Este ano César Lattes estaria completando cem anos de idade. Descobriu a méson pi e só não levou o Nobel em 1950 por meras questões políticas. Ao todo, foi indicado sete vezes ao prêmio. Não ganhou em nenhuma das indicações e tampouco se frustrou por conta disso. O Nobel é apenas um prêmio, dizia. O que queria era ver a ciência se desenvolver no Brasil. Inúmeras vezes fôra convidado para trabalhar permanentemente em grandes universidades estrangeiras, tendo recusado o convite de todas. Aqui, criou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, cuja sigla antes significava Conselho Nacional de Pesquisas) e foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).
Todos os anos agências de fomento brasileiras custeiam bolsas de doutoramento e pós-doutoramento de inúmeros pesquisadores que, quando muito promissores, recebem inúmeros convites para abandonarem o país e servirem a interesses estrangeiros. E quando falo "interesses", falo-o por saber que nenhuma ciência é neutra. Por saber que ciência é assunto político, por mais universais que os conhecimentos científicos sejam.
Obviamente, todo indivíduo é livre e tem direito de ir e vir. Mas, quem custeou os estudos do promissor cientista, quem investiu nele, foi uma agência do governo federal ou uma agência de governos estaduais (Faperj, Fapemig, Fapesp etc). Trata-se de uma questão meramente ética, portanto. Por outro lado, que cientista não se sente tentado a sair, quando em seu próprio país é tão desvalorizado? E por que Lattes, talvez o maior dos cientistas brasileiros, decidiu nunca deixar essa terra?
Darcy Ribeiro, o magnífico, sempre deixou claro o que atrapalha o Brasil: são "os bonitos", os filhos de senhores de terras e aqueles que gostariam de sê-lo. Não são os pobres que não deixam o Brasil crescer. Ele também enfatizou que não existe, no ponto de vista dele - que conhecia muito bem o Brasil - , país com mais potencial para o desenvolvimento do que o nosso. Lattes, inteligente que era, também sabia disso e, bravamente, quis investir seu tempo na melhoria dessa terrinha.
Desde 2016 eu coordeno o programa de Iniciação Científica da OBMEP em uma das regiões do Rio de Janeiro. Sou uma das coordenadoras a que chamam de "cric" (coordenadora regional de iniciação científica). O programa trabalha a metodologia de resolução de problemas com alunos que obtêm bom desempenho nas provas da OBMEP. Um dos objetivos do programa, para além da melhoria do ensino, é também fomentar o gosto pela ciência nos jovens brasileiros. Afinal de contas, nenhum país se desenvolve economicamente sem ciência e o Brasil tem um enorme potencial de crescimento. Deste modo, é correto afirmar que a OBMEP investe na ciência brasileira quando investe no conhecimento matemático dos jovens. Exatamente por investir é que sempre fui procurada por representantes de escolas internacionais com sede no Brasil que me pedem para divulgar para esses alunos que eles podem conseguir bolsas nelas e depois estudarem nos Estados Unidos, na Europa ou no Canadá. Eu nunca divulguei isso para os estudantes, obviamente. E nunca divulguei por inúmeras razões. A primeira delas, é bastante óbvia. Eu sou uma servidora pública do governo federal. Não tenho, portanto, nenhum interesse em incentivar alunos a estudarem em universidades estrangeiras. Muito pelo contrário, até. Eu luto pelo fortalecimento das universidades do Brasil e é pelo meu país que eu trabalho. É o meu país que desejo que cresça e tenha os melhores cientistas que conseguirmos formar. Nós não investimos nos jovens para que eles fujam do país. É claro que eles são livres e não serão penalizados se o fizerem, mas daí a contar com meu incentivo, é muita falta de consciência política a dessa gente sem noção.
Nas redes sociais e nos grupos de whatsapp, inúmeros pais de classe média a classe média alta perguntam quando ocorrerão os exames de Cambridge, exames que medem a proficiência de uma pessoa na língua inglesa. Há escolas estrangeiras que oferecem diplomas válidos no Canadá. Os pais ficam animadíssimos com isso. São aquelas pessoas que vivem na ideologia da prosperidade. Aquelas cujos sonhos são poder tirar uma foto na Torre Eiffel, abraçar o Mickey na Disneylândia, ter filhos graduados no exterior, com greencard e cheios de netinhos loiros. Se conseguirem isso, terão obtido sucesso na vida. O interesse pelo Brasil nasce e morre nos jogos da seleção, nas alegrias do carnaval ou nas férias no Nordeste. Só querem saber daquilo de bom que o país lhes dá. E lhes dá porque conseguem pagar. Contudo, ainda que possam saber que são brasileiros, eles não sabem o que significa serem brasileiros. Eles não se sentem brasileiros. No máximo, elogiam a bossa nova, o mico-leão-dourado e a nossa linda mata atlântica.
