domingo, 29 de setembro de 2024

A gente mais pobre que existe

Este ano César Lattes estaria completando cem anos de idade. Descobriu a méson pi e só não levou o Nobel em 1950 por meras questões políticas.  Ao todo, foi indicado sete vezes ao prêmio. Não ganhou em nenhuma das indicações e tampouco se frustrou por conta disso. O Nobel é apenas um prêmio, dizia. O que queria era ver a ciência se desenvolver no Brasil. Inúmeras vezes fôra convidado para trabalhar permanentemente em grandes universidades estrangeiras, tendo recusado o convite de todas. Aqui, criou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, cuja sigla antes significava Conselho Nacional de Pesquisas) e foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). 

Todos os anos agências de fomento brasileiras custeiam bolsas de doutoramento e pós-doutoramento de inúmeros pesquisadores que, quando muito promissores, recebem inúmeros convites para abandonarem o país e servirem a interesses estrangeiros. E quando falo "interesses", falo-o por saber que nenhuma ciência é neutra. Por saber que ciência é assunto político, por mais universais que os conhecimentos científicos sejam.

Obviamente, todo indivíduo é livre e tem direito de ir e vir. Mas, quem custeou os estudos do promissor cientista, quem investiu nele, foi uma agência do governo federal ou uma agência de governos estaduais (Faperj, Fapemig, Fapesp etc). Trata-se de uma questão meramente ética, portanto. Por outro lado, que cientista não se sente tentado a sair, quando em seu próprio país é tão desvalorizado? E por que Lattes, talvez o maior dos cientistas brasileiros, decidiu nunca deixar essa terra?

Darcy Ribeiro, o magnífico, sempre deixou claro o que atrapalha o Brasil: são "os bonitos", os filhos de senhores de terras e aqueles que gostariam de sê-lo. Não são os pobres que não deixam o Brasil crescer.  Ele também enfatizou que não existe, no ponto de vista dele - que conhecia muito bem o Brasil - , país com mais potencial para o desenvolvimento do que o nosso. Lattes, inteligente que era, também sabia disso e, bravamente, quis investir seu tempo na melhoria dessa terrinha.

Desde 2016 eu coordeno o programa de Iniciação Científica da OBMEP em uma das regiões do Rio de Janeiro. Sou uma das coordenadoras a que chamam de "cric" (coordenadora regional de iniciação científica). O programa trabalha a metodologia de resolução de problemas com alunos que obtêm bom desempenho nas provas da OBMEP. Um dos objetivos do programa, para além da melhoria do ensino, é também fomentar o gosto pela ciência nos jovens brasileiros. Afinal de contas, nenhum país se desenvolve economicamente sem ciência e o Brasil tem um enorme potencial de crescimento. Deste modo, é correto afirmar que a OBMEP investe na ciência brasileira quando investe no conhecimento matemático dos jovens. Exatamente por investir é que sempre fui procurada por representantes de escolas internacionais com sede no Brasil que me pedem para divulgar para esses alunos que eles podem conseguir bolsas nelas e depois estudarem nos Estados Unidos, na Europa ou no Canadá. Eu nunca divulguei isso para os estudantes, obviamente. E nunca divulguei por inúmeras razões. A primeira delas, é bastante óbvia. Eu sou uma servidora pública do governo federal. Não tenho, portanto, nenhum interesse em incentivar alunos a estudarem em universidades estrangeiras. Muito pelo contrário, até. Eu luto pelo fortalecimento das universidades do Brasil e é pelo meu país que eu trabalho. É o meu país que desejo que cresça e tenha os melhores cientistas que conseguirmos formar. Nós não investimos nos jovens para que eles fujam do país. É claro que eles são livres e não serão penalizados se o fizerem, mas daí a contar com meu incentivo, é muita falta de consciência política a dessa gente sem noção.

