Não sei se vocês concordarão comigo ou se eu realmente mereço a medalha de ouro na corrida dos atletas textuais mais chatos. Sim. Esse será um texto chato. Com uma pitada de açúcar, quiçá alguém perceba. Quem sabe consigo esse milagre? Milagre mesmo - e dos bons - seria acordar numa época em que a maioria percebesse que há muito prazer em descobrir as coisas, em observá-las e até mesmo em querer ser surpreendida(o) por elas. Contudo, vivemos em um tempo em que pensar já parece ser algo nocivo ao homem. Um dia, talvez até transformem o ato de pensar em um ato criminoso. Não duvido nadinha disso! Tenho muita fé nas minhas dúvidas.
Coisas que o homem é absolutamente capaz de fazer, como, por exemplo, pesquisar e elaborar um texto, hoje são sistematicamente entregues a inteligências artificiais. Por quê? Porque elas são muito rápidas na entrega. Ora, mas por que pedir a alguém para fazer algo para você, se você é plenamente capaz de fazê-lo? Pois é. Por quê? Por que, oh, céus?
Dia desses, um colega de trabalho me falou que passou para seus alunos o gabarito de uma lista de exercícios. Para sua surpresa, alguns deles, em vez de lerem o gabarito, preferiram recorrer ao Chat GPT, mesmo este dando respostas imprecisas. Eles estão perdendo a capacidade de dialogar com pessoas reais? Estão perdendo a capacidade de apreciar o que é feito pela mente humana? Ou será que já estão viciados nesse troço, a ponto de preferirem trocar o certo (o gabarito detalhado) pelo duvidoso?
A propósito, o Chat GPT ainda não aprendeu a pensar. Por enquanto, usa dados e os analisa mediante algoritmos criados por pessoas. Os algoritmos é que determinam a conclusão a que chegam. Os mesmos dados podem produzir conclusões diferentes, a depender de como são programados para os interpretarem. O Chat GPT não pensa. Porque pensar não se resume a dar uma resposta. Pelo contrário, pensar está mais associado a saber fazer as perguntas certas.
Uma das coisas mais irritantes no Instagram são aqueles vídeos super óbvios repostados por alguém que cisma em querer explicá-los. Pessoa escolhe os ingredientes para fazer uma "omelete gourmet" (se não for gourmet, quem vai parar para ver, né?), filma cada etapa do processo e, mesmo assim, aparece alguém querendo traduzir o que não tem a mínima necessidade de ser traduzido! A coisa é tão absurda, que eu nunca sei se quem faz isso é um oportunista que rouba um trem de alguém para ganhar curtidas ou se simplesmente já acha que a humanidade perdeu completamente as suas capacidades mentais para conseguir compreender as coisas mais óbvias.
Querem ver outro exemplo que todos vocês também já estão carequíssimos de ver, em todo lugar e ao mesmo tempo? Explicações sobre ironias e metáforas! Ah, não entenderam o que estou dizendo aqui? Ok, ok. Vou explicar, então. Sabe-se lá se vocês são realmente capazes de entender sem que alguém lhes explique, né? Sabe-se lá. Então vai: imaginem que uma cobra picou vocês e, em vez de vocês procurarem tomar logo um soro, decidem é correr atrás da cobra para convencê-la de que vocês não mereciam ser picados - isso não é sobre cobras! Ah, como é necessário dizer que não é sobre cobras! É realmente muito importante explicar, destrinchar todos os códigos, antecipar tudo antes que qualquer um de vocês ouse tentar entender o texto sem querer ajuda alguma.
Essas coisas todas são tão bizarras, que desconfio seriamente que estamos sendo forçados a nos tornarmos completamente idiotas só para dependermos das tecnologias. A burrice é lucrativa, afinal.
Quando deixarão o nosso cérebro em paz?, eis uma pergunta que me aflige. Queremos ter o direito de pensar! Precisamos, em particular, de tempo para pensar. Pensar é descobrir por si só.
Tem coisa mais valiosa que o pensamento? Tem coisa mais poderosa? Tem não. Até mesmo nas relações afetivas, só se percebe a existência do outro a partir do momento em que ele passa a ocupar o nosso pensamento. "Eu penso em você" é uma clara declaração de afeto. Ou de ódio. Vai depender do que se pensa! Mas, enquanto não ocupar o pensamento, também não ocupará o coração. Embora o caminho mais provável seja o do coração para a mente, a mente decidirá o que ficará ou não no peito.
A regra é velha. Velha e muito clara: penso, logo existo. Não penso? Logo desisto. E desisto é de mim. Pensem nisso.