sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Razão e sensibilidade: não existe uma sem a outra

Pois bem. Vamos falar sobre o emocional e sobre o grande erro que muitas pessoas cometem quando avaliam ou julgam alguém sem considerar os contextos pessoais de cada um. Começo esse texto criticando o enaltecimento que a sociedade demonstra para o individualismo e a frieza como valores associados à racionalidade. Porém, todos que confundem indiferença e individualismo com racionalidade sempre utilizam como argumento os seus ressentimentos ao longo da vida. Não passam de pessoas amargas e ressentidas que, não raras vezes, são fechadas para os outros. O culto à frieza. Devemos observar que uma coisa é ter controle emocional, outra é ser indiferente. Aliás, até para não ser indiferente é preciso se controlar. De fato, podemos estar com raiva de alguém, mas, nem por isso voarmos no pescoço dela! Nem por isso deixarmos de estender-lhe as mãos. Logo, há mais controle emocional em quem não pensa apenas em si mesmo. Este é o primeiro ponto que coloco para que as pessoas percebam que é preciso ser sensível para ser racional. Porque a razão exige de nós uma capacidade alta de análise. Mas, é impossível analisarmos as coisas bem se não soubermos nos colocar no lugar dos outros.

O segundo ponto que coloco tem a ver com a presunção com que muitos avaliam pessoas sem prestarem atenção no quão sensível elas possam estar. Ontem tive um professor convidado para palestrar em minha aula e ele apresentou os excelentes resultados de muitos de seus alunos. Mas, não eram quaisquer alunos. Eram alunos muito desacreditados pela sociedade. Ele disse que o primeiro passo é motivá-los e que isso só é possível elevando a autoestima deles. O professor foi enfático ao dizer o quanto o emocional influencia nos resultados e nas desistências, nos abandonos aos sonhos. Os alunos perdem a confiança em si mesmos. Não se pode ignorar a influência do estado emocional nas avaliações. Em particular, porque avaliações podem punir! E assim são as pessoas que adotam como lema o individualismo ou a análise fria sobre alguém. Vivemos em uma sociedade que jorra trocentas milhões de informações em nossas mentes. Boa parte delas desgastantes. Todos temos demandas que nos esgotam. Todos precisamos desabafar ou chorar. Não existem super-heróis. Muitos de nós temos ansiedade. Eu sou uma delas, por exemplo. Eu não consigo ficar sem fazer nada sem que a ansiedade tome conta. Eu sempre preciso me ocupar com algo. Isso não significa que eu não descanse. Mas, eu nunca vou conseguir ficar várias horas sem fazer nada. Vai me entediar e dar ansiedade. A ansiedade pode virar enxaqueca. Ela pode virar manchas roxas no braço etc. Mas, eu não tenho a menor dúvida de que qualquer pessoa que gosta mesmo de mim vai preferir me dar um abraço e perguntar "tudo bem?" do que me tratar com indiferença. Da mesma forma, eu sei que meus inúmeros alunos que fazem provas ruins ou que tentam desistir dos cursos, muitas vezes mudam de ideia após uma longa conversa comigo. Com direito a um abraço meu, inclusive. Tenho vários exemplos deles. Houve uma que terminou o mestrado recentemente e que me disse que a conversa que eu tive com ela foi primordial para ela não ter desistido da matemática no segundo período. Eu a animei. E muita gente não acreditava nela. Eu sempre me pergunto que arrogância é essa que pode fazer com que você duvide de alguém porque a pessoa está ansiosa ou triste ou simplesmente por ela ser muito diferente de você, como é o caso das pessoas com necessidades educacionais especiais e tantas outras fora do padrão. Eu fico muito triste (decepcionada é a palavra mais precisa) com pessoas que não são capazes de sequer olhar as outras com mais inteligência. Notem que nem falei em olhar alguém com mais carinho. Porque pra mim, olhar é coisa de gente inteligente. Vai muito além de carinho. Tem a ver com uma capacidade de análise, de perceber que algo não vai bem com alguém. Obviamente, conversar é mais racional do que punir as pessoas com silêncio e tratamentos hostis fazendo com que se sintam inadequadas ou um peso para outras, predispostas a desistirem de um tanto de coisa. Diálogos são sempre mais racionais porque é o único meio de se resolver um problema para todos os envolvidos. Vivemos em uma sociedade que não perdoa a sensibilidade, que vê a sensibilidade com maus olhos e que venera o imediatismo e a falta de análise dos fatos. É uma sociedade burra e consumista que transforma todo ser humano em um objeto. E esses objetos humanos já não têm sentimentos ou não buscam ter. Buscam o lucro, o sucesso, o prazer desenfreado sem virtudes (a questão aqui é o desprezo às virtudes). Mas, de que virtudes falo? Falo da honestidade, do senso de justiça, da humildade de não espezinhar os outros, de não rir de alguém, de não se achar melhor que, de não se achar infalível. Falo de uma sociedade que separa as pessoas em vencedores e vencidos, mas que joga um jogo que nem ela sabe que é uma das peças dele.


