sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Meninos devem aprender a ser homens, não moleques

Lembro exatamente do dia em que, estando grávida, fui saber qual seria o sexo do bebê. Respeito as mães que preferem descobrir isso só no dia do parto. No entanto, como sou ansiosa, eu decidi saber antes, aos quatro meses de gestação. Quando a médica exclamou sorrindo "É, mãe, vem um menininho por aí!", eu logo senti um calafrio no estômago, tamanha a minha insegurança. Um menino! Logo ele estaria nascendo e eu teria de compreendê-lo, reconhecer suas emoções e necessidades. Pensei no meu irmão pequeno e nos meninos do prédio onde morávamos quando crianças. Futebol, jogo de botão, carrinhos de rolimã, simulações de brigas e algumas brigas de verdade, quando eles acreditavam que realmente eram super-heróis.

Prestar atenção nele, brincar com ele, estudar com ele, ler para ele, seguir minha intuição e contar com uma boa pediatra. Essa era a minha listinha de suporte. "Eu vou aprender a ser mãe", dizia a mim mesma. Quando ele fazia alguma malcriação (quase nunca fazia!), o sentimento de culpa tomava conta. Mãe tem esse defeito de trazer toda a responsabilidade para si. Nem precisa ler Freud para se culpar por tudo que não funcionar como ela cobra de si que funcione. Outro ser existe e precisa de seus cuidados. Um ser que não pediu para nascer, mas que os pais quiseram que nascesse. Um descuido grave pode traumatizar. É preciso estar atenta. É preciso ler sobre Psicologia Infantil. É preciso isso, é preciso aquilo. E é preciso descobrir algumas horas do dia para cuidar de si mesma, da solidão de se preocupar tantas vezes sozinha com aquilo que, muitas vezes, só as mães mesmo se preocupam. Haja neurose! Freud era mesmo brilhante. 

Há mulheres que vivenciam seus maiores momentos de solidão justamente quando se percebem mães solteiras, estando ou não casadas. Esse momento pode ocorrer mesmo durante o pós-parto, quando ela se dá conta de que o filho parece ser só dela. Só ela troca as fraldas, só ela dá banho, só ela acorda cedo, só ela interrompe o trabalho ou os estudos, enquanto pais dormem até tarde, saem com seus amigos e investem na própria carreira, pois lhes ensinaram que seu principal papel no mundo é o de ser um provedor.  

Antes de muitas mulheres se darem conta de que quase toda a responsabilidade com os filhos recairá sobre os seus ombros, a natureza já as treina por nove meses. Por nove meses, a mãe carrega seu filho sozinha no ventre e só ela sabe como é o seu chute e a maneira como ele se mexe. Muito antes de nascer, toda mãe acaricia o filho alisando a própria barriga. Mãe e filho conversam em silêncio por nove meses. Nove meses em que ela mal sabe o que está acontecendo com ela, pois não é capaz de decifrar suas emoções. São emoções que ela nunca havia conhecido antes. 

Um homem pode dar segurança emocional à mulher durante esse momento, já que grávido ele não tem como ficar. Mas, ela gostaria de ter alguém que zelasse por ela num momento em que se sente "tomada da gravidez". E é muito desolador para uma mulher quando ela nota que seu companheiro já é ausente antes mesmo de o bebê nascer. Afinal, ele é o pai. O que será que os homens acham que as mulheres esperam de um homem quando está grávida de um filho dele? Esperam que a sogra dela lhe faça companhia? Esperam que a sogra dele lhe faça? Entendam que a ausência é o primeiro sintoma de indiferença de um pai. E já começa antes de a criança nascer, bastando que a mulher lhe delegue algumas tarefas como, por exemplo, ser um pouco mais presente.

