segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Sonhos

Sobre sonhos, só sei sonhar acordada. Dificilmente sonho dormindo ou, se sonho, raramente me lembro do que sonho. Isso, aliás, me angustia um bocado – confesso. A Psicologia Junguiana leva muito em consideração a análise dos sonhos para chegar ao nosso inconsciente. Será que, de tanto pensar, sou toda consciente? Onde foi parar a minha parte de que pouco sei? Tenho até a impressão de que seja a minha maior parte. Quem sou eu, afinal? Hoje sou atormentada por essa curiosidade sobre mim mesma.

Sempre prestei muita atenção ao mundo que me cerca e à gente toda. Sempre fui profundamente atenciosa e cuidadosa com os outros. Ponderando, pensando, levando todos em consideração em qualquer decisão que não envolva só a mim. A meu ver, a vida é coletiva, no sentido de que mesmo a minha individualidade respeita a de qualquer outro ser humano. Não posso, não sei e não quero fingir que não vejo os outros. Eu vejo, eu olho, eu busco, eu penso, eu considero. Porém, de uns tempos pra cá, descobri que preciso também prestar atenção em mim. Será que sei o suficiente sobre mim? Dei-me conta de que não, de que me surpreendo comigo. Acho, inclusive, que sou eu a pessoa que mais tem me surpreendido!

Esse troço de caminhar pra si mesmo é muito complicado. Eu tenho a impressão de que a estrada que dá pra mim é repleta de buracos ou foi erguida só até uma parte. Será que foi mesmo construída? Ela existe? A minha caminhada a pé precisa também ser descalça? Há um mapa? Alguma dica para eu chegar até mim? Os sonhos poderiam ser parte dela? Se sim, o que faço, se não sonho quase nunca?

Recentemente, conversando com um amigo psicólogo, contei-lhe sobre o único sonho que me é recorrente, quando chego a me lembrar do que sonho. O mar invade o local em que estou. Porém, não o temo. No sonho eu me preocupo unicamente em salvar a vida de desconhecidos. A praia sempre lotada. No fim todos se salvam e o mar volta a ficar calmo. É uma espécie de tsunami temporário. Nenhum rosto sequer conhecido. Conhecido, porém, é o mar. No sonho, prevejo o momento exato em que avança, bem como o momento em que recua. Tenho intimidade com o mar.

Ah, e por falar em sonho, na semana passada assisti a um filme estranhamente belo. Ou seria terrivelmente belo? No mínimo, inusitado, posso dizer que o filme húngaro “Corpo e alma” é. A trama gira em torno do desejo de duas pessoas que trabalham em um mesmo local. Mas, o desejo só é aflorado quando ambos descobrem que, ao dormirem, têm exatamente os mesmíssimos sonhos! Eu fico pensando: que coisa mágica é essa de você dormir e ter exatamente os mesmos sonhos de uma outra pessoa, com exatamente os mesmos detalhes, os mesmos cenários e os mesmos personagens? Não seria incrível isso? Pois bem. É o que acontece no filme. A história se desenrola entre encantamentos e medos até que um dia tomam coragem de ir pra cama sem quererem dormir – se é que vocês me entendem. Transam. E, a partir daí, ambos param de sonhar ou simplesmente passam a não se lembrar mais do que sonham. Filme delicadíssimo, criativo, lindamente intrigante – exatamente do jeito que eu gosto.

Na Psicanálise, os sonhos também têm importância. Freud até escreveu um livro sobre a interpretação deles. Qual seria o significado de um tsunami e da minha intimidade com o mar?

Oscar Wilde, por sua vez, dizia que o mundo até perdoa os criminosos, mas nunca perdoa os sonhadores. O escritor falava dos que sonham acordados, dentre os quais eu me incluo. Para mim, é no sonho que nos colocamos por inteiro. A realidade é a máscara do homem. No sonho, a máscara é tirada. Nele o homem se despe. É preciso, portanto, ter certa dose de coragem para escolher sonhar acordado. Já para  sonhar dormindo, creio que só seja necessário ter um punhado de sorte. Ou, talvez, não transar com quem tenha os mesmos sonhos que você.