Nas redes sociais e nos grupos de whatsapp, inúmeros pais de classe média a classe média alta perguntam quando ocorrerão os exames de Cambridge, exames que medem a proficiência de uma pessoa na língua inglesa. Há escolas estrangeiras que oferecem diplomas válidos no Canadá. Os pais ficam animadíssimos com isso. São aquelas pessoas que vivem na ideologia da prosperidade. Aquelas cujos sonhos são poder tirar uma foto na Torre Eiffel, abraçar o Mickey na Disneylândia, ter filhos graduados no exterior, com greencard e cheios de netinhos loiros. Se conseguirem isso, terão obtido sucesso na vida. O interesse pelo Brasil nasce e morre nos jogos da seleção, nas alegrias do carnaval ou nas férias no Nordeste. Só querem saber daquilo de bom que o país lhes dá. E lhes dá porque conseguem pagar. Contudo, ainda que possam saber que são brasileiros, eles não sabem o que significa serem brasileiros. Eles não se sentem brasileiros. No máximo, elogiam a bossa nova, o mico-leão-dourado e a nossa linda mata atlântica.

Nos bares ou em reuniões com amigos ou mesmo em seus textos (para aqueles que gostam de escrever), os assuntos rondam a arte europeia ou estadunidense. Se de esquerda, terão lido Bourdieu, terão tentado ler Marx (marxista raiz é quase inexistente) e conhecerão bem a literatura francesa. Como Darcy Ribeiro chegou a afirmar, masturbam seus egos, encantados exatamente com tudo aquilo que pouco lhes diz respeito, que não faz parte de sua cultura - por mais que se esforcem para que faça. 

Se por um lado, são capazes de apreciar uma filosofia estritamente burguesa (cuja liberdade nunca se aplica, na prática, a todos), seus olhos permanecem fechados para a produção cultural que consideram inferior em qualidade, ou seja, a de quem não é europeu. Nunca tiveram curiosidade (não é incrível isso?) em ler uma obra de Fanon, de Abdias do Nascimento, de Lelia Gonzalez, de Angela Davis, de Achille Mbembe, de Milton Santos e nem mesmo dos brancos Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro. Afinal, tais brancos são brasileiros. De literatura, praticamente também só sabem falar dos europeus. Nunca tiveram curiosidade em ver o mundo pelos olhos de um africano, de um asiático, de um árabe ou até mesmo de um chileno, um peruano, um colombiano ou um argentino. Será que esses povos nunca escreveram livros ou não têm nada de interessante ou bonito para contar? Nada que nos interesse saber? 

Pois é. Os que nada querem saber da produção intelectual de outras culturas - a não ser a europeia - vivem alheios às suas próprias raízes, como se delas pudessem escapar. Essas pessoas apresentam, portanto, um comportamento bastante alienado. Alienado no sentido de não saberem de que matéria são feitos. Vivem alheias ao seu próprio país, à realidade circundante. Interessa-lhes unicamente a vida sob a luz, como se não houvesse vida também no submundo. Falta-lhes uma certa sensibilidade para enxergar um sorriso ou um gozo naqueles que sabem sentir dor. São pessoas que estão sempre fugindo da dor e de falarem nela. A dor de que falam é uma dor de cotovelo, é uma dor de não conseguir ingresso para um show, é a dor de terem de trabalhar todos os dias para poderem pagar as suas contas e faturas de cartão de crédito. Se pudessem, escolheriam nunca trabalhar. A consciência social de que a vida é coletiva e de que esse país também é deles - o que deveria ser suficiente para se sentirem obrigados a também trabalharem por ele -  lhes falta em demasia.

Assim, o Brasil se torna um país apenas  daqueles que querem ficar aqui ou daqueles que não têm outro lugar para viver. Os demais existem aqui, mas é como se não existissem aqui. Brasileiros são os indígenas, os negros, os nordestinos, os moradores de comunidades, os pardos. Os brancos, não raras vezes, sempre se acham um pouco europeus. Eles não estão na mesma linhagem do resto. Até vemos movimentos sociais com muita gente branca de classe média. Alguns vivem dando cursos sobre intelectuais em "casas de saberes" ou na PUC. E é muito curioso que falam sobre os marginalizados como se pudessem protegê-los do alto do palco pelo qual cobram para palestrar. Eles palestram para quem? Para os pobres que defendem e que não conseguem pagar a inscrição? O que têm a oferecer a quem defendem? O que oferecem? O que, efetivamente, lhes dão? Há, inclusive, uma mania estranha de ninguém achar que moradores de favelas também sabem palestrar, filosofar e que seria maravilhoso um dia visitar a Rocinha para ver algum jovem lhes ensinar alguma coisa. Quem sabe lhes recitar um poema autoral? Mas, não. Nunca têm a aprender. E, se têm, será apenas com europeus. Eles só sabem falar da literatura e da filosofia europeias. O recorte que fazem do mundo é limitadíssimo. Limitadíssimo. Ainda assim, autoproclamam-se intelectuais, quando, na verdade, são especialistas em fulano ou em ciclano. 

