não significa que decidiu pela liberdade dele. Um escravo que decide ser escravo não deixa de ser escravo por ter escolhido “livremente” ser um. Quem dita as regras ainda é seu senhor. Com as mulheres não é diferente. Infelizmente, há uma apropriação indevida do conceito de liberdade sexual da mulher. A liberdade só pode ser liberdade enquanto não a sujeitar à prostituição, à condição de um produto. Uma mulher que não se prostitui é que pode ser livre. Uma mulher que se prostitui jamais será. Entristece-me consideravelmente ver uma mulher se sujeitar à condição de um produto. Isso independe de eu gostar ou não dela, de ela ser politicamente de esquerda ou de direita. É um ser humano. Entristece-me também ver  tantas vezes as minhas palavras serem desonestamente consideradas “machistas” justamente por esquerdomachos que se aproveitam da sujeição dessas moças. Eu sinto pena da subjugação delas e sinto um enorme nojo deles. Utilizam um discurso desonesto e mentiroso, dando a entender que elas são livres por escolherem fazer o que querem com seus corpos, quando o que escolhem é se expor para eles. É claro que eles vão defender essa “liberdade”, uma vez que eles se beneficiam com a exposição dessas mulheres. Mas, e elas? Em que elas se beneficiam? Em quê? Em nada! Muito pelo contrário. Suas fotos são distribuídas de um homem para outro, sempre acompanhadas de palavras que as objetificam. E elas, tolas, não são capazes de perceber que isso não é empoderamento algum. Até eu já recebi, por engano, foto de uma mulher. Um homem de esquerda me enviou errado a foto de uma mulher que o amigo dele pegava. Desculpou-se. Não há desculpas. Isso é sórdido. Imaginem: uma mulher envia uma foto para um homem e ele distribui para os amigos para mostrar o quanto ele é fodão e pegador. Um pegador, ou seja, um homem que consome mulheres deliberadamente. É um discurso mentiroso fazer essas moças acreditarem que realmente não se objetificam. Esses homens curtem ver fotos nuas de mulheres nas redes usando esse discurso falso de empoderamento para se aproveitarem delas, da imagem delas. Entretanto, não são capazes de defender a exposição de suas companheiras nuas para outros homens. Aí o discurso deles muda. Esse comportamento é desonesto, mentiroso, torpe mesmo.

Mas, falemos um pouco dos homens bons também. Alguns, bastante conhecidos. Virginia Woolf teve um marido que a apoiou bastante. As irmãs Brönte tiveram apoio do pai. Camille Claudel teve um pai que acreditava muito nela (infelizmente morreu antes da artista). A matemática Emmy Nöether foi defendida  pelo matemático David Hilbert para dar aulas em uma universidade. Ele enfrentou uma luta para conseguir legitimar que mulheres ocupassem cargos de relevância científica. Marie Curie também foi apoiada por seu marido, também cientista.  O filósofo inglês Stuart Mill , em sua obra “A sujeição das mulheres” (obra que escrevera com sua esposa Harriet Taylor) defendeu, ainda na era vitoriana, que mulheres deveriam ter plenos direitos sobre a propriedade, sobre o voto e sobre exercerem carreira política ou qualquer outra que lhes interessasse. Mill ainda dizia que sua esposa era uma das mentes mais aguçadas que ele já conhecera. O que todos esses homens têm em comum? A resposta é simples: o apreço pelo intelecto da mulher. Apreço suficiente para defenderem que, em vez de usarem o corpo para se sobressaírem na vida, elas usassem o cérebro, o intelecto. Exatamente como fazem, a princípio, os homens.