Curiosamente, muitos homens não compreendem isso. E fica realmente difícil para eles compreenderem, pois desde a adolescência aprendem que têm certos direitos que as mulheres não têm. Durante a adolescência, fase de transição da infância para a iniciação à vida adulta, um menino pode mudar radicalmente. É quando ele busca compreender o que significa ser homem. E o que significa ser homem? Carlos Drummond de Andrade faz essa pergunta em um de seus poemas. Um poema tão bonito, que uma mãe de menino que gosta de poesia, ao lê-lo, dirá: meu deus! Um homem pode ser tão bonito, que até pode conseguir ser, de fato, um homem! Pode ser criativo, pode ser um pensador, pode produzir conhecimento, pode ajudar a curar pessoas, pode ajudar as pessoas a acreditarem mais em si mesmas. Pode tanta coisa um homem! Tanta coisa para tornar sua existência significativa, que sabemos perfeitamente que a definição de homem não pode se resumir ao frágil conceito de masculidade. 

Entretanto, dificilmente conseguimos imaginar que aqueles meninos que aos sete protegiam as meninas das baratas, tirando-as do recinto ou as matando para elas se sentirem seguras...aqueles meninos que raramente levantavam a mão para elas...aqueles meninos que enchiam a mãe de amor como ninguém mais seria capaz de encher, poderiam durante a adolescência "aprender" que mulheres são objetos de consumo. Sutilmente eles aprendem isso. Eles aprendem com seus pais e também com suas mães. Com aquela mãe que lhe dá um vídeo pornô logo cedo para ele "aprender a dar no couro". Com aquele pai que olha para tudo quanto é mulher e o filho percebe. Com aquele pai que coleciona "revista de homem" e que já se viciou em pornografia. Com aquele pai que assina Onlyfans de alguma gostosa que ele jamais terá. Mas, que paga para ver. Faz questão de gastar dinheiro com isso. 

Um adolescente aprende cedo que é preciso passar no vestibular para ter dinheiro e que ele precisa comer o maior número possível de mulheres (uma das razões pelas quais ele deve ter dinheiro). E que se, por acaso, ele não comer, é importante ele ao menos dar a entender aos colegas que é um comedor. O valor de um homem, ele aprende, está no tipo de mulher que seu dinheiro consegue manter, no quão caro ele pode pagar num restaurante. Nada o envaidecerá mais do que conseguir trepar com um mulherão. Muitos não acham ridículo comprar uma mulher. Pelo contrário, isso lhes confere um status social. Eles têm uma gostosa porque venceram na vida. E como lhes é ensinado que esse é o principal benefício de ter uma mulher, por que desejaria o amor de alguma? Para ela controlá-lo? Para ele ter de ficar lhe dando atenção? Melhor é estar com os amigos, compartilhar fotos de mulheres e dizer o que fizeram com fulana e ciclana. É o momento da glória, da sensação máxima de que são homens. 

Essa semana, alguns meninos do 7o ao 9o ano de uma tradicional escola fluminense, criaram fotos nuas de colegas utilizando inteligência artificial. Tais fotos, apesar de fakes, eram convincentes. Foram compartilhadas em grupos de whatsapp. As meninas estão arrasadas e a escola ainda não deu suspensão aos garotos. As vítimas estão convivendo com os algozes, que ainda tiram chacota do sofrimento delas. Um dos garotos já disse que irá se safar. Porque é rico, branco e homem. Ele  já sabe que raramente homens são punidos por compartilharem fotos. Muito pelo contrário, ficam com fama de garanhões, o que acham maravilhoso. Certa vez, recebi por engano a foto de uma mulher nua. O homem que me enviou, homem de esquerda, que jura que é feminista e tá sempre fingindo que aprecia o intelecto feminino, compartilhou comigo a foto de uma mulher que o amigo dele estava pegando. A prática do compartilhamento de fotos íntimas de mulheres entre amigos, para todos punhetarem, rirem delas e depois as desvalorizarem. Não é um estupro coletivo. É mais leve: é uma punhetagem coletiva com fotos de mulheres que, ingenuamente, confiam neles e sequer imaginam que são uns misóginos fracassados. Fracassados como homens. Podem até conseguir dinheiro, podem conseguir comer várias. Mas, ainda estarão a anos luz de serem chamados de homens. Nem passam perto disso! Sequer sabem entender o significado da palavra homem. 