Uma educação, em pleno Brasil, que nunca  se interessa em estudar as diversas visões de mundo ou, mais poeticamente, os sentimentos do mundo, é uma educação muito, muito, muito pobre. No máximo, farão recortes de recortes - de paisagens europeias. Somos o país de Santos Dumont e de Guimarães Rosa. E o sonho de educação que muitos pais almejam para seus filhos não é viver em um país melhor, ensinando-os a construirem um efetivamente melhor. O sonho é que possam ter um diploma válido no Canadá, nos Estados Unidos ou na França, para que apenas tenham dinheiro e desistam de transformar o mundo. É uma educação sem nenhum outro ideal além do ideal de poder abraçar o Mickey e ter um Iphone da última geração. O sonho é, sobretudo, falar o inglês com o sotaque mais próximo possível de um britânico ou de um estadunidense.

O Brasil não conhece o Brasil, cantava Elis Regina. Mas, às vezes, o conhece sem querer. Agora que Cate Blanchett elogiou Clarice Lispector no Festival de Cinema de San Sebastian, todos os brasileiros reconhecerão que ela era mesmo foda. Descobriram Clarice na hora da estrela, da estrela de Hollywood.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Cute, but psycho, but cute

Eu não sou alegre, nem sou triste e nem sou poeta. Mas, eu gosto de escrever. Eu me divirto ou relaxo escrevendo. Os textos mais sérios são uma forma de extravasar, de parar de pensar. São como jogar fora, e no papel, o que tá rondando muito a mente. Já os meus famosos textos nonsense, eu escrevo por pura diversão. 

Eu gosto de sátira. Eu acho o mundo completamente absurdo e, muitas vezes, há um aspecto cômico no que poderia parecer apenas trágico. Como perder de vista o médico antivacina? Como perder de vista quem faz críticas construtivas sem nunca ter construído nada? Como perder de vista aquelas adoráveis pessoas que acham suas opiniões indispensáveis e que as têm para absolutamente tudo? As que nunca têm coragem de dizer "eu não sei"? Essas pessoas são muito inspiradoras para mim. Quando vejo, já tô imaginando uma história na qual elas vão surgir em algum momento. 

Nas redes, por exemplo,  elas aparecem em profusão. Dia desses, vi uma psicóloga que me lembrava aquele suco do Chaves que é de laranja, parece maracujá e tem gosto de tamarindo. Ela é psicóloga e psicanalista, parece socióloga e tem gosto de comediante. Ela só faz postagens dizendo que a psicanálise não ameniza os problemas das pessoas. Por que ela escolheu essa profissão, se ela não acredita na Psicanálise? Meu cérebro bugou. 

Eu tenho uma amiga cuja irmã é também psicóloga. Essa irmã dela não consegue ficar um minuto sequer em silêncio. Constantemente ela apresenta, nas festas, diagnósticos de pessoas que ela nem conhece. Ela bate o olho, observa um pouquinho e apresenta o diagnóstico infalível. Rio muito. Acho divertido o jeito dela. Essa confiança inabalável de estar sempre certa sobre aquilo que desconhece por completo. 

Em BH havia uma bibliotecária que parecia psicóloga e tinha gosto de policial. Em 2014, assim do nada, falou que fulano era um psicopata nível 10. Fulano era um amigo em comum. Segundo ela, todos temos algum grau de psicopatia. Ela leu em algum lugar. Ela é bibliotecária. Ela lê muito. Ela deve saber muito bem o que diz. Tanto, que ela me bloqueou em 2014, naquele ano mesmo. Desconfio que já tenha descoberto que meu grau de psicopatia é justamente o mais alto de todos.

domingo, 22 de setembro de 2024

Garotos de programa

Desde a militância que "enaltece a maturidade" mostrando que podemos vestir as mesmas roupas que vestiríamos se tívéssemos hoje vinte anos de idade, há quem resista à ideia de que mudar faz parte da vida. E quando digo que faz parte, digo que nós todos mudamos, independente do quanto a vida esteja estável ou não.