Antes de encerrar, cabem algumas considerações bastante importantes aqui. A primeira delas é que abundam homens de esquerda que gostam de silenciar mulheres. O silenciamento pode ser tanto direto quanto indireto. No indireto, eles se recusam veementemente a ouvir o que elas têm a dizer, sobretudo quando o que elas dizem se referir a algum proveito deles sobre mulheres. Não ouvem e ainda tentam dar a entender que as falas são infundadas ou que feministas reclamam muito. Em alguns casos, podem até acusarem a feminista de machismo, enquanto eles continuam tirando proveito das situações que o patriarcado lhes oferece.   

Desde 2016 atuo como coordenadora do Programa de Iniciação Científica da OBMEP em uma das regiões do Rio de Janeiro. Este programa tem como um de seus objetivos, despertar o interesse das meninas pela matemática e pelas áreas de tecnologia. Sou uma mulher que atua na área de extas, embora eu goste consideravelmente de Literatura e Filosofia. Nas áreas de STEM (Ciências, Tecnologia e Matemática), nós temos que lutar dobrado até hoje. Muito espaço ainda há para ser conquistado. E para nós, mulheres que lutam pelo crescimento intelectual de outras mulheres, ver qualquer mulher se objetificar é algo muito triste, independente de quem seja, de gostarmos ou não dela ou de quaisquer divergências possíveis. Nosso desejo é o de que estas mulheres não se sujeitem mais a homem algum para se sustentarem. Que, em vez de fãs, busquem ter amigos, assim como Emmy Nöether teve em Hilbert. Porque existem homens que são sim amigos das mulheres. E estes são exatamente aqueles que nunca gostarão de vê-las se venderem.

Para finalizar, sempre deixei muito claro o que aprendi lendo “As reivindicações dos direitos das mulheres”, de Mary Wollstonecraft. Nós, mulheres, devemos recusar a ideia, tão defendida por Jean-Jacques Rousseau em seu livro “Emílio”, de que a educação que nos cabe é a de aprendermos a ser bem cortejadas. Rousseau desprezava tanto o nosso intelecto e, ao mesmo tempo o temia tanto, que insistia que as mulheres deveriam ser educadas em casa e, mesmo assim, apenas para a vida doméstica. Para ele, a maioria das mulheres era frívola e, para serem felizes, bastar-lhes-ia receber elogios sobre sua beleza, além de muitos presentes que garantissem a sua subsistência. Espero ter deixado claro até aqui que não existe liberdade da mulher enquanto ela não valorizar o seu próprio intelecto. Por fim, é preciso ter muito cuidado com a apropriação indevida do termo “liberdade sexual da mulher” pela sociedade patriarcal. Em particular, essa liberdade não está dissociada do seu intelecto. Deste modo, uma mulher intelectual pode ser plenamente livre, uma vez que a inteligência não lhe retira, de modo algum, a sensualidade. Associar liberdade à objetificação é um equívoco que só favorece os homens, jamais as mulheres.  Recentemente, li que os livros mais vendidos na Amazon num determinado mês do ano passado foram aqueles no estilo “50 tons de cinza”. Vários romances com a temática do homem rico e conservador que abusa psicologicamente de mulheres com joguinhos sexuais de poder. Quem comprava tais livros eram majoritariamente mulheres. Não é chocante isso? Assim, deixo para vocês um minuto de reflexão sobre que ideia de empoderamento a mídia, a TV e o cinema têm vendido para as mulheres. 

    