Há gente superior demais nesse mundo. Gente que considera outras um peso morto. Gente que se acha tão melhor a ponto de tirar sarro, de agredir ou de fazer piadas, não raras vezes debochando dos sentimentos de outras sem um mínimo de pudor, sem um mínimo de sensibilidade. É claro que a autoestima é a única via dos vencidos perceberem que vencerão. Mas, que, ao contrário dos outros, dos fodões inabaláveis, vencerão sem ilusões. Em particular, sem ilusões consigo mesmos. Afinal, não existe nada mais frágil do que uma pessoa que consegue se iludir consigo mesma. Isso sim é o cúmulo da fragilidade. Não é falhar o cúmulo. É simplesmente ser tão incapaz de se enxergar que não consegue também enxergar os outros. Pensemos. Com sensibilidade, é claro. E sintamos. Com toda a razão que nos couber.

Sobre razão, afeto e liberdade

A liberdade serve à razão, não à emoção. O filósofo Kant dizia que só conseguimos ser livres se formos capazes de dizer não àquilo que desejamos. Em outras palavras, se formos capazes de perceber que nem tudo o que queremos comunga com os valores que cultivamos. Então o que devemos escolher? Ser livre seria, nesse caso, escolher fazer o que quer? Para Kant, não. Para Kant, quem só sabe fazer o que quer é, na verdade, um escravo do desejo. Ser livre seria ser capaz de analisar a influência dos desejos em nossas ações e ser capaz de não se ajoelhar diante deles. Cabe observar que não fazer o que quer e fazer o que não quer não são, necessariamente, a mesma coisa. Fazer o que não quer também pode levar a situações de escravidão. Então, onde está o espírito da liberdade? Está em ter possibilidade de escolher e em fazer um uso consciente desse poder de escolha. Livre é quem se põe em condições de fazer uso da razão. É nítida a influência de Kant sobre Hannah Arendt, que cunhou o termo "banalização do mal" para se referir à prática do mal sem questionamento. Notem também que esse termo exemplifica com exatidão o que falei antes: fazer o que quer também não significa ser livre. É preciso fazer uso da escolha consciente. A questão de Arendt é mostrar que só podemos fazer o mal quando não fazemos uso da razão. Dito de outro modo, só quem pensa é capaz de dizer não. Em particular, quem tortura alguém obedecendo a ordens só o faz porque não questiona este ato. É a banalização do mal. Assim, por mais contraditório que possa parecer, vamos concluir que para sermos éticos, bons e amorosos devemos sempre saber usar a razão. Sempre. Muitas vezes as pessoas confundem razão com ausência de sentimentos. Pelo contrário. A razão é unicamente pensar. Pensar e sentir não são a mesma coisa! Pode-se ser muito racional e muito emotivo ao mesmo tempo (quem é libriano sabe disso muito bem, inclusive).