Quando se é mãe, divorciada, professora, pesquisadora, orientadora, coordenadora e se está escrevendo um livro a três mãos, a coisa para a qual você mais quer usar seu tempo é para sossegar um pouco. Sossegar é ler um romance, é ver um filme, é ir ao teatro, é ir ao cinema, é ir a um show agradável onde se possa ficar sentada, é fazer uma trilha e até mesmo pode ser sentar a bunda na cadeira e aproveitar o tempo para terminar aquele artigo porque você sabe que o prazo para submissão pode estar acabando.

Porém, há mulheres que ainda não entendem as que se enquadram no perfil do parágrafo anterior. Elas pensam de tudo sobre aquelas. Desde nerds bitoladas a mulheres sem pulsão de vida. Assustam-se com o fato de existirem mulheres que gostam de estudar. O espanto é tanto, que perguntam: "você não sente falta de um companheiro?". E quando você diz que companhias não são uma necessidade, mas um desejo, elas a olham como se você tivesse super poderes. Então elas dizem "Gostaria tanto de ser como você, sabe? Gostaria de não precisar dos homens".

Foi essa a frase que introduziu minha conversa, anteontem, com uma mulher que conheci no aniversário de um amigo. Algumas vezes ela me escreve no zap e é um doce de pessoa. Muito amável mesmo. Dentre tantas coisas que desabafava comigo ao longo da conversa, estava a falta que sentia de um ex-companheiro que foi bastante desleal com ela. Por mais que a relação tenha se encerrado há mais de dois anos, ainda sente falta da companhia dele. Decidi perguntar-lhe se ela ainda gostava do dito cujo e a resposta que ouvi me encucou: "não gosto, ele me fez muito mal; eu sinto falta é de ter um homem ao meu lado". A causa da dor dela, do vazio que, ao menos naquele momento, sentia, era não ter um homem. A inexistência de um homem faz seus dias tristes, sem emoção, desgostosos.

Voltemos, então, ao segundo parágrafo, aquele que fala da mulher que tenta aproveitar o tempo para escrever um artigo para publicação em revista acadêmica. Aquela que é mãe etc etc etc e que tem tanta coisa com que se preocupar na vida, que nem se lembra que está solteira. Essa mulher já sabe que homem algum é o centro de sua vida. Mais ainda: ela sabe que nenhuma outra mulher deveria ter isso em mente (e no coração), que homem algum deveria ser a principal razão da alegria, do bem estar, do entusiasmo de qualquer pessoa do sexo feminino. Contudo, a outra ainda se espanta. Ela tem dificuldade em perceber a naturalidade do prazer de uma mulher com seu trabalho e com sua pesquisa, isto é, a satisfação de uma mulher que, mesmo não tendo um companheiro, consegue se sentir feliz e entusiasmada com a vida.

Dentre todos os problemas presentes na péssima educação que nós, mulheres, costumamos receber desde que existe vida na Terra, está a capacidade de inúmeras ainda serem falocêntricas. O falo, mesmo após séculos de feminismo, ainda se mantém de pé. E muito de pé. Bem durinho mesmo. Tanto, que essa moça teve mãe feminista, militante, com doutorado em Psicanálise e o escambau, mas até hoje não compreendeu que seu valor está todinho em si mesma. Qual o mistério a ser descoberto pelos pais para educarem suas filhas para uma vida menos dependente emocionalmente dos homens? Quando todas as mulheres se sentirão bem, amadas ou não, solteiras ou não, simplesmente por desenvolverem o potencial que têm para tocarem suas vidas e seus projetos? Por que os projetos precisam ser sempre dos homens? Por que só eles devem protagonizar? 

