Para parte considerável das pessoas, não é suficiente que estejam bem e, sim, sempre melhor que as outras. Isso conduz o modo como costumam medir a própria grandeza. Não pelo que são, mas pelo que são em comparação às demais. Não foi à toa que Oscar Wilde disse que para se conquistar um inimigo é suficiente ser uma boa pessoa para ele. De fato, muita gente troca a gratidão pela sensação de dever favores a quem é legal com elas. Assim, em vez de reconhecimento ou gratidão, sentem-se é pequenas. E contam os dias para devolverem quaisquer ajudas que recebem. A ajuda as incomoda. Odeiam precisar de ajuda. Não a aceitam com alegria e, sim, com tristeza ou vergonha. Eu fico pensando nisso porque entendo que para sermos amados precisamos saber receber amor sem jogar pedras nos outros. Nunca sei o que é mais difícil ao ser humano, se é amar ou se é aceitar ser amado.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2023
terça-feira, 26 de dezembro de 2023
Um viva aos cariocas!
Ontem eu postei um vídeo sobre ser um "carioca da gema", no Facebook e no meu story do Instagram. Agora há pouco recebo lá o seguinte comentário de um belorizontino e, portanto, meu conterrâneo: "Antipáticos desde a tenra idade". Respondi, obviamente, que discordo dessa visão sobre os cariocas.
Moro no Rio há dezessete anos. A cultura é bem diferente da cultura em BH. A cidade é bem mais caótica. Mas, nem por isso pouco acolhedora. O Rio tem pessoas de todas as partes do país, algo mais difícil de se ter em BH, por exemplo.
Noto que o fato de o carioca se orgulhar muito de ser carioca sempre incomodou o bairrista belorizontino. Sim. Porque o belorizontino é extremamente bairrista, né? Sabe-se lá porque considera que as outras populações se acharem o máximo afeta a sua vida em alguma coisa.
Morei em BH até os meus vinte e cinco anos. Lá eu sentia que as pessoas sempre se preocupavam se a grama do vizinho era mais verde. Aqui no Rio as pessoas não se preocupam tanto com a grama do vizinho. Afinal, quem tem praias tão lindas vai se preocupar com grama de vizinho?
O carioca é veloz, é objetivo e é despojado. Não anda arrumadinho como os belorizontinos. Aqui o uniforme é regata, bermuda, chinelo e óculos escuros. O carioca gosta de curtir a vida e isso transparece em seu sotaque cheio de ginga. O carioca fala como se estivesse sambando. E, mais importante, o carioca não repara na roupa dos outros como os belorizontinos reparam.
Enquanto os mineiros puxam papo com os "forasteiros" (gente de outras cidades) o tempo todo, sempre tentando oferecer um pão-de-queijo e um café pra puxar a sua língua, o carioca deixa o café na mesa para que você se sirva, sem nenhum tipo de cerimônia. O carioca não pergunta sobre sua vida, não pergunta o que você está fazendo, não pergunta nem de onde você veio. O carioca percebe pelo teu sotaque e te oferece um Guaravita gelado. O carioca não alonga a conversa. O carioca precisa aproveitar o tempo para dar um mergulho. E ele vai dar um, dois, três.
O carioca é alegre, bem humorado, bronzeado, feliz. O carioca sequer se importa se alguém o acha marrento. O carioca se encherá mais ainda de orgulho disso, prezado belorizontino.
O carioca é carioca. E isso não é pra qualquer um. Por fim, devo dizer que tenho um filho carioca e ainda em tenra idade. E, portanto, quero que vá à merda quem disser que cariocas são antipáticos desde a tenra idade. Ou, em bom mineirês, que vá pastar!
O advogado do diabo
O que mais me impressiona é a quantidade de gente que vai a missas e que admira pessoas responsáveis pela implantação de governos tiranos. Governos que torturam pessoas, que deixam crianças órfãs. Pessoas moralmente deploráveis aplaudidas de pé por cristãos de meia tigela. Repito: de pé, por cristãos de meia tigela.
Esse troço de pagar de bonzinho, de pregador da paz, mas ao mesmo tempo enaltecer criminosos de guerra revela, pelo menos aos meus olhos, um contrasenso enorme. Há algo errado em um comportamento assim, pois é um comportamento muito hipócrita. A menos que ser hipócrita não seja mais um problema moral, a hipocrisia deve levar uma pessoa crítica a buscar entender porque está sendo contraditória. Pode fazer Psicanálise ou pode perguntar como as outras pessoas a enxergam, para tentar ver se a imagem linda que tem de si mesma coincide com o que os outros percebem. Ou será que acham que ninguém percebe?
Incomoda-me também a covardia que demonstram ao negarem os motivos que as levam a admirarem canalhas. Ninguém deve justificar porque admira um canalha. Afinal, todos temos direito de admirar canalhas. Mas, é muito feio fingir que não admira. É bonito quando assumimos nossa posição se admirarmos um canalha a ponto de nos preocuparmos tanto em enaltecê-lo, a ponto de nos preocuparmos tanto em homenageá-lo. Assumir a admiração já explícita em vez de covardemente, hipocritamente, negá-la. Todos já estão vendo. O rei está nu.
"A vaidade é o meu pecado favorito", disse Milton, personagem do Al Pacino em "O advogado do diabo". E a vaidade, sobretudo a acadêmica, a intelectual, faz com que muitos esqueçam os crimes de guerra de outro acadêmico para tentar valorizar um intelecto que nunca é colocado em prática nem mesmo pelo próprio "intelectual". Em outras palavras, nem o aplaudido por bajuladores acredita em si mesmo. Os bajuladores lhe engraxam os sapatos sujos de sangue, lustrando-os para que algo brilhe em uma criatura detestável.
Sempre haverá tempo para uma pessoa cristã entender que Cristo e Kissinger não falam a mesma língua. E sempre haverá tempo para quem se acha impecável perceber que também peca. Segundo o apóstolo Mateus, mais precisamente no capítulo 6, versículo 21 de seu Evangelho: onde está o seu tesouro, aí está também o seu coração. Deste modo, aquilo que você valoriza é exatamente aquilo que você ama. Não se pode valorizar, portanto, quem faz guerras e amar Cristo, pois Cristo jamais passaria pano para criminosos de guerra. Ou se valoriza um tirano ou se valoriza Cristo. Ambos são muito antagônicos para serem simultaneamente defendidos. Assim, façamos um brinde à vaidade! Ela quase sempre vence o homem e o joga abruptamente no chão. A vaidade, a formidável vaidade. O pecado favorito dos advogados do diabo.
A linguagem e a argumentação
Ora, isso mostra que tais pessoas não estão preocupadas com o estudo da coisa em si, mas apenas em serem olavos de carvalho da vida, desejosas de brilho filosófico sem argumentos que justifiquem tal brilho. O que na matemática ou mesmo entre cientistas é corriqueiro e plenamente aceito - muitas vezes até com gratidão -, não o é entre a maioria das pessoas.
A Ciência e a Filosofia estão acima dos egos pessoais. Ontem eu dei um comentário absolutamente pertinente, que foi atacado por um cara sem que houvesse falha alguma no que foi expresso por mim. Ao perceber que ele não compreendia o que eu dizia, mostrei-lhe um contraexemplo para perceber onde estava a sua falha de raciocínio. Minha intenção? Nenhuma. Isso faz parte do ato de pensar, da argumentação. É algo tão natural como respirar.
Não é à toa que nunca fui atacada por filósofos. Afinal, a dialética nasce na Filosofia. E seu uso, assim como o próprio espírito filosófico, é aplicável em todas as ações humanas, uma vez que em todas elas devemos pensar no que fazemos e no porquê de estarmos fazendo isso e não aquilo. A razão deve preceder as ações ou seremos alienados. Uma pessoa alienada é aquela que despreza as hipóteses, as causas, e acredita que compreende bem a tese, ou seja, os efeitos.
Ninguém é arrogante por fazer questão de pensar sempre. Arrogantes são aqueles que afirmam coisas falsas, que se baseiam em raciocínios falhos, e, ainda assim, querem que todos as aceitem como verdadeiras. Esse comportamento fere o espírito matemático, que se fundamenta, essencialmente, no trabalho lógico-dedutivo. Independente da área em que se trabalha, um contraexemplo é um contraexemplo. A matemática não especula. Não é à toa que a maioria de nós se irrita com a economia baseada em especulação e com qualquer afirmação imposta a todos mesmo sendo mal fundamentada, mal estruturada, sem se sustentar de modo algum. Como sugere a Marguerite, no filme que vi quinta-feira, basta mudar o enunciado! Basta aplicar o exercício da razão, exercício esse que é indissociável da humildade.
Ser humilde não é ser calado. Ser humilde é apreciar mais o pensamento que os aplausos. O ato de pensar é sempre um ato de humildade. Em particular, deve aceitar questionamento, pois é dialético. Quem pensa não apaga comentários nem exclui pessoas que "ousam" questionar seus argumentos. Menos ainda, ofende-se com contraexemplos. Quem pensa entende que não importa quem seja o interlocutor! Pode ser feio, bonito, temperamental ou sereno. O que importa unicamente é o texto, é o que está sendo dito. Nada é pessoal para aqueles que se atêm unicamente ao texto, ao que está sendo dito , e não às características de quem diz.
Igualmente, é no argumento que está o pensamento.