A grande questão é que não existe amor sem razão. Inclusive, quando se renuncia a algo por um bem coletivo vemos alguém atuar por amor, não é? O amor não olha apenas para si. Daí a capacidade de escolher o que é melhor para todos, mesmo não sendo o melhor para você mesmo. Daí a capacidade de ir embora quando a sua ausência torna as pessoas mais felizes. Tudo isso é ato de amor. Percebem? Não existe amor longe da razão. Porque amar necessita da existência do objeto do amor. Logo, pressupõe outra existência e você terá de levar essa outra existência em consideração. Terá de pensar sobre isso. Uma vez escrevi um "textão" aqui falando sobre isto: não existe razão sem sensibilidade. A razão só existe em quem tem sensibilidade. A ausência de sentimentos é amargura e pessoas amargas costumam agir em obediência cega a rancores. Logo, são escravos de certos fantasmas que precisam de cura. Resumindo: quem não se mostra capaz de pensar, não se mostra capaz de amar.

As vantagens da Barbie

Na última semana, um filme sobre a Barbie estreou nos cinemas mundiais. Tendo contado com um excelente trabalho de marketing, o assunto “Barbie” tem viralizado nas redes sociais. Muitas pessoas, mais entusiasmadas, fãs ou não da boneca, mostram-se alegres em fotos com fundos cor-de-rosa, enquanto outras, com ares de ranço ou desprezo, optam por tirar sarro de toda essa empolgação. Já eu, que sou uma pessoa sempre empolgada com aquilo que “faz a minha cabeça”, não me irrito nenhum pouco com as paixões alheias cor-de-rosa. As paixões que me irritam costumam ser em verde e amarelo e fazem arminhas com as mãos. As cor-de-rosa... as cor-de-rosa não me incomodam não.  Sei que sempre preferirei as pessoas apaixonadas às pessoas indiferentes - pelo menos as primeiras eu sinto que ainda estão vivas.

De minha parte, que ainda não assisti ao filme, nada posso dizer a seu respeito, a não ser o que rapidamente li em alguma postagem alheia: trata-se de um filme feminista. Alguma Barbie havia sido expulsa da “Barbielândia” por não ser uma mulher perfeita e, na busca por onde morar, acabou tendo de conviver com humanos. Bom, foi o que li da tal postagem e, portanto, não me responsabilizo pela veracidade dos fatos ali descritos. Eu realmente precisaria ver o filme. Entretanto, uma coisa eu já posso observar mesmo sem tê-lo visto me baseando somente no que li: um filme cuja protagonista imperfeita é representado pela belíssima (e execelente) atriz Margot Robbie só pode mesmo estar de sacanagem com o telespectador. Quem ousaria dizer que essa beldade é imperfeita? Em sã consciência, ninguém. Pois é. E aí o filme apresenta uma coerência marcante: as exigências que pesam sobre as mulheres na sociedade real também são descabidas. Em particular, as que envolvem seus corpos e as suas idades. Mulheres são expulsas quando não são perfeitas. As “mais velhas” são criticadas quando estudam com as mais novas em certas universidades. As mais velhas escutam “Nossa! Como você está bem! O que você faz para estar assim?” (como se as quarentonas, cinquentonas, sessentonas etc perdessem a capacidade criativa, a capacidade de transarem, a capacidade de amarem e de viverem plenamente como bem entenderem). As que estão um pouco acima do peso sofrem deboches que os homens mesmo não sofrem. Aliás, homens costumam ser tão ridículos, que chega ao ponto de diversos homens claramente gordos exigirem que suas esposas emagreçam com a desculpa de se preocuparem é com a saúde. Ora, se fosse preocupação com a saúde, eles fariam regime e parariam de beber. Em suma: há sempre dois pesos e duas medidas e dependendo do seu sexo, você pode ter que sair da Barbielância também. Afinal, a vida não é tão cor-de-rosa assim para as mulheres.

