Lutar contra os sentimentos não é difícil. É até bastante fácil. Difícil é lutar contra a razão. Porque a razão está ligada àquilo que se sabe, que se vê. Como negá-la? É ela que angustia. Ela é que mostra o que você preferia não ver. Mas, você vê. Infelizmente, você vê. De nada adianta tocar mantras e fazer meditação se diante de você, diariamente, a dor de quem tem fome explode na sua cara, a dor de quem não tem casa explode na sua cara, a dor das milhares de crianças assassinadas na Palestina explode na sua cara. A única paz possível só existe com justiça social. Não vem da ioga. Vem de ver gente feliz. De nada adianta seu skincare, quando você sente seu rosto sujo do sangue dos homens. O único amor em que você crê é o que socorre o outro. Todo o resto, pra você, virou um conto de fadas. É muito bonito, veste belas roupas de seda. Mas, não é consistente. Não é confiável. Só existe em condições ideais de temperatura e pressão. Acontece, entretanto, que a temperatura às vezes congela e a pressão pode se tornar muito alta à medida que se desce às profundezas do abismo. E o que você vê ao redor são só dor e memes. E você não quer ver nem a dor que santifica um homem e nem os memes que desanimam os seus olhos. Em quem confiar? De quem nunca desejar se esconder? Você se pergunta melancolicamente sem achar a resposta. A humanidade sempre consegue ferir você.
quarta-feira, 17 de abril de 2024
terça-feira, 16 de abril de 2024
Uma estrelinha na testa para o ateu fanático
O conhecimento científico não é o único conhecimento que existe. Já dizia Shakespeare, e com razão, que há muito mais entre o céu e a Terra do que pode supor a nossa vã filosofia. Contudo, há quem insista na crença de que qualquer conhecimento não científico deve ser desqualificado. Primeiro: o que é conhecimento? Seria bom tentarem definir isso antes. Aristóteles, por exemplo, deu-se o trabalho de fazer estudos a esse respeito, o que mostra que não se trata de um conceito tão simples. Mas, independente dos estudos aristotélicos, uma coisa é evidente para qualquer um de nós, quer conheçamos ou não um pouquinho do filósofo grego: nem todo conhecimento é científico e cada um de nós deveria se limitar apenas a fazer afirmações sobre aquilo que sabe.
Os artistas são dotados de muito conhecimento. Um conhecimento plural. Parte desse conhecimento não é científico. Há técnicas, mas isso nao basta. Por exemplo, a criação de um poema não exige apenas técnica. É mais fácil, inclusive, resolver uma equação que escrever um poema! A equação se deduz. Mas, um poema, não. Se você pedir a um poeta para resolver uma equação, sei lá, do segundo grau, ele vai conseguir resolver. Mas, nem todo estudante de exatas será capaz de escrever um poema.
Além da Literatura, a Psicanálise apresenta inúmeras contribuições sobre a natureza humana mesmo sem ser considerada uma ciência.
O que é o pressentimento? Quantas vezes não pressentimos que algo acontecerá e, de fato, acontece? O que é o sexto sentido materno? Ninguém consegue explicar essas coisas cientificamente. Contudo, ninguém vai dizer que não existem. E os nossos sentimentos? Qual a explicação deles? É científica?
A verdade é que não sabemos de quase nada nessa vida e quem acha que sabe muito tem grande chance de se tornar uma pessoa tola, apenas vaidosa. Uma pessoa bem bobona mesmo.
Talvez já fosse suficiente ao ser humano estudar bastante, mas sem deixar de também querer aprender a respeitar os outros. Vou dar um exemplo aqui: debochar da fé de alguma pessoa evangélica e inferiorizá-la. Existem motivos que levam uma pessoa a se tornar fanática. Descobrir quais são e falar sobre eles é não só mais respeitoso e honesto com essas pessoas, como também evidencia uma capacidade analítica de quem realiza a crítica. O que critica sem analisar, não critica. Ataca. E, mesmo se analisa, com que propósito o faz?