domingo, 2 de julho de 2023

A autoapresentação e a existência

"Uma vez que as aparências sempre se apresentaram na forma do parecer, a fraude, presumida ou premeditada, da parte do ator, o erro e a ilusão se encontram inevitavelmente entre as potencialidades inerentes, da parte do espectador. A autoapresentação se distingue da autoexposição pela escolha ativa e consciente da imagem exibida; a autoexposição não tem outra escolha senão exibir quaisquer características que um ser vivo tenha. A autoapresentação não seria possível sem certo grau de autoconsciência - uma capacidade inerente ao caráter reflexivo das atividades espirituais e que transcende visivelmente a simples consciência que provavelmente compartilhamos com os animais superiores. Propriamente falando, somente a autoapresentação está aberta à hipocrisia e ao fingimento, e a única forma de diferenciar fingimento e simulação da realidade e verdade é a incapacidade que os primeiros desses elementos têm para perdurar guardando consistência. Já foi dito que a hipocrisia é o elogio que o vício faz à virtude, mas isso não é bem verdade. Toda virtude começa com um elogio feito a ela, pelo qual expresso minha satisfação com relação a ela. O elogio implica uma promessa feita ao mundo, feita àqueles aos quais agradeço, uma promessa de agir de acordo com minha satisfação; a quebra dessa promessa implícita é que caracteriza o hipócrita. Em outras palavras, o hipócrita não é um vilão que se satisfaz com o vício e esconde, daqueles que o rodeiam, a satisfação. O teste que se aplica ao hipócrita é, de fato, a velha máxima socrática: "Seja como quer aparecer" - o que significa apareça sempre como quer aparecer para os outros, mesmo quando você estiver sozinho e aparecer apenas para si mesmo. Quando tomo uma decisão desse tipo, não apenas reajo a quaisquer qualidades que me possam ter sido dadas; realizo um ato de escolha deliberada entre as várias potencialidades de conduta com as quais o mundo se apresentou a mim. De tais fatos surge finalmente o que chamamos de caráter ou personalidade, o conglomerado de um número de qualidades identificáveis, reunidas em um identificável todo compreensível e confiável,e que estão, por assim dizer, impressas em um substrato imutável de talentos e defeitos peculiares à nossa estrutura psíquica e corporal. Por causa da relevância inegável dessas características escolhidas para nossa aparência e para nosso papel no mundo, a filosofia moderna, a começar por Hegel, sucumbiu à estranha ilusão de que o homem, ao contrário das outras coisas, criou-se a si mesmo. Obviamente a autoapresentação e o simples estar-aí da existência não são o mesmo."


(Hannah Arendt em "A vida do espírito")

Esse trecho, selecionado das páginas 53 e 54 da referida obra (em sua 5ª edição, publicada pela Ed. Civilização Brasileira), leva-nos a refletir sobre hipocrisia e vaidade. Segundo as palavras de Arendt, o hipócrita acredita piamente em sua autoapresentação, a ponto de, mesmo estando sozinho, fazer questão de autoapresentar-se como quer parecer aos outros e não, de fato, como vive ou deveria perceber-se em sua existência. O hipócrita crê na mentira que conta sobre si. O "eu sou", por mais evidente que deveria ser para si que não é, é tido como realidade para o hipócrita. Sob esse ponto de vista, poderíamos pensar no hipócrita como um narcisista delirante. As razões que o levariam a tal comportamento ultrapassariam as linhas deste texto e seriam de interesse da psicanálise. Por ora, o objetivo é unicamente tornar mais claro o entendimento do termo hipócrita. 

Já ao fim do trecho, Arendt afirma que a filosofia moderna chegou a confundir a autoapresentação com a existência, ao conferir à primeira o significado da segunda. Este é um ponto interessantíssimo do texto porque a autoapresentação encarada como autocriação seria uma exclusividade da mente hipócrita e, ainda assim, uma criação falsa de si mesmo. Ora, dado que se trata de uma falsa criação, não estaria o homem criando a si próprio e, sim, aniquilando-se. Seria o mesmo que negar a sua existência. Não há criação. Há aniquilação do que é, de como existe em dado momento de sua vida. Se a existência que dá é a uma autoapresentação, garante a existência de outro e não a de si. Portanto, se a filosofia confundir existência com autoapresentação, poderíamos concluir que até ela acreditaria que as qualidades do hipócrita lhe fossem mesmo inerentes e não meros frutos de seu delírio. Mais trabalhoso ainda: estar-se-ia afirmando que somos o que queremos imaginar que somos! Imagine-se Napoleão e será Napoleão. Nero poderia ter imaginado que era Augusto. Teriam sido diferentes os rumos da história se ele assim se imaginasse? Vou pintar meus cabelos de loiro, usar lentes de contato azuis e me regozijar por pessoas acharem que sou sueca. Isso transformará a minha vida em outra, tal qual a de Adriane Galisteu que, segundo as palavras dela, deu uma volta de 360 graus em sua vida...