A minha geração, nascida na década de 1980, talvez tenha sido a última em que meninas de dez anos ainda se entusiasmavam com a Barbie. Hoje, nessa idade, as meninas não costumam mais brincar de bonecas. A Barbie de hoje tem um teto menor, ou seja, o etarismo também já atingiu a boneca Barbie! Eu não fui uma menina que teve bonecas como brincadeira favorita. Eu preferia montar quebra-cabeças, jogar baralho, jogar vôlei, pular elástico, jogar queimada, andar de bicicleta e de carrinhos de rolimã, além de jogar futebol de botão, que faz parte - assim como o jogo de peteca – da cultura belorizontina. Entretanto, como qualquer menina, eu também tive bonecas. Em particular, uma, e somente uma, Barbie. A minha, aliás, eu ganhei aos nove anos. Antes dela, o máximo que ganhei foi uma “Academia da Barbie”, dada por meu padrinho, que cismou que a boneca vinha também dentro da caixa. Para a imensa decepção dele e também para a minha, aquele presente de natal não fora tão perfeito quanto era a Barbie.

Naquele tempo, a qualidade da boneca era melhor, suas roupas eram melhores e até seus sapatos eram prateados. E praticamente todas as meninas quiseram ter alguma, mesmo as que brincavam com carrinhos de rolimã, quebra-cabeças e baralhos. A Barbie representava a imagem da mulher adulta que, em nossas mentes e corações, representava quem seríamos no futuro. Era uma mulher muito bem sucedida. Havia a Barbie médica, a Barbie dona de restaurante, a Barbie arquiteta, a Barbie professora, a Barbie veterinária etc. A Barbie tinha um carrão e uma vida estável e confortável. E sabe o que mais lindo ela tinha, além disso tudo? Ela não precisava do Ken para ter aquilo tudo. Ela não era casada! Não havia aliança dourada alguma em seu dedo. Havia, sim, um anel de brilhantes. Mas, comprado por ela. O Ken era seu namorado e jamais fora o personagem central da história dela. Ele era absolutamente coadjuvante. Nenhuma menina fazia questão de comprar o Ken. Poucas tinham o casal. Porém, muitas tinham várias Barbies! Havia brincadeiras em que na casa de uma várias delas se encontravam para jantar: a veterinária, a médica, a professora. Ken? Quem era Ken? O Ken não nos interessava. Vocês, críticos tão severos da boneca, por acaso acham que isso é pouco? Vocês realmente acham?

Por essas e por outras, é que o entusiasmo  das meninas e das mulheres com a Barbie ainda é considerável. E hoje, somado ao fato de já termos no mercado Barbies baixinhas, Barbies gordinhas, Barbies negras, Barbies cadeirantes, Barbies com vitiligo etc. As Barbies acompanhando as exigências de movimentos sociais para ainda habitarem os sonhos das meninas. E, isso, meus caros, também é uma conquista política, apesar de ainda não termos Barbies que sejam faxineiras ou caixa de supermercado. Quem sabe um dia elas também surjam nas prateleiras? Quem sabe a realidade um dia mude no mundo dos sonhos?

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Autoatendimento: bom pra quem?

Uma das coisas mais chatas da rotina de todos nós é fazer compras. E de todas as etapas chatas dessa atividade, a mais chata é a finalização dela: a fila e todo o processo de atendimento dos caixas. Não pelos caixas, é claro, pois são trabalhadores muito explorados que, inclusive, não tiveram o privilégio de fazerem isolamento durante a pandemia enquanto os que tiveram podiam comer às custas do sacrifício deles (eu me incluo entre os privilegiados). Não. Não é por eles. É que nesse momento vemos a exploração geral dos donos das redes de supermercados.