Por mais que tenhamos mil exemplos de protagonismo feminino, na prática, no dia a dia, muitas se espantam ainda com ele. Chegam até a não entender que você dizer que não precisa de um homem é muito diferente de você dizer que não quer um homem. Em outras palavras, uma coisa é querer, outra é precisar. E precisar, precisar nenhuma precisa! 

Amor é sorte, gente. Uma hora pode acontecer ou nunca. E pode até mesmo acontecer e ser tão impossível de ser vivido, que passa a sobreviver platonicamente nas pessoas ou ser enterrado de vez. Seria bom todos encararem isso com mais naturalidade. O amor pode ser possível ou não. Mas, antes ele precisa existir. Enquanto não existir, ninguém deveria sofrer por ainda não encontrá-lo. Deixe para sofrer na hora em que ele se instalar de vez. Não faça do amor a única razão da sua felicidade, das suas ações cotidianas. Há muitos espaços que ainda nos esperam, mulherada! 

Antes de cogitar ter um homem em sua casa, pense em você chegando e tendo de lavar a louça por dois. Pense em você terminando de lavar a louça e sendo interrompida em sua leitura a cada momento que sentar para ler e escrever. Já parou para pensar que você também precisa de tempo e de paz para produzir? Eu fiz essas perguntas para ela. Sei lá. Eu tinha a esperança de ela se convencer de que talvez fosse feliz e não soubesse. Vai saber? Você já parou para pensar nisso?, eu lhe indagava.

Depois de um tempo pensando, ela me fala que eu estou certa e que conversar comigo lhe fazia bem. Falou que muitos homens a bloqueavam, carinhas que conhecia nas redes ou em aplicativos - essas coisas que só gente muito otimista acredita que realmente funcione. Foi nessa hora que a libriana aqui meteu a louca para encerrar de vez o assunto, pois eu falava falava falava e pouco adiantavam as minhas palavras. Eram como paliativos, mas não lhe traziam nenhum tipo de cura. 

"Nesses aplicativos você só vai achar gente querendo te comer. Se transar com algum e quiser amor, vai sofrer. Mais fácil contratar um garoto de programa. Alguns são bem carinhosos. Fora que eles ainda são profissionais, né?", falei-lhe.  A reação dela foi de espanto. Uma nerd falando aquilo? Pois é. Eu a trolei mesmo com esse papo de garotos. Vocês ainda não sacaram que eu sou doidinha? Eu queria muito encerrar aquela conversa, gente, e escandalizar foi a única ideia que me passou pela cabeça. Fez-se um silêncio, uma pausa. Então notei que a minha estratégia funcionou. Bingo! 

Hoje à tarde recebi um zap do nosso amigo em comum. Parabenizou-me e disse que ela passará a seguir os meus conselhos. Que bom!, exclamei. É ótimo ela perceber que os homens não devem ser o centro da vida dela! Foi então que ouvi a voz dele rindo no áudio: Raquel, ela está considerando se contrata um garoto de programa.

Ele riu e eu fiquei pensativa. De todos os conselhos dados por mim, ela pensa justamente no que eu lhe dei brincando! Como sei que sorte ela pouco terá, não lhe desejarei boa sorte. Seria uma perda de tempo. Que ao menos goze, então. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Código QR

Tenho visto, com reserva e preocupação, o entusiasmo de muita gente com Inteligências Artificiais, chatbots e tudo quanto é coisa que agiliza certos processos que todos somos plenamente capazes de executar. Estamos nos fazendo descartáveis e, para piorar, nos orgulhando disso. Eu não sou uma entusiasta de Inteligências nem sempre necessárias. Aliás, quando eu resolvo estudar alguma invenção humana, a primeira coisa que investigo é o porquê de ter sido criada. Por que foi necessário produzi-la?, eis uma pergunta crucial. Outra pergunta - e a mais importante - é que consequências o seu uso pode ter e quem as sofrerá.

Hoje me dei conta de que a pergunta sobre as necessidades parece não mais precisar ser feita, deixou de ser uma exigência. Produz-se muito - em particular, lixo eletrônico - sem justificativa alguma que, de fato, o valha, que convença. Gasta-se também um contingente considerável de energia elétrica para se gerenciar tamanha quantidade de dados.