Gosto do princípio "Na natureza nada se perde e nada se cria, tudo se transforma" (Lavoisier). Habitamos a natureza e também nos transformamos. Mas não nos transformamos porque imaginamos. Transformamo-nos porque nos identificamos com algo até então novo em nós. Somos o que nos transformamos. Por isso o verbo ser se conjuga também no passado e no futuro.  Se ser fosse algo imutável, só seria conjugado no presente.  Há uma interpretação equivocada a respeito do significado do verbo ser. Ser é transformar-se. 

Crer que os olhos dos outros garantirão quem você seja, isto é, que você seja a sua autoapresentação, é simplesmente ser cego. Afinal, quem mais precisa se guiar pelos olhos dos outros? Quem mais precisa dos olhos dos outros para a descrição exata das coisas?

Apegar-se às máscaras é perigoso, sob o aspecto psiquiátrico. Um mitômano apega-se a todas as suas máscaras e nega constantemente a sua própria identidade. Quer acreditar naquilo que não é. Quando eu era criança via meninos se vestindo de super-heróis, com máscaras, espadas, escudos e belas fantasias. Cada um, enquanto brincavam, sentia-se um "Homem-Aranha", um "Super Homem" ou um "Batman". Fantasiar faz parte do mundo infantil. No entanto, as próprias crianças têm ciência de que estão brincando. Ver adultos conferirem realidade às suas fantasias já merece preocupação médica. Dos adultos esperamos um comportamento mais amadurecido, imaginamos que a certa altura da vida já saibam quem são e que não se divirtam em brincar de esconde-esconde com as pessoas. Em particular, de esconde-esconde com elas próprias. Que não façam de conta que são aquilo que nunca dão conta de ser (em algum momento, a fragilidade dos mentirosos os coloca em prova e os desmascara). E que compreendam, de uma vez por todas (porque chega uma hora em que é preciso aprender!), que a mais indefesa das pessoas é a que se ilude consigo mesma. Na verdade, ilude apenas a si mesma, pois as outras pessoas a enxergam e ela é que nunca se conscientiza disso.

Erram aqueles que chamam de sonhadores os que apreciam e exigem nudez. Estes são os realistas. Sonhadores são os que, movidos por algum medo, optam por inventar personagens para as pessoas em vez de enxergá-las. Os que estão sempre em fuga por temerem encarar a vida. Por mais que a vida os encare diariamente.

A autoapresentação coincide com a existência se o indivíduo, consciente de quem seja, decide expor-se sem máscaras. Neste caso, seria o mesmo que autoexposição. Se a dúvida é o preço da pureza (Sartre), ser mau corresponde a ser consciente de que a autoapresentação não o representa. E se, ainda assim, insiste em se esconder é porque detesta ser quem é.  Para estes tipos, portanto, talvez a hipocrisia seja tomada como uma questão de sobrevivência: é preciso crer na mentira contada para  enganar a consciência. O orgulho dominando o caráter humano. Parece certo Hesse: o caminho mais duro é o que nos conduz a nós mesmos. Longe do orgulho e de toda vaidade.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Falhas de discurso: o caso particular que vira caso geral

Em primeiro lugar, desejo ressaltar que escrevo este texto com certo mau humor. Não gosto de falar de obviedades nem do que está implícito. No entanto, às vezes é necessário. Não o mau humor, mas falar das obviedades.