Pagamos caro (tudo está caro) e ainda pagamos as sacolas que, na verdade, deveriam ser dadas aos clientes pelos estabelecimentos. Afinal, se compramos ali, que nos forneçam os meios de levar para casa. Se você compra roupa, sapato, perfume etc, as lojas fornecem os embrulhos. Mas, supermercados são privilegiados. Deveria ser obrigação deles fornecer as sacolas ecológicas gratuitamente. 

Como se não bastasse isso, alguns trabalham com atendimento eletrônico. Máquinas que só aceitam cartão ou pix e que existem para "agilizar" o atendimento (como se você fosse realmente mais competente que os atendentes...rss). 

Mas, as máquinas não são robôs. Nós é que temos que passar os produtos, pesá-los ou digitalizá-los, além de pagar as sacolas e também embalar os produtos. Em outras palavras, o cliente se torna o atendente de si mesmo. Sendo mais clara (se é que ainda não ficou claro): o supermercado poupa a si de contratar mais funcionários transformando os clientes em funcionários. Mas, em funcionários que não recebem salários e nem descontos! A meu ver, deveria ser dado um bom desconto para quem fizesse uso das máquinas, como forma de ressarcir o cliente por trabalhar de graça para o supermercado. 

Quando eu for deputada federal vou criar um projeto de lei para tornar obrigatório o desconto de 31,4% (aproximadamente 10pi) das compras de todos os clientes que utilizarem essas máquinas, assim como a obrigatoriedade do fornecimento gratuito das sacolas ecológicas pelos supermercados. Me aguardem. Já tô de saco cheio. Não de sacolas.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Nem só de narrativas se faz um "empoderamento"

             Começo este texto já adiantando que ele não agradará homens muito machistas. Entendam o “muito” aqui como a afirmação de que todos os homens são machistas, mas que alguns passam de um limite razoável para que se possa conviver com eles sem se sentir constantemente desrespeitada. Ao longo da história, mulheres têm conquistado direitos importantes. Direitos que levaram séculos para serem adquiridos. Direito ao voto, direito ao divórcio sem a perda da guarda dos filhos, direito è educação formal (isto é, o direito a estudar em uma escola e não em ambiente doméstico) e, em alguns lugares, até mesmo o direito ao aborto. Em alguns países, se uma mulher é estuprada e engravida, ela não só é obrigada a ter a criança como também é obrigada a se casar com o estuprador. Na Ìndia, além disso, mulheres devem se esconder quando menstruam, dado que Deus nos fez naturalmente sujas e pecadoras, sempre associadas a incitar os homens à perdição. As mulheres os tentam e os santos homens caem em tentação. E são sempre perdoados, vítimas dos instintos, da testosterona e de quaisquer desculpas que lhes permitirem fazer o que quiserem e sempre culparem as mulheres.