Se partirmos do pressuposto de que as pessoas são livres e de que a fé delas nem sempre interfere na vida alheia, serem ofendidas sistematicamente é apenas um indício de que sofrem intolerância religiosa.
A fé das pessoas não interessa a ninguém. A fé por si só, não. A bomba atômica foi criada por pessoas religiosas, por acaso? Um cara que acredita em aromaterapia incomoda quem? Não é apenas a ética que importa em vez da fé de cada um?
Detesto presenciar memes de algumas pessoas que estudam um pouquinho e já se consideram uma espécie de Umberto Eco. Essas pessoas riem da cultura indígena, do xamanismo, da crença de deuses da natureza. Riem de qualquer fé. Acham que apenas uma cultura é válida, que é a do homem branco europeu. E ainda acreditam que têm conhecimento. Se o tem, é de uma parte ínfima. Porque não conhecem o mínimo, que é o outro homem! Aliás, não conhecem nem a si.
Acho um porre essas páginas com memes envolvendo as ciências, geralmente criadas por estudantes de pós-graduação em exatas, que ficam tirando sarro da fé dos outros. E observo que não raras vezes recai sobre a fé das pessoas a quem o acesso a livros é pequeno. Nunca vi debocharem de gente poderosa. A propósito, nem sei qual o propósito de se querer debochar das pessoas. Prática de muito mau gosto. Memes políticos muito específicos como o do cara na frente do caminhão sao engraçados porque estão dentro de um contexto que dá sentido à questão retratada. Mas, pegar alguém pra bode expiatório por sua fé ou seja lá o que for é de um humor paupérrimo. Eu diria até que é falta de criatividade mesmo. E, principalmente, de respeito.
Em tempo: o mundo não precisa mais de cientistas brilhantes que de artistas brilhantes. Não precisa mais de cientistas brilhantes que de homens justos. Precisamos mais mesmo é de pessoas com disposição para tornar esse mundo um lugar de menos ostentação e de mais amor. Essas páginas de memes científicos que zombam das pessoas têm como único propósito ostentar que seus membros fazem parte de uma casta especial. Coitados, né? Enfim, espero que postem a foto do prêmio Nobel deles quando conseguirem realizar um grande feito para a humanidade. Enquanto isso não chegar, restar-lhes-á zombar da fé alheia.
Ah, e antes que me perguntem: eu não sou religiosa. Sou só alguém que detesta a cultura da ostentação e que acha o ateu fanático um poço sem fundo de intolerância e de vaidade. Verdadeiros iludidos consigo mesmos (o ápice da ilusão).
O ateu fundamentalista
Tão chato quanto o fundamentalista religioso é o ateu fundamentalista. De um modo geral, todos devemos ter em mente que somos muito diferentes e que devemos aprender a nos suportarmos. Do contrário, teremos apenas brigas e isso é uma escolha das mais estúpidas.
Peguemos como exemplo o Facebook. Basta você gostar, sei lá, de astrologia, que uma pessoa acha realmente normal ela agredir gratuitamente você. Gratuitamente. Claro que agredir os outros gratuitamente não é uma postura de alguém razoável. Rir dos outros também não é. Isso foi só um exemplo. Agora tome como exemplo o fundamentalismo evangélico. O que mais se vê sao memes de pessoas os criticando. Mas, uma análise social desse fenômeno religioso, que seria a única coisa útil a se falar sobre os fundamentalistas, isso nunca é feito. Boa parte das postagens referentes a isso são memes que inferiorizam e ridicularizam pessoas vitimas de pastores.
Qual o proposito de tocar num assunto sem apresentação de qualquer conjuntura aprofundada? Se a apresentação só visar à ridicularização dessas pessoas? A resposta é bem simples: VAIDADE. A necessidade nunca é discutir o problema e, sim, ser aplaudido ou aplaudida. Há uma necessidade gritante de se sentir superior, destacado, especial, mais inteligente que. Porém, se não é feita análise profunda das coisas que apresentam é porque, no fundo, não devem mesmo ser capazes de fazê-la. Do contrário, fariam-na.