Recentemente, postei neste blog um texto breve no qual disponibilizei um link sobre "as virtudes e os critérios universais para a construção do pensamento". O link foi tirado do blog do economista Thomas Conti (para quem não teve a oportunidade de ver o link, deixo-o aqui novamente: http://thomasvconti.com.br/2017/virtudes-e-os-criterios-intelectuais-universais/ ).

Hoje gostaria de falar um pouco sobre a análise de um discurso. Existem diversos modelos de discurso e todos eles são influenciados pela natureza do público ao qual se dirige. Poderíamos analisar alguns. Qualquer pessoa pode se ocupar fazendo isso. Vocês já pararam para refletir sobre o que escutam ou leem em jornais, blogs, livros ou em postagens nas redes sociais? Como costumam reagir a elas? Quais perguntas se fazem? Vocês costumam se fazer alguma pergunta? Conseguem evidenciar incongruências em um discurso?

Hoje vamos nos concentrar em um erro que tem se mostrado bastante comum em alguns discursos e que, portanto, poderíamos dizer que se enquadra em uma categoria vulgar. Trata-se de se considerar um caso particular como uma generalização. Suponha que se tenha um conjunto não vazio A e que x seja um elemento desse conjunto. Suponha também que x possua a propriedade P.  A seguir aponto algumas alternativas a você e gostaria que você fosse capaz de perceber qual delas é a verdadeira (Sim! É isso mesmo que você está pensando: entrei no jogo das três mentiras e uma verdade! Às vezes a moda é útil...):

(a) Se x possui a propriedade P, então todo elemento de A também a possui;
(b) Apenas x possui a propriedade P;
(c) Pelo menos x possui a propriedade P;
(d) Se um elemento possui a propriedade P, então esse elemento pertence a A.

E aí? Conseguiu perceber que a resposta certa é a letra (c)? Não? Jura que você julgou que o item (a) estava correto? Hummm.... tô vendo que você é daquele tipo que cai na onda de discursos como os dos exemplos abaixo:

Exemplo 1:

Uma pessoa B é muçulmana. Muitos terroristas são muçulmanos. 
Conclusão: B é um terrorista!Não deixe B entrar no país.

Exemplo 2:

Fulano é padre. Muitos padres já cometeram crimes de pedofilia. 
Conclusão: Fulano é um pedófilo! Não vá se confessar com ele, hein?!

Exemplo 3:
C é do sexo masculino. Existem homens que estupram mulheres.
Conclusão: Se C for acusado de estupro, é muito provável que a acusação contra ele seja verdadeira. 


Quantas e quantas vezes não lemos discursos com essa característica em blogs e em redes sociais? Usar casos particulares para o estabelecimento de uma regra geral? É sério isso? Não caiam nessa conversa mole! Isso não é um argumento! Há falhas graves de raciocínio nesses tipos de discurso. Das duas, uma: ou quem discursa é realmente um idiota ou ele apenas crê que você é que seja um. 


Desafio:
Verifique se as seguintes frases têm o mesmo sentido:

A cada dia, dez pessoas são agredidas na rua D.
Dez pessoas são agredidas todos os dias na rua D.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Pense bem se você realmente quer pensar

Como deve ser organizado o pensamento científico, o pensamento analítico? Talvez eu esteja sendo redundante aqui, visto que um pensamento só deve ser considerado como produto de "pensar" se for analítico. Ou não? Em outras palavras, o que caracteriza o ato de pensar? Tenho para mim que pensar é um processo mental complexo e que não se pode considerar meras opiniões como um produto final do pensamento. Será que podemos considerar pensamento qualquer coisa que siga a trajetória do cérebro à boca ou do cérebro ao papel? Penso que não. Julgo, inclusive, que muitas pessoas falam sem pensar ou, de modo mais terno, limitam-se unicamente à observação de um meio sem muitos critérios de análise.  

Aprender a pensar. Pensar, pensar e pensar. Muitos talvez não tenham essa ambição na vida. Aos que têm, indico o texto a seguir. Simples, objetivo e claro: