Começo este texto já adiantando que
ele não agradará homens muito machistas. Entendam o “muito” aqui como a
afirmação de que todos os homens são machistas, mas que alguns passam de um
limite razoável para que se possa conviver com eles sem se sentir
constantemente desrespeitada. Ao longo da história, mulheres têm conquistado
direitos importantes. Direitos que levaram séculos para serem adquiridos. Direito
ao voto, direito ao divórcio sem a perda da guarda dos filhos, direito è
educação formal (isto é, o direito a estudar em uma escola e não em ambiente
doméstico) e, em alguns lugares, até mesmo o direito ao aborto. Em alguns
países, se uma mulher é estuprada e engravida, ela não só é obrigada a ter a
criança como também é obrigada a se casar com o estuprador. Na Ìndia, além disso, mulheres devem se esconder quando menstruam, dado que
Deus nos fez naturalmente sujas e pecadoras, sempre associadas a incitar os
homens à perdição. As mulheres os tentam e os santos homens caem em tentação. E
são sempre perdoados, vítimas dos instintos, da testosterona e de quaisquer
desculpas que lhes permitirem fazer o que quiserem e sempre culparem as mulheres.
No
que tange ao sexo, o mundo sempre foi violento apenas com as mulheres. Jamais
com os homens. A não ser com os homossexuais afeminados e, mesmo assim, porque
estes são considerados traidores por “negarem a sua masculinidade”. Preferir se
assemelhar a uma mulher é imperdoável em uma sociedade patriarcal. Sequer
compreendem que um gay, afeminado ou não, ainda é muito diferente de uma
mulher. Seja como for, a sociedade tolera mais um homossexual não afeminado do
que um afeminado. A sociedade não tolera travestis e nem mulheres trans.
Podemos dizer, sem medo algum de errar, que a LGBT-fobia representa o ápice da
misoginia. Porque nenhuma mulher é expulsa de casa por ser mulher. Mas uma
mulher trans é expulsa de casa por ser trans. Ser mulher trans é renegar a masculinidade
e isso é algo que a sociedade patriarcal não perdoa. Entretanto, ainda que não
perdoe, tira proveito. Mulheres trans e travestis, não raras vezes, são
empurradas para a prostituição, por mais que tenham plenas condições de
exercerem quaisquer profissões que tenham um dia sonhado para si mesmas. A
objetificação das mulheres atinge tanto pessoas cis quanto pessoas trans. Basta
que sejam fêmeas. Em ambos os casos, é bom que sejam mansas e obedientes. É bom
que a travesti não queira largar uma vida de servilismo sexual (que lhe é
imposta pela sociedade!) e nem mesmo as mulheres cis que se prostituem. Afinal,
a prostituição beneficia unicamente os homens que as comem. Mesmo quando
falamos das mulheres que se prostituem por fetiche, estamos falando de alguém
que escolhe ser servil e se subjugar à vontade masculina. Quem paga é o homem e
quem paga é quem manda. Estamos falando da relação patrão/empregado. A mesma
relação que o ator Pedro Cardoso, corajosamente, denuncia, ao expor o quanto
homens poderosos das empresas de TV e de cinema exploram o corpo das atrizes. Sem
papas na língua, porém com educação (assim como eu), ele expressa sua
indignação em defesa da dignidade das atrizes. Exige-se delas uma nudez
forçada, desnecessária à trama, o que revela que não há ali nu artístico algum,
mas apenas uma imagem pornográfica. Com efeito, ali está a atriz nua e não a
personagem nua. A personagem não precisaria estar. Os empresários querem
audiência e, para consegui-la, precisam vender imagens de mulheres nuas para
satisfazerem as exigências sexuais dos homens. Os homens se acham tão no
direito de terem as mulheres a seu dispor, que a cultura naturalizou a
existência de uma revista chamada Playboy, na qual empresários pagavam altos
cachês pelas mulheres mais cobiçadas pelo público masculino. Quanto pagariam
por um mulherão de seus sonhos? Pagariam muito se assim pudessem. A propósito,
certa vez ouvi um homem rico e garanhão dizer que poder pagar por uma mulher
lhe satisfazia mais que ter o amor de alguma. Porque um homem é poderoso pelo
que ele pode comprar. Que lhe interessa o amor? Amor não se compra, não é
mesmo? Outra dia foi a vez de um esquerdomacho dizer “mulher que se leva para tomar vinho”.
Leia-se: mulher que se leva a lugar caro para impressioná-la e comê-la.
De um
modo geral, os homens sempre acham que temos um preço. Se não tivermos, é capaz
de perderem o tesão. Há um prazer no poder de compra. Mas, não sejamos ingênuos.
Esse prazer não é inerente ao próprio homem. É uma herança cultural. E uma
herança que ganhou cada vez mais força com o capitalismo. Essa força está tão
grande, que o ser humano já não consegue diferenciar as pessoas dos objetos.