Quando contei a história dos garotos deste colégio para o meu filho, sua reação foi de nojo e horror. Respirei aliviada. Se ele risse, eu me sentiria a pior mãe do mundo. Como eu disse, mãe se culpa quase sempre. Mas, ele sentiu nojo, repugnância e tristeza. Ele ainda é o menino que na infância acompanhava as meninas ao ambulatório da escola quando elas se machucavam. Ano passado, do nada soltou a seguinte frase: "eu acho uma tremenda babaquice um homem ter muitas mulheres. Quando eu namorar, não vou ser como esses babacas não.". A mãe aqui se encheu de orgulho. Pensei: "ele deve ter visto algum amigo fazer isso",  pois havia revolta nas palavras, que foram exclamadas fora do contexto daquela frase. 

Uma das minhas séries favoritas é "O método Kominsky". Ela tem como foco a amizade entre dois homens em torno dos setenta anos. Ambos super vivos, trabalhando e cuidando de suas filhas. A série é inteligentíssima, sem violência, sem nudez e é deliciosa. Quem diria que uma série que fala sobre a saúde do homem e suas afetividades aos setenta poderia ser a minha favorita? Já a vi quatro vezes!

Assim que meu filho nasceu, comprei um livro sobre a saúde do homem. Isso mesmo que vocês leram. Ele ainda não era um homem e ainda não é. Mas, quando ele for, vou lhe dar uma cópia do livro. Uma cópia porque já percebi que a maioria dos homens não cuida da própria saúde. Acostumaram-se erroneamente a deixar isso a cargo exclusivo de suas mulheres.

A pessoa que aqui escreve e encerra este "textão", expressa sua tristeza em notar que parte considerável dos homens não respeita as mulheres, as objetifica, não é digna do carinho e nem da admiração da mulherada. Por outro lado, eu fico feliz em ver que muitos estão se esforçando para desconstruir o machismo e percebendo que ser homem não é ser moleque punheteiro, moleque que objetifica mulheres, moleque que se sente bem tratando mal mulheres e as silenciando. Um homem, verdadeiramente homem, jamais tirará proveito de uma mulher. Porque ele não precisa tirar. Enquanto os moleques carregam o sonho de comerem tantas gostosas quanto puderem, os verdadeiramente homens estarão ocupados beneficiando a sociedade de alguma forma. Há quem ame o conhecimento ou as belezas que duram mais que uma ejaculação. Como mãe, respiro aliviada de, ao menos perceber que meu filho sonha em ser um cara legal, honesto e respeitador com as mulheres.

E, se escrevo esse texto, é porque eu gosto de homem. De homem mesmo. Não de moleques. Desde que soube o sexo do bebê eu precisei acreditar na capacidade de os homens serem realmente bons. Afinal, botei um no mundo. Eu preciso acreditar sempre nisso.

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Os minimalistas e sua tesão pela falta

Quem nunca se deparou com aquela pessoa que gostaria de jogar um tanto de coisa sua fora? Aquela que implica por você ter uma coleção que guarda para ler quando tiver tempo, mas que ela acha que você nunca lerá só porque ela nunca leria.

Guardar coisas que não funcionam ou coisas estragadas é, de fato, uma perda de tempo. É até mesmo doentio.  Desapegar-se é fundamental. Porém, existe gente que não tá falando disso, que tá falando que, para viver, só é preciso o essencial. Mas, o que é o essencial? Para mim, pode ser essencial tomar café diariamente, enquanto para outros, isso é completamente dispensável. Existem pessoas que não compreendem isso. 

Têm mania de jogar tudo, tudo, tudo fora! Em suas casas, só cama, fogão, escrivaninha, geladeira. E, geralmente, na cor branca, sabe-se lá o porquê. O problema é que se tornam, quase sempre, militantes das ausências, dos emojis, dos textos sempre mínimos, quando há quem goste da vida concreta (presente em tudo!), do uso constante das palavras, da voz ao alcance das mãos.

Para mim, a parede não basta para eu manter de pé minha casa. Eu quero cor e quero quadros. Eu quero corredores com quadros, fotografias, mosaicos, porcelanas e corações mexicanos em chama (são tão bonitinhos). Quero placas que apontem para onde ficam o banheiro e os quartos. Quero que a casa guie os visitantes por si só, uma casa com timbre e personalidade. Uma  casa que converse com eles. Uma casa que estende flores pelo chão e não apenas as mostre amarradas dentro de um vaso branco com água sobre a mesa. Perdão. Sobre a escrivaninha.