Nos bares ou em reuniões com amigos ou mesmo em seus textos (para aqueles que gostam de escrever), os assuntos rondam a arte europeia ou estadunidense. Se de esquerda, terão lido Bourdieu, terão tentado ler Marx (marxista raiz é quase inexistente) e conhecerão bem a literatura francesa. Como Darcy Ribeiro chegou a afirmar, masturbam seus egos, encantados exatamente com tudo aquilo que pouco lhes diz respeito, que não faz parte de sua cultura - por mais que se esforcem para que faça.
Se por um lado, são capazes de apreciar uma filosofia estritamente burguesa (cuja liberdade nunca se aplica, na prática, a todos), seus olhos permanecem fechados para a produção cultural que consideram inferior em qualidade, ou seja, a de quem não é europeu. Nunca tiveram curiosidade (não é incrível isso?) em ler uma obra de Fanon, de Abdias do Nascimento, de Lelia Gonzalez, de Angela Davis, de Achille Mbembe, de Milton Santos e nem mesmo dos brancos Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro. Afinal, tais brancos são brasileiros. De literatura, praticamente também só sabem falar dos europeus. Nunca tiveram curiosidade em ver o mundo pelos olhos de um africano, de um asiático, de um árabe ou até mesmo de um chileno, um peruano, um colombiano ou um argentino. Será que esses povos nunca escreveram livros ou não têm nada de interessante ou bonito para contar? Nada que nos interesse saber?
Pois é. Os que nada querem saber da produção intelectual de outras culturas - a não ser a europeia - vivem alheios às suas próprias raízes, como se delas pudessem escapar. Essas pessoas apresentam, portanto, um comportamento bastante alienado. Alienado no sentido de não saberem de que matéria são feitos. Vivem alheias ao seu próprio país, à realidade circundante. Interessa-lhes unicamente a vida sob a luz, como se não houvesse vida também no submundo. Falta-lhes uma certa sensibilidade para enxergar um sorriso ou um gozo naqueles que sabem sentir dor. São pessoas que estão sempre fugindo da dor e de falarem nela. A dor de que falam é uma dor de cotovelo, é uma dor de não conseguir ingresso para um show, é a dor de terem de trabalhar todos os dias para poderem pagar as suas contas e faturas de cartão de crédito. Se pudessem, escolheriam nunca trabalhar. A consciência social de que a vida é coletiva e de que esse país também é deles - o que deveria ser suficiente para se sentirem obrigados a também trabalharem por ele - lhes falta em demasia.
Assim, o Brasil se torna um país apenas daqueles que querem ficar aqui ou daqueles que não têm outro lugar para viver. Os demais existem aqui, mas é como se não existissem aqui. Brasileiros são os indígenas, os negros, os nordestinos, os moradores de comunidades, os pardos. Os brancos, não raras vezes, sempre se acham um pouco europeus. Eles não estão na mesma linhagem do resto. Até vemos movimentos sociais com muita gente branca de classe média. Alguns vivem dando cursos sobre intelectuais em "casas de saberes" ou na PUC. E é muito curioso que falam sobre os marginalizados como se pudessem protegê-los do alto do palco pelo qual cobram para palestrar. Eles palestram para quem? Para os pobres que defendem e que não conseguem pagar a inscrição? O que têm a oferecer a quem defendem? O que oferecem? O que, efetivamente, lhes dão? Há, inclusive, uma mania estranha de ninguém achar que moradores de favelas também sabem palestrar, filosofar e que seria maravilhoso um dia visitar a Rocinha para ver algum jovem lhes ensinar alguma coisa. Quem sabe lhes recitar um poema autoral? Mas, não. Nunca têm a aprender. E, se têm, será apenas com europeus. Eles só sabem falar da literatura e da filosofia europeias. O recorte que fazem do mundo é limitadíssimo. Limitadíssimo. Ainda assim, autoproclamam-se intelectuais, quando, na verdade, são especialistas em fulano ou em ciclano.
Uma educação, em pleno Brasil, que nunca se interessa em estudar as diversas visões de mundo ou, mais poeticamente, os sentimentos do mundo, é uma educação muito, muito, muito pobre. No máximo, farão recortes de recortes - de paisagens europeias. Somos o país de Santos Dumont e de Guimarães Rosa. E o sonho de educação que muitos pais almejam para seus filhos não é viver em um país melhor, ensinando-os a construirem um efetivamente melhor. O sonho é que possam ter um diploma válido no Canadá, nos Estados Unidos ou na França, para que apenas tenham dinheiro e desistam de transformar o mundo. É uma educação sem nenhum outro ideal além do ideal de poder abraçar o Mickey e ter um Iphone da última geração. O sonho é, sobretudo, falar o inglês com o sotaque mais próximo possível de um britânico ou de um estadunidense.
O Brasil não conhece o Brasil, cantava Elis Regina. Mas, às vezes, o conhece sem querer. Agora que Cate Blanchett elogiou Clarice Lispector no Festival de Cinema de San Sebastian, todos os brasileiros reconhecerão que ela era mesmo foda. Descobriram Clarice na hora da estrela, da estrela de Hollywood.
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