Como disse Zygmunt Bauman, todo mundo está sendo transformado em objeto. Seja sexual,
seja trabalhista. Tudo virou líquido. Vejamos um exemplo disso. Em aplicativos
de encontro como o Tinder, as pessoas se conhecem em vitrines, não é mesmo? As
fotos são vitrines e, meramente pela foto e pelas informações no rótulo deste
produto (gostos pessoais), os usuários decidem se levam ou não aquele produto.
Não precisam se conhecer, necessariamente. Conversar? Que coisa mais antiguada!
Ali é para se encontrarem, se consumirem e se o produto não agradar, troca-se
por outro. Tudo isso com a mais absoluta naturalidade, sem que ninguém sequer se
pergunte sobre como é ser um produto em uma vitrine. O prazer da descoberta
intelectual, coisa só possível por um papo legal tornou-se algo completamente
dispensável para boa parte das pessoas, tanto homens quanto mulheres. A
objetificação, ou seja, tratar pessoas como produtos cujo objetivo de uso mútuo
é o da satisfação sexual imediata e mais nada, pode levar ao descarte, ou não, do produto.
Se o produto satisfizer bem, talvez haja algum apego como o de uma pessoa por seu
relógio de ouro. O intelecto já não interessa a quase ninguém.
A
objetificação das mulheres, porém, atingiu também a esfera do mundo
puramente virtual. Em particular, há homens que pagam caro para ver vídeos
sensuais de mulheres falando sacanagens enquanto eles se masturbam do outro
lado da tela. Segundo o documentário “Pornocracy”, essa é uma nova forma de
prostituição. Nela, homens do mundo inteiro escolhem o rosto que desejam e
pagam por um vídeo ao vivo com aquelas mulheres. Mulheres de diversas partes do
mundo. Sequer precisam tocá-la. A imagem é suficiente para que se masturbem e
gozem e o importante é que eles gozem e só. Há redes sociais em que mulheres
vendem fotos e vídeos. Por exemplo, o onlyfans. Em tais sites, vendem suas
imagens para homens cujo sonho é o de comprá-las. Elas não se importam e consideram
que são empoderadas sexualmente. Pergunto: que empoderamento é esse que
transforma um ser humano em produto? Estamos falando de um ser humano que
decidiu se vender. Não há liberdade alguma aí. O simples fato de uma pessoa
decidir o que fazer com o próprio corpo não significa que decidiu pela liberdade
dele. Um escravo que decide ser escravo não deixa de ser escravo por ter
escolhido “livremente” ser um. Quem dita as regras ainda é seu senhor. Com as
mulheres não é diferente. Infelizmente, há uma apropriação indevida do conceito
de liberdade sexual da mulher. A liberdade só pode ser liberdade enquanto não a
sujeitar à prostituição, à condição de um produto. Uma mulher que não se
prostitui é que pode ser livre. Uma mulher que se prostitui jamais será. Entristece-me
consideravelmente ver uma mulher se sujeitar à condição de um produto. Isso
independe de eu gostar ou não dela, de ela ser politicamente de esquerda ou de
direita. É um ser humano. Entristece-me também ver tantas vezes as minhas palavras serem desonestamente
consideradas “machistas” justamente por esquerdomachos que se aproveitam da
sujeição dessas moças. Eu sinto pena da subjugação delas e sinto um enorme nojo
deles. Utilizam um discurso desonesto e mentiroso, dando a entender que elas
são livres por escolherem fazer o que querem com seus corpos, quando o que
escolhem é se expor para eles. É claro que eles vão defender essa “liberdade”,
uma vez que eles se beneficiam com a exposição dessas mulheres. Mas, e elas? Em
que elas se beneficiam? Em quê? Em nada! Muito pelo contrário. Suas fotos são
distribuídas de um homem para outro, sempre acompanhadas de palavras que as
objetificam. E elas, tolas, não são capazes de perceber que isso não é
empoderamento algum. Até eu já recebi, por engano, foto de uma mulher. Um homem
de esquerda me enviou errado a foto de uma mulher que o amigo dele pegava.
Desculpou-se. Não há desculpas. Isso é sórdido. Imaginem: uma mulher envia uma
foto para um homem e ele distribui para os amigos para mostrar o quanto ele é fodão
e pegador. Um pegador, ou seja, um homem que consome mulheres deliberadamente.
É um discurso mentiroso fazer essas moças acreditarem que realmente não se
objetificam. Esses homens curtem ver fotos nuas de mulheres nas redes usando
esse discurso falso de empoderamento para se aproveitarem delas, da imagem
delas. Entretanto, não são capazes de defender a exposição de suas companheiras
nuas para outros homens. Aí o discurso deles muda. Esse comportamento é
desonesto, mentiroso, torpe mesmo.