Alguém saberia dizer por que a Alexa é necessária? E o ChatGpt? Que eles tenham utilidade, é uma coisa. Serem necessários já é outra. Ninguém deveria necessitar usar isso para conseguir informações. A consequência é que alunos já não conseguem sequer fazer uma pesquisa eficiente no Google Acadêmico. Estão focados nos resultados, não nos processos. Querem o resumo, querem ler. Vão aprender sobre o que o texto diz, sem dúvida. Mas, como pesquisar já será um desafio maior para eles do que era para a minha geração.

O trabalho excessivo criou uma necessidade para essas inteligências. Inteligências que não criam. Inteligências que compilam e copiam.  Adeus direitos autorais. Elas agilizam processos. Essa é a utilidade delas. Resta a pergunta: por que agilizar processos que somos capazes de fazer? Os que não somos, tudo bem. Mas, para o que sabemos, isso significa regredir intelectualmente. Significa ir perdendo a capacidade de aprender a fazer sem uma dica, sem uma ajudinha. É a lei do menor esforço para poder se dar bem, para obter um resultado. Assim, até mesmo eticamente isso nos faz regredir. Uma ética, porém, contra nós próprios.

No ano passado, o Prêmio Jabuti foi retirado de um ilustrador. Motivo: ele havia sido erroneamente premiado por ilustrar a capa de um livro fazendo uso de Inteligência Artificial. Quem poderá dizer que foi realmente ele quem criou a ilustração? Dizer como se quer uma imagem e ajustá-la é o mesmo que criá-la? Ter o pleno domínio de uma máquina constroi um ilustrador ou um operário eficiente? 

Recentemente, li que há Inteligências Artificiais que produzem planos de aula e também avaliações de aprendizagem. Os planos de aula, embora sejam aparentemente perfeitos, não substituem o trabalho de um professor. Afinal, nem tudo sai como se planeja quando um plano cria aulas a partir de um aluno padronizado. O professor terá de fazer ajustes. O ChatGpt, portanto, pode auxiliar. Mas, indispensável, indispensável ele não é. Ele apenas torna o processo de produção bem mais veloz. Muitos dos professores saberão como ajustar os parafusos, mas não como se montou o aparato que precisará de seus remendos. A justificativa para seu uso, porém, é legítima: facilita a vida de um profissional que precisa dar aulas em número excessivo para conseguir pagar as contas do mês seguinte. A necessidade é conseguir ser produtivo, mesmo sem fazer questão de elaborar um plano sozinho, coisa que lhe permitiria ser um profissional mais reflexivo sobre sua própria prática, sobre as suas próprias competências.

Um Iphone faz muito mais coisas de que seus usuários realmente necessitam (ou sabem) usar. Seus usuários, em média, só usam o básico do que o aparelho tem a oferecer. Poderiam ter qualquer outro aparelho, portanto. Mas, querem um Iphone. Porque Iphones são mais chiques, porque Iphones lhe conferem uma imagem melhor, de pessoa bem sucedida na vida, de pessoa "de sucesso". Antes mesmo de você terminar de pagar a última parcela  do cartão de crédito que você usou para adquirí-lo, outro Iphone já estará sendo produzido e o seu se tornará obsoleto. Você vai notar que ele trava - e foi programado para isso, tá? Você parará para pensar que nunca precisou de todos os recursos que eles lhe oferecem? Não. Você não parará para pensar. Você não acha isso importante, você se desacostumou. Você faz questão é de não pensar, de usar ferramentas que o poupem deste trabalho.  Você então se angustiará para comprar o modelo novo. O desejo o consumirá até que você consiga consumir o objeto que vem consumindo o seu cérebro e o seu coração. Você deseja o que grandes empresas decidem que você deve desejar. A sua mente já está sendo acessada e, assim, programada, para funcionar conforme a capacidade de seu bolso enriquecer quem quer ditar as regras da sua vida. 