No que tange ao sexo, o mundo sempre foi violento apenas com as mulheres. Jamais com os homens. A não ser com os homossexuais afeminados e, mesmo assim, porque estes são considerados traidores por “negarem a sua masculinidade”. Preferir se assemelhar a uma mulher é imperdoável em uma sociedade patriarcal. Sequer compreendem que um gay, afeminado ou não, ainda é muito diferente de uma mulher. Seja como for, a sociedade tolera mais um homossexual não afeminado do que um afeminado. A sociedade não tolera travestis e nem mulheres trans. Podemos dizer, sem medo algum de errar, que a LGBT-fobia representa o ápice da misoginia. Porque nenhuma mulher é expulsa de casa por ser mulher. Mas uma mulher trans é expulsa de casa por ser trans. Ser mulher trans é renegar a masculinidade e isso é algo que a sociedade patriarcal não perdoa. Entretanto, ainda que não perdoe, tira proveito. Mulheres trans e travestis, não raras vezes, são empurradas para a prostituição, por mais que tenham plenas condições de exercerem quaisquer profissões que tenham um dia sonhado para si mesmas. A objetificação das mulheres atinge tanto pessoas cis quanto pessoas trans. Basta que sejam fêmeas. Em ambos os casos, é bom que sejam mansas e obedientes. É bom que a travesti não queira largar uma vida de servilismo sexual (que lhe é imposta pela sociedade!) e nem mesmo as mulheres cis que se prostituem. Afinal, a prostituição beneficia unicamente os homens que as comem. Mesmo quando falamos das mulheres que se prostituem por fetiche, estamos falando de alguém que escolhe ser servil e se subjugar à vontade masculina. Quem paga é o homem e quem paga é quem manda. Estamos falando da relação patrão/empregado. A mesma relação que o ator Pedro Cardoso, corajosamente, denuncia, ao expor o quanto homens poderosos das empresas de TV e de cinema exploram o corpo das atrizes. Sem papas na língua, porém com educação (assim como eu), ele expressa sua indignação em defesa da dignidade das atrizes. Exige-se delas uma nudez forçada, desnecessária à trama, o que revela que não há ali nu artístico algum, mas apenas uma imagem pornográfica. Com efeito, ali está a atriz nua e não a personagem nua. A personagem não precisaria estar. Os empresários querem audiência e, para consegui-la, precisam vender imagens de mulheres nuas para satisfazerem as exigências sexuais dos homens. Os homens se acham tão no direito de terem as mulheres a seu dispor, que a cultura naturalizou a existência de uma revista chamada Playboy, na qual empresários pagavam altos cachês pelas mulheres mais cobiçadas pelo público masculino. Quanto pagariam por um mulherão de seus sonhos? Pagariam muito se assim pudessem. A propósito, certa vez ouvi um homem rico e garanhão dizer que poder pagar por uma mulher lhe satisfazia mais que ter o amor de alguma. Porque um homem é poderoso pelo que ele pode comprar. Que lhe interessa o amor? Amor não se compra, não é mesmo? Outra dia foi vez de um esquerdomacho dizer “mulher que se leva para tomar vinho”. Leia-se: mulher que se leva a lugar caro para impressioná-la e comê-la. 
De um modo geral, os homens sempre acham que temos um preço. Se não tivermos, é capaz de perderem o tesão. Há um prazer no poder de compra. Mas, não sejamos ingênuos. Esse prazer não é inerente ao próprio homem. É uma herança cultural. E uma herança que ganhou cada vez mais força com o capitalismo. Essa força está tão grande, que o ser humano já não consegue diferenciar as pessoas dos objetos. Como disse Zygmunt Bauman, todo mundo está sendo transformado em objeto. Seja sexual, seja trabalhista. Tudo virou líquido. Vejamos um exemplo disso. Em aplicativos de encontro como o Tinder, as pessoas se conhecem em vitrines, não é mesmo? As fotos são vitrines e, meramente pela foto e pelas informações no rótulo deste produto (gostos pessoais), os usuários decidem se levam ou não aquele produto. Não precisam se conhecer, necessariamente. Conversar? Que coisa mais antiguada! Ali é para se encontrarem, se consumirem e se o produto não agradar, troca-se por outro. Tudo isso com a mais absoluta naturalidade, sem que ninguém sequer se pergunte sobre como é ser um produto em uma vitrine. O prazer da descoberta intelectual, coisa só possível por um papo legal tornou-se algo completamente dispensável para boa parte das pessoas, tanto homens quanto mulheres. A objetificação, ou seja, tratar pessoas como produtos cujo objetivo de uso mútuo é o da satisfação sexual imediata e mais nada, pode levar ao descarte, ou não, do produto. Se o produto satisfizer bem, talvez haja algum apego como o de uma pessoa por seu relógio de ouro. O intelecto já não interessa a quase ninguém.