Mas, falemos um pouco dos homens bons também. Alguns, bastante conhecidos. Virginia Woolf teve um marido que a apoiou
bastante. As irmãs Brönte tiveram apoio do pai. Camille Claudel teve um pai que
acreditava muito nela (infelizmente morreu antes da artista). A matemática Emmy
Nöether foi defendida pelo matemático
David Hilbert para dar aulas em uma universidade. Ele enfrentou uma luta para
conseguir legitimar que mulheres ocupassem cargos de relevância científica.
Marie Curie também foi apoiada por seu marido, também cientista. O filósofo inglês Stuart Mill , em sua obra “A
sujeição das mulheres” (obra que escrevera com sua esposa Harriet Taylor)
defendeu, ainda na era vitoriana, que mulheres deveriam ter plenos direitos
sobre a propriedade, sobre o voto e sobre exercerem carreira política ou
qualquer outra que lhes interessasse. Mill ainda dizia que sua esposa era uma
das mentes mais aguçadas que ele já conhecera. O que todos esses homens têm em
comum? A resposta é simples: o apreço pelo intelecto da mulher. Apreço suficiente
para defenderem que, em vez de usarem o corpo para se sobressaírem na vida,
elas usassem o cérebro, o intelecto. Exatamente como fazem, a princípio, os
homens.
Antes
de encerrar, cabem algumas considerações bastante importantes aqui. A primeira
delas é que abundam homens de esquerda que gostam de silenciar mulheres. O
silenciamento pode ser tanto direto quanto indireto. No indireto, eles se
recusam veementemente a ouvir o que elas têm a dizer, sobretudo quando o que
elas dizem se referir a algum proveito deles sobre mulheres. Não ouvem e ainda
tentam dar a entender que as falas são infundadas ou que feministas reclamam
muito. Em alguns casos, podem até acusarem a feminista de machismo, enquanto eles
continuam tirando proveito das situações que o patriarcado lhes oferece.
Desde
2016 atuo como coordenadora do Programa de Iniciação Científica da OBMEP em uma
das regiões do Rio de Janeiro. Este programa tem como um de seus objetivos, despertar
o interesse das meninas pela matemática e pelas áreas de tecnologia. Sou uma
mulher que atua na área de extas, embora eu goste consideravelmente de Literatura
e Filosofia. Nas áreas de STEM (Ciências, Tecnologia e Matemática), nós temos
que lutar dobrado até hoje. Muito espaço ainda há para ser conquistado. E para
nós, mulheres que lutam pelo crescimento intelectual de outras mulheres, ver qualquer
mulher se objetificar é algo muito triste, independente de quem seja, de
gostarmos ou não dela ou de quaisquer divergências possíveis. Nosso desejo é o
de que estas mulheres não se sujeitem mais a homem algum para se sustentarem.
Que, em vez de fãs, busquem ter amigos, assim como Emmy Nöether teve em Hilbert.
Porque existem homens que são sim amigos das mulheres. E estes são exatamente
aqueles que nunca gostarão de vê-las se venderem.
Para
finalizar, sempre deixei muito claro o que aprendi lendo “As reivindicações dos
direitos das mulheres”, de Mary Wollstonecraft. Nós, mulheres, devemos recusar
a ideia, tão defendida por Jean-Jacques Rousseau em seu livro “Emílio”, de que
a educação que nos cabe é a de aprendermos a ser bem cortejadas. Rousseau
desprezava tanto o nosso intelecto e, ao mesmo tempo o temia tanto, que
insistia que as mulheres deveriam ser educadas em casa e, mesmo assim, apenas
para a vida doméstica. Para ele, a maioria das mulheres era frívola e, para
serem felizes, bastar-lhes-ia receber elogios sobre sua beleza, além de muitos
presentes que garantissem a sua subsistência. Espero ter deixado claro até aqui
que não existe liberdade da mulher enquanto ela não valorizar o seu próprio
intelecto. Por fim, é preciso ter muito cuidado com a apropriação indevida do
termo “liberdade sexual da mulher” pela sociedade patriarcal. Em particular,
essa liberdade não está dissociada do seu intelecto. Deste modo, uma mulher
intelectual pode ser plenamente livre, uma vez que a inteligência não lhe
retira, de modo algum, a sensualidade. Associar liberdade à objetificação é um
equívoco que só favorece os homens, jamais as mulheres. Recentemente, li que os livros mais vendidos
na Amazon num determinado mês do ano passado foram aqueles no estilo “50 tons de cinza”. Vários
romances com a temática do homem rico e conservador que abusa psicologicamente de mulheres com joguinhos sexuais de poder. Quem comprava tais
livros eram majoritariamente mulheres. Não é chocante isso? Assim, deixo para
vocês um minuto de reflexão sobre que ideia de empoderamento a mídia, a TV e o
cinema têm vendido para as mulheres.