Quando as pessoas aprenderão a se ater exclusivamente ao texto? Quando aprenderão que seus sentidos são construídos, entre tantas outras coisas, pela coerência apresentada?
Só os poetas conseguem ser inocentes
Pode-se admirar a obra de um homem sem admirar o homem. E quando se trata de alguém deplorável cuja obra se admira, tudo que se espera de quem separa tal homem de sua obra é que, no momento de sua morte, faça-lhe apenas um minuto de silêncio. Isso, sim, revela separar um homem detestável de sua obra, quando se considera esta relevante.
Curiosamente, muitos enaltecem homens deploráveis, por algo intelectual que tenham deixado. E, como justificativa, dizem que o fazem por serem imparciais. Ora, imparciais seriam se não manifestassem a admiração, se não se incomodassem em ver um homem morto ser merecidamente julgado por sua moral empobrecida por atos de violação aos direitos humanos.
Quem separa o homem da obra sabe que as obras podem ser imortais, mas, os homens não. Aceita-se a morte do homem e, se deplorável, não se sofre nenhum pouco com tal morte. Sente-se até um alívio, como se alguma justiça tivesse finalmente sido feita, quando a vida leva embora pessoas responsáveis pelo fim da vida de outras. Por outro lado, a obra fica, permanece intocável e, portanto, os admiradores da obra não têm motivos reais para se inquietarem com a morte do autor. Assim, a morte de um homem só incomoda realmente quem não é capaz de separar um homem de sua produção intelectual ou artística e não o contrário. Só incomoda quem é parcial. Os imparciais não sentirão sua morte, uma vez que saberão que a obra e o autor não se misturam.
Opa! Mas, espere um pouco aí. Será mesmo que em todas as áreas, autor e obra não se misturam? Ou apenas na produção artística? Existe eu lírico em um texto acadêmico? Aí é que está! Na ciência, os textos são escritos com o conhecimento da causa e efeito. E são textos com intencionalidade. Escreve-se para defender um ponto de vista bem fundamentado teoricamente a partir de dados bem analisados. A intencionalidade textual faz com que autor e obra não se separem. Se um autor se separa de um texto acadêmico, é porque nem ele acredita no que escreve, escrevendo, portanto, apenas para vender seu peixe. Em tal caso, escapa-nos uma pergunta imediata: a troco do que escreve? Trabalha para quem? Quem o está pagando para escrever? Quem o está comprando? Aos interesses de quem atende?
A ciência nunca foi imparcial, uma vez que se insere na esfera política. Isso não significa que não seja confiável. Significa apenas que ela não pode se isentar das consequências que sabe muito bem que deixa.
Uma obra só consegue se separar do autor quando se trata de textos literarios. Isso porque esse tipo de texto foge a licenças de ordem moral. É o texto pelo texto. A estética é o seu foco e os diversos sentidos que produz. A palavra não deve ser amarrada. Pelo contrário, corre solta. Mas, corre solta por linhas bem traçadas pelos autores. Quanto mais o poeta desvencilhar o texto de si, melhor cumprirá a sua pena. A pena que escreve. Não a punição. Afinal, o poeta não é o poema. E é nisso que ele se salva. É nisso que ele escapa daquilo que escreve. Ninguém pode provar que ele quis dizer isso ou aquilo. A poesia multiplica sentidos e torna leitor coautor de qualquer obra. Apenas os textos literários têm essa capacidade. Os acadêmicos, não. Os acadêmicos colocam o autor no olho do furacão. Somente a literatura é capaz de criar sem deixar rastros de seus autores. Assim, a poesia inocenta o poeta. E, assim, só se pode ser realmente livre dentro do campo da criação artística.
Ninguém fala em criação acadêmica e, sim, em produção acadêmica. A gente fala é em criação artística. A produção acadêmica tem o propósito de prestar serviço à sociedade. A criação artística, não. Esta insere o homem em sua individualidade, que nunca deixa de ser também coletiva. Não há um só sentido, uma só interpretação (Quem assina, de fato, o poema?). No texto acadêmico, porém, só há uma interpretação. Somente os autores se responsabilizam pela interpretação daqueles que souberem ler. Assim, torna-se impossível separá-los de suas próprias obras. Nenhum cientista é inocente. A ética deve, portanto, ser seu princípio mais fundamental e sua ausência pode lhe ser tanto motivo justo de punição quanto motivo plausível de repugnância.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
Gente rabugenta
É claro que a fome existe no natal. É claro que sempre existiu. Mas, também deveria ser claro que a culpa não é do natal, não é da data comemorada com ceia farta. Existem pessoas tão amargas, que odeiam o natal porque muitos não têm natal. E há também os que o detestam por não terem famílias, o que, ao menos, é um argumento.