Ontem, dia 21 de julho de 2024, completei três meses sem conta no Facebook. Acreditem ou não, não tive crise alguma de abstinência nesse período. Muito pelo contrário. Muito pelo contrário mesmo! Tem sido um momento de pausas longas para leituras de todo tipo. Em particular, para livros escritos por pediatras, psicólogos e até mesmo profissionais da computação que afirmam que é preciso evitar o uso excessivo das redes sociais. Alguns, mais radicais, chegam a dizer que o melhor mesmo é abandoná-las.
Nem todos conseguem isso. Alguns, por vício. Outros, por necessitarem delas para divulgarem serviços ou produtos. Isso sugere que talvez as questões mais importantes sejam as que buscam responder apenas o que fazemos nelas, como as usamos e por quantas horas do dia. Abandonei o Facebook porque meus dados (assim como os de todos vocês) eram vendidos a empresas pelo Mark Zuckerberg e meu tempo era também, de certa forma, controlado por esse homem. O tempo todo o feed é invadido por vídeos e informações diversas sem que tenhamos o menor controle sobre elas. São dados em profusão, a maioria deles apenas servindo para nos roubar o foco. Tudo no Facebook é repetitivo. É um eterno retorno diário. Impossível não se desesperar diante desse cenário. Impossível não desejar unicamente fugir, achar a saída de emergência. E como eu não dependo dele para trabalhar, saí em definitivo.
O tempo atual é realmente de relações líquidas? Isso seria otimismo demais. Eu já arrisco considerá-las gasosas mesmo. Evaporam-se num piscar de olhos. Já há, inclusive, reportagens sobre o número crescente de pessoas que namoram ou namorariam inteligências artificiais. Afinal, as IAs não brigam, não discordam delas e sabem afagar seus egos. A IA não tem personalidade e, exatamente por isso, funciona como uma espécie de espelho de quem dela usufrui. Seu namorado dirá “Samanta, me indique uma leitura”. E Samanta indicará sempre algo dentro do que ele costuma ler. “Samanta, meu chefe não gosta do meu serviço.”. E Samanta lhe dirá para ter paciência, para relaxar, para perdoar o chefe. Samanta nunca dirá que ele talvez precise ser mais eficiente no trabalho. Samanta jamais o contestará em nada. Ela é ética, tem sempre o mesmíssimo humor, só fala quando perguntada e nunca fica cansada. Ela não torra, ela não vê os defeitos dele! E não ver os seus defeitos é o mesmo que estar a um passo de venerá-lo. E por que venerar é tão importante assim? Porque vivemos um momento em que tudo gira em torno da sedução e da idolatria de si próprio. É empoderamento, é ser afrontoso(a), é postar tudo o que faz nas redes, é se fazer uma celebridade, é buscar ter fãs, visualizações, engajamento. Mesmo que o engajamento seja em torno de absolutamente nada que engaje quem quer que seja. Todo santo dia as mesmas coisas, com pequenas variações. Absolutamente previsível para qualquer bom observador. Não é tão difícil perceber o emocional daqueles que se expõem mais. E é sobre as nossas emoções que as redes sociais agem. Chegam mesmo a contratar psicólogos e neurocientistas que os auxiliam a prender sua atenção, a emocionar você, a conduzir você a seguir o caminho A em vez do caminho B.
Se antigamente a dominação se dava pela repressão, hoje ela se dá pela ilusão da liberdade absoluta. Liberdade essa entendida unicamente como ter todas as suas vontades satisfeitas e nunca parar de querer algo que nunca teve antes. A liberdade de poder consumir sem parar. Poder é poder consumir. E liberdade é consumo.
Não é preciso ser muito brilhante para perceber que isso é um fiasco. Por que a liberdade deveria atrelar-se a ter todas as vontades satisfeitas? Sabemos perfeitamente que nunca as teremos. Precisamos aprender a viver sem querer tudo e sem ter muitas de nossas vontades realizadas. Isso nos fará bem. Gostar e querer com afinco exatamente aquilo que se tem, a ponto de se satisfazer, de não sentir outro tipo de fome mais. Isso nos traria tranquilidade, paz, independência. Aprender a “viver sem” é um Oasis no coração mais deserto. Viver aquilo que dá para viver, apreciar mais o possível que o impossível, viver a realidade, amar a rotina, o mesmo pão com manteiga, andar de mãos dadas com a mesma mulher ou o mesmo homem com quem você se deita há mais de vinte anos e não se cansar disso nunca. Uma vida sem espetáculos, sem aplausos, sem fogos de artifícios. Mas, com muitas árvores. Uma vida fincada na terra, com toda a paciência que esse elemento exige de nós para nos dar apenas aquilo que nela plantamos. E nada além daquilo que plantamos.
É nessa vibe (usando aqui um termo jovial para conseguir uma curtida) que se dá o roteiro do filme “Dias perfeitos”, que está disponível na plataforma de streaming MUBI. Um filme que insiste em nos fazer lembrar das nossas necessidades mais básicas, sendo a mais básica delas a beleza. Afinal, é da beleza que emerge todo o sentido da vida. O protagonista, um faxineiro de banheiros públicos de Tóquio, vive todos os seus dias praticamente do mesmo jeito, fazendo as mesmas coisas, sentindo os mesmos sabores. Porém, ele não se entendia nunca. As repetições jamais o aborrecem. Porque ele repete aquilo de que gosta e também aquilo que não consegue modificar mais. Abraça a vida na plena aceitação dela, no amor fati.
Limpar privadas é um trabalho chato como também são muitos outros. Porém, nem todos os trabalhos são necessários à sociedade como o daquele protagonista. O filme deixa isso muito claro, uma vez que os banheiros só ficam limpos quando ele aparece. O tempo todo tem gente entrando e saindo desses locais. Deste modo, o filme trabalha bem o conceito de alienação. Se tem algo que o faxineiro não é de jeito nenhum é alienado. Ele está sempre dirigindo a sua própria vida. Muitas são as cenas em que está pilotando seu carro ou sua bicicleta pelas ruas da cidade. Rechaça a tecnologia que considera desnecessária à sua vida. Ouve fitas cassete em vez de cds. Frequenta sebos.
A coerência do personagem é tão grande, que em sua própria casa não tem banheiro. Em outras palavras, ele realmente só suja aquilo que ele mesmo limpa. É, portanto, uma pessoa honesta consigo mesma.
O acaso, ou seja, a aceitação da vida como ela é, está nas fotografias aleatórias que tira das mesmas árvores com uma máquina fotográfica antiga. Ele não sabe o que é um Iphone, mesmo morando no Japão! Se as fotos não ficam boas, ele as joga fora. Simples assim. Faz parte da vida dar ruim de vez em quando. Aceita-se isso e se continua fotografando. Quem disse que tem que dar certo sempre? A vida é um constante correr riscos, é sempre uma probabilidade e nunca uma certeza. Funciona exatamente como um jogo da velha. Nada mais e nada menos que um jogo que escolhemos para passar o nosso tempo. E, sim, há quem prefira os videogames.