Ah, e não pense que não estão realmente ditando. A Prefeitura do Rio de Janeiro estampa orgulhosamente um contrato que fez com aplicativos que o informam se seu ônibus já está chegando. Eu acharia isso maravilhoso, se em todos os pontos de ônibus também houvesse a informação de que linhas passam por eles. Mas, não. Não é bem isso o que ocorre. Na sexta-feira passada, notei que os pontos em certo local da cidade já não disponibilizavam os números das linhas. Antes disponibilizavam. Hoje, não mais. Foram apagadas. Em seu lugar, um enorme código QR. Para se informar se seu ônibus passa lá, você é obrigado, portanto, a baixar aquele aplicativo. Notem: é uma imposição. Você não tem como escapar. Criaram uma necessidade que antes você não possuía. Unicamente para alguém lucrar em cima de você. Observe que se informassem o número da linha, você poderia não baixar o aplicativo por não se importar se está vindo ou não. Mas, o número do ônibus, o número do õnibus é uma informação, de fato, necessária. 

Vejamos um outro exemplo, talvez mais fácil de você averiguar. Se você for a um supermercado, notará que para saber os ingredientes e funcionalidades de alguns produtos, precisará ler um código QR. Algumas pessoas, que não entendem muito a minha língua, dir-me-ão: "mas, os indivíduos precisam se adaptar às tecnologias.". Será mesmo que precisam? Será que não podem escolher abrir mão daquelas que realmente não julgam necessárias às suas vidas? Onde foi parar a liberdade de escolha? O nosso sagrado direito de decidir? Por que as informações que sempre estiveram nas embalagens agora não conseguem mais estar? As embalagens não diminuíram tanto assim de tamanho para que não as coubessem mais. Que explicação lógica há por trás dessa atitude, então? Fazer você baixar um aplicativo, fazer a empresa fazer "parte da sua vida", coletar dados seus. Afinal de contas, você é um consumidor. Não é um cidadão, posto que não tem voz. Mas, é um consumidor. Você é um produto de muito valor. E você é porque consome. 

Note também que há uma seletividade. O mercado seleciona apenas os que podem ou querem ter o aplicativo tal. Milton Santos, um dos melhores geógrafos que o Brasil já conheceu, já dizia, há anos (!), que a globalização é seletiva. Alguns se mantém à sua margem, ela não chega a todos. A maioria da população mundial não tem acesso à alta tecnologia e nem mesmo à média. Mas, a energia que as empresas utilizam é de todos nós, assim como o lixo eletrônico que produzem para o meio ambiente. Poderíamos tomar a decisão de freá-las (não falo nem em pará-las, mas em saber usá-las), mas nos vendemos para manter os lucros de uma ínfima porcentagem de milionários que tentam legitimar que todos devam se curvar a eles e adorá-los, não importando os efeitos sociais e psicológicos dessa adoração.  Aceitamos viver vidas viciadas que só geram desejos estúpidos e enriquecimento de quem mais nos faz mal do que bem, de quem invade diariamente a nossa privacidade. As redes sociais vendem tudo sobre você a quem lhes pagar para isso, empresas lhe ofertam diariamente serviços e produtos até mesmo por email - como sabem seu endereço?

Nos supermercados, muitos atendentes já são substituídos por máquinas, um tipo de chatbot - essas inteligências que simulam ações humanas. O que pouca gente percebe é que elas não apenas tiram o emprego de várias pessoas, como tornam atendentes os próprios consumidores! E trabalhamos de graça para eles, tá? Você acessa a máquina, passa cada produto, embala e paga. Ora, e não é esse o serviço do atendente? Substituem atendentes por consumidores. Somos realmente produtivos! Mas, produzimos para quem? Nós nos tornamos atendentes quando eles ficam sem o emprego. E ganhamos, ao menos, algum desconto por sermos funcionários temporários dessas empresas? Ganhamos? Não seria justo que usuários de autoatendimento ganhassem desconto nos produtos? Seria. Não é justo nos auto explorarmos. E se não é justo, então não faz sentido algum que aceitemos. 

O que faz sentido mesmo é viver uma vida desacelerada, focada mais em qualidade que em pressa e em produtividade. Produtividade para quem?, perguntem-se! Qual o impacto da produtividade na vida de cada um de nós? Pensemos! Reservemos sempre um tempo do dia para pensar. Porque pensar nunca é um ato imediato. Precisamos de tempo, o nosso bem mais precioso. Esse bem que diariamente damos em demasia- e de graça - para as big techs. 

Fonte da imagem: 
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