Uma pessoa ter uma fé ou uma religião não a torna menos inteligente que um ateu. Newton era místico, Fernando Pessoa também. E ambos eram brilhantes. Mais brilhantes que todos os ateus do meu Facebook, por exemplo.
Os evangélicos correspondem a uma parcela considerável do eleitorado. Ainda assim, a maior preocupação dos "intelectuais de esquerda do Facebook" é unicamente rir deles. Santa ingenuidade, pois eles riem ainda mais de nós! Eles conseguem estremecer a democracia, se desejarem. Mas, nós, nós não somos capazes de derrubá-los. Em outras palavras, os dignos de deboche acabam sendo nós. Simplesmente porque não sabemos lidar com esse problema. Não adianta estudar o problema. É preciso tentar também resolvê-lo. Os palhaços somos nós, não eles. Eles estão conseguindo crescer cada vez mais politicamente. E apoiam majoritariamente a direita. Temos mesmo motivos para rir dessa gente?
Dos exageros
Não sei se o que escrevo aqui será bem compreendido. Mas, vou tentar me fazer compreender. Eu escrevo bastante "textão" na minha timeline. É uma forma de esvaziar a mente e colocar o pensamento no papel para organizar as ideias, olhar para elas do lado de fora. No que tange à escrita, tenho muita ciência das minhas limitacões e vivo bem com a ciência que tenho delas. A meu ver, na maioria das vezes, eu só escrevo obviedades. Mas, apesar de serem obviedades, vivemos num mundo onde, infelizmente, mesmo as obviedades precisam ser ditas. Então eu as digo. Porque me parece necessário dizê-las. Porque já me angustiam não serem ditas. O mundo nos sufoca a esse ponto!
Quando alguém com suficiente grau de instrução intelectual elogia em excesso um texto que eu sei muito bem que é apenas mediano, eu não fico lisonjeada não. A minha primeira impressão é a de que as mulheres são tão desprezadas em seus intelectos, que qualquer coisa que elas escreverem que faça algum sentido já parece algo extraordinário. Eu gostaria muito que a sociedade naturalizasse a capacidade intelectual de todos, sejam homens ou mulheres, a tal ponto de textos banais que escrevemos não serem tratados como epifanias por pessoas com instrução intelectual suficiente. Elogios na direção contrária não apenas soam artificiais - o que me incomoda muitíssimo - como também soam ofensivos à inteligência das mulheres. Uma mulher que pensa é simplesmente uma mulher como qualquer outra. O que precisa estar claro é que todas as mulheres pensam, caras pálidas! Cada uma à sua maneira. Também deve ficar claro que a expressão "uma mulher inteligente" não é nadinha elogiosa. Muito pelo contrário, denigre o nosso gênero e é carregada de arrogância machista. Naturalizem isso. Porque sei que muitos homens com suficiente grau de instrução não param para pensar porque se impressionam tanto com textos, muitas vezes até óbvios, escritos por mulheres. Por que textos assim impressionam?
Então, a sugestão que dou é: quando elogiarem muito um texto, elogiem apenas aqueles que realmente forem super fodas. Esses sim. Esses fazem sentido receberem um elogio. Mas, textos medianos serem efusivamente elogiados é algo incômodo. A menos que os leitores não tenham instrução suficiente para perceberem que são óbvios. Mas, se têm tal instrução, a única coisa que justifica o elogio excessivo a um texto mediano não é a qualidade do texto e, sim, o fato de uma mulher ter conseguido escrevê-lo. É a única explicação lógica para esse tipo de vislumbre. A outra explicação para elogios excessivos é o cortejo. Nesse caso, não há vislumbre. Há apenas a invenção do vislumbre para alimentar os egos das mulheres. Seja como for, sempre ficará evidente para as autoras quando um elogio não condiz com o mérito de seus textos. Por fim, cabe lembrar que nem todo mundo busca ter fãs. Há quem prefira só ter amigos.