A objetificação das mulheres, porém, atingiu também a esfera do mundo puramente virtual. Em particular, há homens que pagam caro para ver vídeos sensuais de mulheres falando sacanagens enquanto eles se masturbam do outro lado da tela. Segundo o documentário “Pornocracy”, essa é uma nova forma de prostituição. Nela, homens do mundo inteiro escolhem o rosto que desejam e pagam por um vídeo ao vivo com aquelas mulheres. Mulheres de diversas partes do mundo. Sequer precisam tocá-la. A imagem é suficiente para que se masturbem e gozem e o importante é que eles gozem e só. Há redes sociais em que mulheres vendem fotos e vídeos. Por exemplo, o onlyfans. Em tais sites, vendem suas imagens para homens cujo sonho é o de comprá-las. Elas não se importam e consideram que são empoderadas sexualmente. Pergunto: que empoderamento é esse que transforma um ser humano em produto? Estamos falando de um ser humano que decidiu se vender. Não há liberdade alguma aí. O simples fato de uma pessoa decidir o que fazer com o próprio corpo não significa que decidiu pela liberdade dele. Um escravo que decide ser escravo não deixa de ser escravo por ter escolhido “livremente” ser um. Quem dita as regras ainda é seu senhor. Com as mulheres não é diferente. Infelizmente, há uma apropriação indevida do conceito de liberdade sexual da mulher. A liberdade só pode ser liberdade enquanto não a sujeitar à prostituição, à condição de um produto. Uma mulher que não se prostitui é que pode ser livre. Uma mulher que se prostitui jamais será. Entristece-me consideravelmente ver uma mulher se sujeitar à condição de um produto. Isso independe de eu gostar ou não dela, de ela ser politicamente de esquerda ou de direita. É um ser humano. Entristece-me também ver  tantas vezes as minhas palavras serem desonestamente consideradas “machistas” justamente por esquerdomachos que se aproveitam da sujeição dessas moças. Eu sinto pena da subjugação delas e sinto um enorme nojo deles. Utilizam um discurso desonesto e mentiroso, dando a entender que elas são livres por escolherem fazer o que querem com seus corpos, quando o que escolhem é se expor para eles. É claro que eles vão defender essa “liberdade”, uma vez que eles se beneficiam com a exposição dessas mulheres. Mas, e elas? Em que elas se beneficiam? Em quê? Em nada! Muito pelo contrário. Suas fotos são distribuídas de um homem para outro, sempre acompanhadas de palavras que as objetificam. E elas, tolas, não são capazes de perceber que isso não é empoderamento algum. Até eu já recebi, por engano, foto de uma mulher. Um homem de esquerda me enviou errado a foto de uma mulher que o amigo dele pegava. Desculpou-se. Não há desculpas. Isso é sórdido. Imaginem: uma mulher envia uma foto para um homem e ele distribui para os amigos para mostrar o quanto ele é fodão e pegador. Um pegador, ou seja, um homem que consome mulheres deliberadamente. É um discurso mentiroso fazer essas moças acreditarem que realmente não se objetificam. Esses homens curtem ver fotos nuas de mulheres nas redes usando esse discurso falso de empoderamento para se aproveitarem delas, da imagem delas. Entretanto, não são capazes de defender a exposição de suas companheiras nuas para outros homens. Aí o discurso deles muda. Esse comportamento é desonesto, mentiroso, torpe mesmo.

Mas, falemos um pouco dos homens bons também. Alguns, bastante conhecidos. Virginia Woolf teve um marido que a apoiou bastante. As irmãs Brönte tiveram apoio do pai. Camille Claudel teve um pai que acreditava muito nela (infelizmente morreu antes da artista). A matemática Emmy Nöether foi defendida  pelo matemático David Hilbert para dar aulas em uma universidade. Ele enfrentou uma luta para conseguir legitimar que mulheres ocupassem cargos de relevância científica. Marie Curie também foi apoiada por seu marido, também cientista.  O filósofo inglês Stuart Mill , em sua obra “A sujeição das mulheres” (obra que escrevera com sua esposa Harriet Taylor) defendeu, ainda na era vitoriana, que mulheres deveriam ter plenos direitos sobre a propriedade, sobre o voto e sobre exercerem carreira política ou qualquer outra que lhes interessasse. Mill ainda dizia que sua esposa era uma das mentes mais aguçadas que ele já conhecera. O que todos esses homens têm em comum? A resposta é simples: o apreço pelo intelecto da mulher. Apreço suficiente para defenderem que, em vez de usarem o corpo para se sobressaírem na vida, elas usassem o cérebro, o intelecto. Exatamente como fazem, a princípio, os homens.

Antes de encerrar, cabem algumas considerações bastante importantes aqui. A primeira delas é que abundam homens de esquerda que gostam de silenciar mulheres. O silenciamento pode ser tanto direto quanto indireto. No indireto, eles se recusam veementemente a ouvir o que elas têm a dizer, sobretudo quando o que elas dizem se referir a algum proveito deles sobre mulheres. Não ouvem e ainda tentam dar a entender que as falas são infundadas ou que feministas reclamam muito. Em alguns casos, podem até acusarem a feminista de machismo, enquanto eles continuam tirando proveito das situações que o patriarcado lhes oferece.   

Desde 2016 atuo como coordenadora do Programa de Iniciação Científica da OBMEP em uma das regiões do Rio de Janeiro. Este programa tem como um de seus objetivos, despertar o interesse das meninas pela matemática e pelas áreas de tecnologia. Sou uma mulher que atua na área de extas, embora eu goste consideravelmente de Literatura e Filosofia. Nas áreas de STEM (Ciências, Tecnologia e Matemática), nós temos que lutar dobrado até hoje. Muito espaço ainda há para ser conquistado. E para nós, mulheres que lutam pelo crescimento intelectual de outras mulheres, ver qualquer mulher se objetificar é algo muito triste, independente de quem seja, de gostarmos ou não dela ou de quaisquer divergências possíveis. Nosso desejo é o de que estas mulheres não se sujeitem mais a homem algum para se sustentarem. Que, em vez de fãs, busquem ter amigos, assim como Emmy Nöether teve em Hilbert. Porque existem homens que são sim amigos das mulheres. E estes são exatamente aqueles que nunca gostarão de vê-las se venderem.

Para finalizar, sempre deixei muito claro o que aprendi lendo “As reivindicações dos direitos das mulheres”, de Mary Wollstonecraft. Nós, mulheres, devemos recusar a ideia, tão defendida por Jean-Jacques Rousseau em seu livro “Emílio”, de que a educação que nos cabe é a de aprendermos a ser bem cortejadas. Rousseau desprezava tanto o nosso intelecto e, ao mesmo tempo o temia tanto, que insistia que as mulheres deveriam ser educadas em casa e, mesmo assim, apenas para a vida doméstica. Para ele, a maioria das mulheres era frívola e, para serem felizes, bastar-lhes-ia receber elogios sobre sua beleza, além de muitos presentes que garantissem a sua subsistência. Espero ter deixado claro até aqui que não existe liberdade da mulher enquanto ela não valorizar o seu próprio intelecto. Por fim, é preciso ter muito cuidado com a apropriação indevida do termo “liberdade sexual da mulher” pela sociedade patriarcal. Em particular, essa liberdade não está dissociada do seu intelecto. Deste modo, uma mulher intelectual pode ser plenamente livre, uma vez que a inteligência não lhe retira, de modo algum, a sensualidade. Associar liberdade à objetificação é um equívoco que só favorece os homens, jamais as mulheres.  Recentemente, li que os livros mais vendidos na Amazon num determinado mês do ano passado foram aqueles no estilo “50 tons de cinza”. Vários romances com a temática do homem rico e conservador que abusa psicologicamente de mulheres com joguinhos sexuais de poder. Quem comprava tais livros eram majoritariamente mulheres. Não é chocante isso? Assim, deixo para vocês um minuto de reflexão sobre que ideia de empoderamento a mídia, a TV e o cinema têm vendido para as mulheres.